O protagonista de hoje não é um indivíduo, mas um povo. Os ciganos, discriminados e destratados por Ventura há anos, têm o direito à indignação e ao protesto. Mas arriscam fazer um enorme favor a Ventura
Se há coisa que André Ventura adora, ainda mais do que rezar para as fotografias, é apresentar-se como vítima. O homem que fala de si como se fosse o 4⁰ pastorinho de Fátima, na verdade, é quase um Cristo. Isto, a julgar pela sua versão dos acontecimentos. É vítima do sistema (que o patrocina), é vítima da comunicação social (que sempre lhe deu um destaque desproporcional), é vítima da Constituição (que não o deixa levar adiante propostas inconstitucionais), é vítima de Luís Montenegro (que não lhe deu os lugarzinhos que ele tanto queria no Governo).
Não há nada de especificamente chegano nesta choradeira constante. É indigente, mas não é indígena. Trump está sempre em lamúrias. Bolsonaro tinha sempre um queixume. Millei não para de se queixar. O Vox vitimiza-se, a AfD vitimiza-se, Marine Le Pen vitimiza-se. Queixam-se de não haver lei nem ordem, e queixam-se quando a lei e a ordem se lhes aplicam.
Não sabemos se os portugueses apreciam este registo floco de neve, mas sei que há pelo menos um caso na nossa democracia em que um político beneficiou por ser vítima: é relativamente consensual que a campanha presidencial de Mário Soares só descolou quando este foi alvo de uma agressão na via pública, na Marinha Grande, durante um ato de campanha. A comunicação social testemunhou e relatou ao país o que sucedeu. Soares portou-se com dignidade, enfrentou o seu agressor, mas não ficou a choramingar a sua triste sina. Fez peito e seguiu - diz quem estava com ele que Soares percebeu logo ali o quanto tinha lucrado.
Há anos que Ventura procura a sua Marinha Grande. Um dia, em Setúbal, quando saiu de uma ação de campanha à porta fechada, acenou a um grupo de manifestantes que o apupavam do outro lado da rua atrás de baias policiais. Quando foi atingido por uma caixa de pastilhas elásticas, abrigou-se no carro, fugiu da cena e pôs a correr que tinha sido apedrejado. Sim, mas com uma caixa de Smints. Depois disso, na campanha de 2024, queixou-se de ter sido recebido com tiros quando a sua caravana chegava a Famalicão. Afinal, eram só rateres de uma mota que integrava a comitiva - palavra da PSP, que fez um comunicado desmentindo o suposto atentado. Ventura não só insistiu na tese dos tiros como desqualificou a versão policial; logo ele, que se diz o maior defensor das forças de segurança.
Este ano, talvez Ventura consiga o que procura há tanto tempo: a sua Marinha Grande. Tem trabalhado para isso, na saraivada de ataques contra imigrantes e a comunidade cigana. Ontem, em Braga, quase ganhava o jackpot. A campanha do Chega trocou insultos com um grupo de duas dezenas de indivíduos de etnia cigana e quase chegavam a vias de facto. Ou melhor: chegaram a vias de facto, com o líder da extrema-direita, assim que chegou ao local combinado, a ser cuspido por alguns manifestantes da comunidade cigana que lhe fizeram uma espera. A coisa só não descambou em confrontos físicos porque um dos líderes locais da etnia, Célio Maia, usou da sua autoridade e força para afastar os seus manifestantes dos apoiantes do Chega.
Na véspera, já tinha havido bate-boca em Aveiro, sem que se chegasse a tanto. Mas quem semeia ódio colhe ódio. O Tiago Palma explica aqui, tintim por tintim, os acontecimentos da manhã de ontem.
A questão, neste Bestiário, é outra. É a escolha que umas dezenas de indivíduos, que decidiram pagar na mesma moeda e não dar descanso a Ventura, terão de fazer entre o direito à indignação e oferecer argumentos ao adversário. É, para usar duas frases feitas, a ponderação entre quem não se sente não é filho de boa gente e entregar o ouro ao bandido. A resposta pode parecer evidente. Mas a evidência não é a mesma para cada um.
