Folhetim de voto | Onde cabem dois cabem três? Depende da vontade (e da matemática)

13 mai 2025, 08:00
Luís Montenegro em Espinho

Depois de um pico de ciúmes, voltou a harmonia doméstica à coligação PSD-CDS. Nuno Melo anda um passo atrás de Montenegro, com trela curta para garantir que o seu único parceiro não anda com ideias de affairs a três. Mas mais do que pode a vontade de um homem, podem os números e as circunstância. Domingo à noite se verá quantos entram na coligação

Só quem é cego e surdo ainda não percebeu que a coisa pode rolar entre a AD e a IL. Escrevi há tempos nesta coluna como “pintou um clima” entre Luís Montenegro e Rui Rocha no debate dos líderes com assento parlamentar. Se Nuno Melo fosse líder de um partido com assento parlamentar que foi efetivamente a votos, estaria nesse debate e talvez pudesse ter inibido o seu parceiro no flirt descarado com o líder da IL. Mas como se dá o caso de Melo só ter dois deputados à boleia da AD, ficou em casa a ver.

Obviamente, Nuno Melo, que é um homem do mundo e já tem cabelos brancos, percebe os sinais. Por isso sentiu necessidade de avisar num comício, no sábado, que "a coligação que o CDS tem é com o PSD, não é com mais ninguém". Melo, filho do Norte que representa os valores conservadores, é homem de uma coligação só. Como cantaria a Alcione: “Meu vício é você, meu cigarro é você / Eu te bebo, eu te fumo / Meu erro maior eu aceito, eu assumo / Por mais que eu não queira, eu só quero você” (o Pedro Santos Guerreiro cita Cervantes, eu cito a Raínha Marron, é esta uma das belezas deste exercício…)

Ajudou à bravata de Nuno Melo o facto de estar a jogar em casa, em Famalicão. Debalde. No caso, de balde na areia da praia. 

 

Swipe right. Já sabíamos que quem é liberal joga vólei de praia – é uma ação de campanha clássica da IL, entendendo-se aqui por “clássico” ser uma tradição iniciada há poucos anos por João Cotrim Figueiredo –, e no sábado Rui Rocha cumpriu essa nobre função, na praia de Carcavelos. Por coincidência, logo no dia seguinte, Luís Montenegro também fez um jogo de vólei na sua Praia Azul, em Espinho. Hobbies em comum? Check! Swipe right.

Sabemos que o vólei de praia é uma modalidade de duplas, e os jornalistas, oportunos, perguntaram ao Luís se gostaria de jogar em dupla com o Rui. O líder da AD admitiu que sim, mesmo sem conhecer bem as qualidades do eventual parceiro. Como se lê nas revistas del corázon, está disponível.  “Eu não sei o que é que ele joga, mas vamos admitir que sim. Partimos sempre de um espírito positivo”. 

 

Nunca negues à partida. É esse o espírito: nunca negues à partida uma dupla que nunca experimentaste. Que, neste caso, é um trio. É complicado… Então, e o CDS?, insistiram os jornalistas, com pertinência. “Ficava para todo o trabalho que é preciso em equipa, seguramente”. Pode levar as bolas, tratar dos calções e camisolas cavas, verificar a segurança das redes… Tanta coisa que é preciso para que o trabalho em equipa corra bem.

Nuno Melo, naturalmente, não gostou. Reconheceu que sim, “é verdade”, disse que “a coligação do CDS é com o PSD” e acrescentou: “Todo o meu desejo é para que a AD tenha um resultado robusto, o maior resultado, que nos permita numa governação dependente apenas de nós e não depender dos outros.” 

