Jurou que não se meteria na política, que será um péssimo político, e que a política não precisa de militares. Esta quinta-feira, Gouveia e Melo, “o Almirante”, candidata-se a Presidente da República. Eis o essencial da sua vida, do seu pensamento e da sua reviravolta, nas suas palavras
O menino
Desde pequeno que sou muito disciplinado. Fui um estudante preocupado, muito focado nos objetivos que tinha para cumprir. E fazia os sacrifícios necessários para os atingir. Em termos cerebrais, estou mais com Portugal; já o coração inclina-se mais para África, porque foi lá que vivi até à adolescência e as memórias de infância tocam-nos muito. Digo muitas vezes que o meu coração está em África e o cérebro em Portugal. [Em Moçambique] eu ia para o mato, tinha as brincadeiras típicas do pequeno selvagem: fazia vela, andava no lodo do rio… Em África, as iniciações sexuais davam-se mais cedo. Éramos mais tipo Brasil. Quando cheguei cá, estava com 15 anos, fui para Viseu e tinha uma namoradinha que me atirava uns bilhetinhos para o chão. Achava aquilo tão ridículo que deixei de namorar.
[Tinha um] tio [que] era salazarista, havia outro que era filiado no Partido Comunista e o meu pai um homem do centro-esquerda. O meu pai sempre foi um liberal da área socialista, era um crítico do regime. Ele e o Almeida Santos escreviam em jornais locais [em Moçambique]. Quando houve a Revolução, o meu pai achou que o regime ia para uma ditadura e não queria viver numa ditadura comunista. Resolveu emigrar para o Brasil, mas arrependeu-se. Aliás, a seguir ao 25 de Novembro, quando a democracia se começa a solidificar, regressámos logo a Portugal. Nós, que vínhamos de África, tínhamos skills de sobrevivência tão apurados que depois nos ajudavam a sobreviver num outro ambiente.
O moço
Só sendo emigrante é que se percebe o que é ser verdadeiramente português e eu senti muito cedo esse apelo: queria servir o meu país. E, como tinha vindo do império, achei que Portugal estava muito reduzido, era um quadradinho. Para progredir tinha de haver uma nova força. E o mar para mim era óbvio. Somos um país que, cada vez que se foca em terra, perde força; e cada vez que se foca no mar, ganha força. Eu quis participar de uma coisa que seria estruturante para esse grande projeto que era o mar. Sou dos últimos portugueses do Império, mas os impérios acabaram.
Tinha algum sucesso [junto das raparigas]. Os meus colegas pediam-me conselhos nessa matéria e eu dizia que o truque era fazer rir as raparigas. De resto, divertia-me como os outros rapazes da minha idade. E, como não bebia, era o ‘carro vassoura’ que tinha de os levar a casa. Beber e sentir que podia perder o controlo fazia-me muita aflição. Uma vez, bebi uma cerveja: aquilo era amargo. Foi a última.
O submarinista
Há o mundo dos vivos, dos mortos e o dos submarinistas. Um submarinista é um gajo duro. Acho que, como o corpo precisa de sofrimento para se tornar atlético, devíamos fazer as coisas sem paliativos e sorver a experiência na totalidade para nos prepararmos para o futuro. Na Marinha, por exemplo, eu sempre quis fazer as coisas mais esquisitas, mais difíceis, porque achava que eram as mais interessantes. Há quem diga que fiz 31 dias num submarino porque era ambicioso. Ninguém quer sofrer 31 dias por ser ambicioso, eu pelo menos não. Havia uma meta, eu tinha de a ultrapassar.
Acho que, na área militar, tem de se investir a sério e pensando nos benefícios para a nossa economia. Acho que nós conseguimos fazer um drone tão bom ou igual aos israelitas. Temos tecnologia hoje no país para o fazer. Eu já desenhei o protótipo para um drone. Portugal, sendo um país pequeno, tem de se proteger. Vejo sempre a guerra não no sentido ofensivo, mas defensivo. E a guerra tem de ter ética.
Em terra somos mesmo pequenos. No mar é que somos grandes. Somos gigantes. É o que nos dá importância geoestratégica.
O duro
Fui dos poucos oficiais que ao longo da minha carreira tive lutas com os meus superiores e entrei nalgumas que me podiam ter destruído a carreira. Ao longo da minha carreira, fui sempre notando que havia um medo que toldava os portugueses. Sentia o receio nos meus colegas, que não arriscavam com medo de poderem ser prejudicados na carreira. Sempre fui muito exigente no meio português, que é pouco exigente por natureza e por cultura. Passei a minha vida a lutar contra o sistema.