A ascensão da extrema-direita colocou muitos dilemas às democracias, alguns deles relacionados com questões tão básicas como as regras do jogo. Há regras escritas, e não escritas, que a extrema-direita obliterou, como a civilidade e o respeito básico pelos adversários - seja na rua ou nas instituições - e por um módico de verdade. A violação permanente das regras do jogo veio a par com as provocações destinadas a incitar a reação dos visados, para que os provocadores possam (lá está) apresentar-se como vítimas. Infelizmente (mas não por acaso; basta pensar no papel das redes sociais), muitos dos que assistem ao jogo – ou seja, os eleitores – só reagem à boçalidade, ao confronto e à culpabilização fácil.
O Chega segue essa cartilha, e parece ganhar sempre: ganha quando a má criação, a mentira e a provocação ficam sem resposta; ganha quando há reação do outro lado. Nunca foi tão verdadeira a recomendação de George Bernard Shaw para que nunca se lute com um porco, porque ficamos sujos e o porco gosta.
A indignação da comunidade cigana ao fim de anos de bullying, mentira e diabolização por parte de André Ventura é mais do que compreensível. Mas não caio na armadilha de, para contrariar a xenofobia e racismo do Chega, ignorar os problemas que existem em relação a elementos da comunidade cigana. Há exemplos clássicos, sejam os casamentos arranjados entre crianças (a que uma lei recente tentou responder, proibindo o casamento antes dos 18 anos), sejam as dificuldades ou total desinteresse na integração de algumas comunidades, que optam por um auto isolamento que alimenta desconfianças e aumenta tensões.
Admito que já tive o meu quinhão de problemas com membros da comunidade cigana. Mas, em geral, já tive o meu quinhão de problemas com portugueses sortidos, de várias cores, de várias etnias, de várias condições sociais e com vários sotaques regionais. Nunca me ocorreu estender à comunidade toda o que é feito por indivíduos concretos.
É isso que o Chega faz, diabolizando e culpabilizando “os ciganos” como diaboliza e culpa “os imigrantes”. Boa parte das vezes, os dois preconceitos sobrepõem-se, e é comum ouvir-se - como se ouviu ontem - o clássico “vai para a tua terra”, dito a gente que é portuguesa há gerações e gerações, ou o exaltante (para eles) “Portugal é nosso”, dirigido a quem também é Portugal.
Confrontado com o execrável racismo destes ataques, Ventura argumenta sempre que os números provam o que lhe convém. Que “eles” não trabalham, que “eles” são subsidiodependentes, enfim, que “eles” são um dos males da Pátria. A história do povo romani está cheia de acusações destas, por muitos séculos, em muito lado. Quando lhe perguntam, como ontem, que números sustentam essas acusações, Ventura responde: “números que eu já divulguei”. Vindos de onde? Na maioria dos casos, dos refolhos do seu cérebro. Mas enquanto o fact check vai e vem, dá-se fogo à mentira.
Mário Soares, um dos Presidentes mais populares e ecuménicos da história do Portugal democrático, bateu-se pelo direito à indignação, algo que não existe na lei mas que passou, pela força política de Soares, a ter peso de quase-lei. Os direitos exercem-se, sob pena de serem esmagados e anulados. E não faltam razões à comunidade cigana para se indignar com Ventura e o seu partido.
O problema é que, no clima de tensão que se instalou, entre a indignação e o confronto há um fino arame sem rede por baixo. Fazer de Ventura um alvo ambulante de cuspidelas é dar-lhe o que ele mais quer: razões de queixa. Tempo de antena. Pode ser o clique que reanima uma campanha que parece marcar passo. Tirando a “bolha” partidária que sempre envolve o líder (no caso de Ventura também há a bolha de seguranças, pois Ventura só é valentão com seguranças à volta), a rua não tem sido assim tão generosa com o Chega. Até a arruada de Santa Catarina foi vistosa, mas foi modesta.
Sendo assim, a comunidade cigana quererá dar a Ventura o gás que lhe falta na campanha? Quererá fazer do seu agressor uma vítima? Não se percebe o que possa ganhar com isso. Mas percebe-se demasiado bem o interesse de Ventura em forçar esse embate.