Tendo em conta que da última vez que foram a votos sozinhos, em 2022, o CDS elegeu zero deputados e a IL elegeu oito; tendo em conta que nas últimas legislativas, há um ano, o CDS só conseguiu dois lugares no Parlamento à boleia da AD, e a IL sozinha conquistou os mesmos oito; e tendo em conta, por fim, que Nuno Melo só não caiu no completo olvido nesta campanha porque Montenegro o despachou para três debates televisivos (dos quais, dizem os “painéis de comentadores”, terá perdido dois), não se vê bem por que razão o líder do (ainda) CDS há de engrossar a voz em relação ao pater familias

Dada a considerável irrelevância eleitoral do CDS, corre o risco de ter o tratamento que teve, há um ano, o PPM – lembra-se? Há um ano também havia um trio, a AD era formada pelo PSD+CDS+PPM. Dava-se o caso do líder do PPM abrir a camisa, mostrar o cordão de ouro, e lançar tiradas de marialva, eu isto, eu aquilo. Acabou, como é sabido, por ser trancado numa qualquer cave, sem possibilidade de falar, sem poder participar da ação e até sem convite para a festa final. Para quem estivesse esquecido, Gonçalo da Câmara Pereira, o desditoso líder do PPM que entrou na coligação mas não na ação, foi avistado ontem na Feira de Espinho, por onde também andavam Montenegro, Pedro Nuno Santos e Inês Sousa Real.  

 

Big daddy, “o Farol”. É bom que Melo não se esqueça: Montenegro é “o Farol”, bonito cognome inspirado em regimes totalitários. O big daddy, como se diz agora; ou o cabeça de casal, como se dizia antigamente. No próximo domingo à noite os números serão mais importantes do que os gostos de cada um. E o big daddy decidirá o que se segue. Manda quem pode.

A prova de que o número de ciúme de Melo não passou disso mesmo, foi vê-lo ontem, na Feira de Espinho, respeitosamente um passo atrás de Luís Montenegro. Rui Rocha pode dizer que foi cortejado pelo PSD para entrar na coligação – facto que Montenegro não desmentiu, mas desqualificou como “mexericos” (e muitos homens de meia-idade se poderão rever nesta reação). Mas a verdade é que enquanto Rocha fazia campanha em Olhão, Melo estava ali, com um sorriso bem posto, a aparecer nas imagens de TV por detrás do ombro esquerdo do líder da AD (na gíria jornalística, essa pessoa que se posiciona para aparecer por cima do ombro do líder é o chamado “papagaio do pirata”).

“Não estamos aqui para nos lamentarmos da situação, estamos aqui para trabalhar em cima dela”, explicou Montenegro, de forma talvez excessivamente gráfica, para até Nuno Melo perceber. As sondagens não dão certezas sobre a utilidade de um eventual entendimento AD-IL, que os liberais com alta probabilidade só aceitarão se a soma der maioria absoluta. Por outro lado, em Viseu, o cabeça de lista local lembrou a Montenegro que as eleições não estão ganhas e que há círculos onde a IL é irrelevante e o melhor mesmo é o apelo ao voto útil. A precaução pareceu avisada. 

Mas, se avançar o tal trio, nem se vê como o CDS tenha força para impedir o casamento ou discutir posições. Ainda que contrariado, dada a assimetria entre a possível robustez da IL e a já crónica pequenez do CDS, Melo e companhia podem ver-se numa posição desconfortável, mas obrigados a sorrir, aceitar, e fingir que tudo está bem oleado. Pode doer na alma ou no amor próprio, mas é melhor do que voltar a ser relegado para o basfond do debate dos partidos sem assento parlamentar (a que há quem chame “debate dos chalupas”). Melo já andou por essas ruas da amargura e, aposto, prefere continuar a ser ministro da Defesa, ainda que tenha de engolir, vá lá, dois ou três ministros liberais.