Este país eram anos para endireitar. O que me chateia é a cultura do português. Como povo, temos coisas fantásticas, mas, ao nível organizativo, acreditamos muito no improviso. Nisto sou muito anglo-saxónico e faz-me confusão a inércia do sistema.
A liderança militar pode fazer sentido em termos do que é o nosso ritmo de resolver problemas complexos e encontrar soluções rápidas. Por exemplo: eu sou alto, visto uniforme, tenho voz de comando e sou assertivo. Só essas quatro coisas ajudam logo o processo. Depois, tenho ideias, desenvolvo-as e sou obsessivo. Faço o que tiver de fazer e sou impiedoso com os malandros. Sou super piedoso para as pessoas que fazem bem, erram, mas deram tudo. Desde que não atrapalhem o percurso que tenho de fazer, passam a ser indiferentes. E, por isso, a minha ânsia reflete-se mais em mim e na necessidade de estar permanentemente a encontrar novas soluções. Isso também é o meu alimento.
A maior parte das pessoas que viveram comigo parte do meu percurso nunca conseguiram entender o que me motivava. Se uma pessoa dá 10 eu peço 12, se dá 12 vou pedir 14. Não gosto de perder porque é um desafio. Não é porque me sinta superior ou inferior ao meu adversário. Gosto de fazer coisas difíceis, mas as manifestações de apreço não me interessam.
Sempre fui muito rigoroso. Acho que a falta de rigor é falta de disciplina e falta de disciplina é descontrolo. Odeio o descontrolo. Sou uma pessoa muito aborrecida na minha vida diária. Estou de tal maneira focado nas coisas que tenho de fazer que roubo a paciência às pessoas que vivem comigo. E, como não me canso, torno-me cansativo. A minha mulher diz que vivo numa bolha e que afasto os outros. Quem vive ao meu lado queixa-se muitas vezes de eu ser mais máquina do que humano. Estou tão obcecado com a bolha que me abstraio um bocado das relações que tenho. Eu tento ver o problema de uma forma muito física e, quando não consigo, desinteresso-me.
O guru de auto-ajuda
Para mim, a matemática e a física são ferramentas para a vida. Quando estou stressado, leio matemática ou física. Gosto muito de computação e do movimento ‘do it yourself’, de construir coisas. Quando era pequeno já era um engenhocas.
Não gosto de heróis. Incomoda-me ser importante porque importante é o grupo. Este Portugal está órfão de um Sebastião, está sempre à procura de um novo. É um traço psicológico do povo português. Mas o Sebastião está dentro de nós, não temos de procurar por ele.
O anti-candidato
Não estou preocupado com o meu futuro. Hei de ir para África fazer alguma coisa. Não sou ambicioso como alguns dizem. O poder só serve para fazer coisas. Não é uma personagem que salva a democracia, porque isso cheira a outra coisa. Eu não quero ser essa pessoa, quero ser um militar que cumpriu o seu papel quando foi chamado. Não há necessidade de nenhum militar vir para a política.
Não sinto necessidade de dar [o meu contributo] enquanto político, primeiro porque não estou preparado para isso, acho que daria um péssimo político e também acho que devemos separar o que é militar do que é político, porque são campos de actuação completamente diferentes. A política é uma arte de negociação permanente, nós [militares] somos menos negociadores, na nossa maneira de estar a rapidez da ação não exige de nós grandes capacidades de negociação, exige grandes capacidades de decisão e de decisão sob stress.
Eu sou militar, não tenho jeito para político. Não quero ser o tipo imprescindível. O cemitério está cheio de imprescindíveis. Eu tenho a certeza absoluta de que há dentro do quadro democrático e da sociedade civil pessoas muito mais capazes para desempenhar esse papel. Nenhuma organização deve estar presa a um homem. Nenhum de nós é importante. Somos uma função num determinado momento da história e num determinado local. As pessoas que se julgam importantes são naturalmente parvas.
Não sou protocandidato a nada, não gosto que me imiscuam na área política, sou militar e não tenho intenção no futuro de me candidatar a nada. Isto é um não. As pessoas têm de entender que quando eu digo não é não. Não tenho de preparar o meu papel [para um cargo futuro]. Eu sou um militar e o papel é o que me derem. A democracia não precisa de militares. Gosto muito de ser militar, mas o militarismo excessivo não faz sentido.
A classe política portuguesa é muito desenvolvida e estruturada, a democracia está estruturada e terá os seus caminhos e encontrará sempre as suas soluções.