 

Disse radical? Pedro Nuno Santos acha que a hipótese de a AD se aliar à IL é uma espécie de fim dos tempos; ou, pelo menos, o fim do nosso modelo de Estado social. Considera que só quem esteja “de cabeça perdida” pode contemplar tal ideia. Um acordo desses, diz o líder socialista, “é uma mistura explosiva do ponto de vista do radicalismo e do ataque ao Estado social”. Não deixa de ser curioso vindo de quem manteve a funcionar uma “geringonça” com partidos que eram vistos como igualmente radicais – mas que habilmente foram moderados pela responsabilidade de serem poder. Poderá acontecer o mesmo com a IL? Duarte Cordeiro, que se juntou à caravana socialista, não acredita nisso e carregou nas tintas sobre tudo o que é direita, do PSD, à IL e ao Chega, que acusou de "trair a Pátria".

Pacheco Pereira, que conhece bem o PSD e organizou uma excelente exposição sobre Francisco Sá Carneiro que está patente na Câmara Municipal do Porto (e cuja visita recomendo vivamente) tem uma ou duas opiniões sobre estas proximidades excessivas do seu (ainda) partido com a IL. Partilhou-as no programa O Princípio da Incerteza, na CNN. Começou por notar que o CDS hoje não é mais do que os Verdes são para o PCP, ao contrário da IL, que vai a votos, o que lhe dá capacidade de negociação. 

 

O princípio da certeza. Mas Pacheco disse mais: “O programa mais radical nestas eleições é o da IL. É aquele que, se for tomado a sério, e parto do princípio de que pelo menos a IL o toma a sério, implica alterações profundas da organização da vida económica, da vida social e da vida política em Portugal. (...) O Programa da IL é em bom rigor uma versão adocicada do programa do Millei na Argentina. É um programa que, em primeiro lugar, é completamente contraditório com o que sobra de social-democracia no programa do PSD. (....) Por isso, ou a IL, na mira do poder, abandona completamente tudo aquilo que é identitário, programático, liberal (...), ou vai ser muito difícil negociar um programa de Governo com um partido que todas as receitas que propõe são antagónicas inclusive com o PSD dos dias de hoje.”

Por falar no que “sobra de social-democracia” no atual PSD, a tal exposição sobre “Francisco Sá Carneiro e a construção da democracia portuguesa” mostra bem o quanto o partido que hoje existe se afastou do pensamento do seu fundador e eterno “santo padroeiro”.

 

A arte de bem receber. Luís Montenegro foi bem recebido na Feira de Espinho. Pedro Nuno Santos foi bem recebido na Feira de Espinho. Inês Corte Real foi bem recebida na Feira de Espinho. Gonçalo da Câmara Pereira recebeu um abraço de Salvador Malheiro na Feira de Espinho. Paulo Raimundo foi bem recebido na Escola António Arroio (“Eu sou um bocadinho tímido, portanto fico um bocadinho à rasca com estas boas recepções. Mas é muito bom!”, confessou). André Ventura foi bem recebido em Portimão. Rui Tavares deve ter sido bem recebido num autocarro da Carris, pois após essa viagem falou em “duplicar a representação parlamentar” do Livre. Mariana Mortágua foi recebida com cravos vermelhos no Forte de Peniche. Nas notícias não há referências à qualidade da recepção a Rui Rocha, que visitou uma fábrica de microalgas e sal marinho em Olhão, mas depois de ter sido pintado de verde em palco, tudo é lucro. Até a ministra da Saúde parece que foi bem recebida numa arruada da AD em Chaves, no mesmo dia em que se soube que no ano passado a mortalidade infantil em Portugal aumentou 20%. Portugal é mesmo um país que sabe bem receber. Não admira que esteja inundado de turistas.

 

A arte de inibir jornalistas. Já sabemos que Luís Montenegro gosta de mimetizar Cavaco Silva. Escusava de ir tão longe na desconfiança e desprezo em relação aos jornalistas. A cena de ontem, quando ralhou a um jornalista que lhe perguntou sobre a Spinumviva, em Espinho – e que lugar mais apropriado para perguntar sobre a razao desta crise política do que onde tudo começou? – faz temer que um eventual novo Governo AD seja marcado por uma relação tensa, conflituosa e de pressão sobre a Comunicação Social. Temos visto disso em muitos países. Escusávamos de importar também essa moda.

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