A política existe em todos os momentos da nossa vida [e] não incluo nem excluo a possibilidade da candidatura [à Presidência da República]. [Mas] se os senhores pensarem – não quer dizer que vá concorrer à Presidência – que votando em mim não precisam de fazer nada porque os vossos problemas vão ser resolvidos por aquele milagreiro que vai assumir a Presidência, não votem em mim, por favor. Votem lá num outro milagreiro qualquer porque eu não sou esse milagreiro.
Espero não me deixar cair na tentação política. Se isso acontecer, dêem-me uma corda para me enforcar.
O candidato
A minha decisão é avançar com a candidatura à Presidência da República... Ela será anunciada formalmente no dia 29 de maio. Não há dúvidas. A ideia de que os militares não podem participar na política é antidemocrática. Ninguém tem o monopólio da política. É preciso renovar, agregar conhecimento e experiências, e melhorar o ecossistema político, tornando-o mais diversificado e competente. Vou ser mesmo candidato. Neste momento do anúncio da minha candidatura não me quero preocupar com o passado, só me quero preocupar com o futuro.
Situo-me politicamente entre o socialismo e a social-democracia, defendendo a democracia liberal como regime político. A prosperidade só se materializará numa economia de mercado livre. O Estado não deve cair na tentação de conduzir a economia, mas intervir apenas na medida do necessário para garantir uma sociedade mais próspera, coesa e menos desigual ao alcance de todos os cidadãos.
Vivemos tempos perigosos, com atores poderosos a tentar subverter a ordem mundial em função dos seus interesses. Agora, mais do que nunca, a liderança, a capacidade de decisão e a coesão nacional poderão revelar-se fatores críticos para o sucesso ou, pelo contrário, para o fracasso das nossas sociedades. Não basta sonhar ou recorrer a discursos elaborados, repletos de fórmulas gastas e banalidades cínicas. É essencial saber fazer, apontar caminhos, ultrapassar obstáculos, decidir com base em evidências e ter a coragem de explicar, envolver e agir.
Caso os portugueses considerem que eu tenho condições para ser Presidente da República, a minha forma de atuar será muito diferente do atual Presidente. Um dos poderes informais mais importantes do Presidente é o poder da palavra. Quando o Presidente fala, não é um cidadão comum, é a República. Tem a obrigação de usar a palavra seguindo as regras da relevância, isenção, equilíbrio, contenção e gravitas.
Na conjuntura atual, um Presidente sem a independência necessária afunila a democracia. Por isso, a bem do sistema democrático, devemos querer um Presidente isento e independente de lealdades partidárias. O Presidente da República, por ser eleito por maioria e não dependente de partidos, pode contribuir de forma muito decisiva para a estruturação da política de médio e longo prazo, com uma visão estratégica, e para as reformas estruturais que há muitos anos estão por fazer na sociedade portuguesa.
No regime semipresidencial português, o Presidente da República é o garante último da Constituição, da unidade nacional e do regime democrático. É-lhe conferido o poder de convocar eleições antecipadas e reiniciar o sistema fora dos períodos eleitorais previstos, ou mesmo, em situações especiais, demitir o Governo. Este poder só deve ser exercido quando existir a forte convicção que o contrato entre governados e governantes foi significativamente comprometido: por uma perda de confiança insanável do povo no Parlamento e/ou no Governo em funções; por um desfasamento grave entre os objetivos-prática do Governo e a vontade previamente sufragada pelo povo; ou por uma tentativa de usurpação de poder e subversão da Constituição, à margem da lei.
O mundo está todo em mudança e eu olho para o que temos e penso que ainda estamos no século passado. A instabilidade interna está aos olhos de todos nós, portugueses. Nós temos tido governos de curta duração, não temos conseguido ter uma governação estável e, num mundo em mudança, mudando a própria ordem internacional, com uma guerra na Europa e uma instabilidade que põe em causa a própria NATO, que põe em causa o futuro da ordem mundial, todas estas coisas fizeram-me refletir e contribuíram para a minha motivação para avançar. Se ainda assim ‘estiverem a tremer’, é dizer-lhes o que se diz aos militares: colinho dá a mãe em casa.
Nota do autor: Todas as frases citadas acima foram ditas por Henrique Gouveio e Melo em entrevistas, declarações à comunicação social, intervenções públicas ou textos de opinião. Foram usadas diversas fontes, nomeadamente Sol, Expresso, Público, Rádio Renascença, RTP e Agência Lusa. A seleção e edição das frases é da exclusiva responsabilidade do autor.