Bestiário | Os calores de Marcelo

5 mai 2025, 08:34
Bestiário Marcelo Rebelo de Sousa. Imagem feita com recurso a tecnologia de inteligência artificial
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Este é o tempo dos partidos, e o PR prometeu conter-se. Como sempre, não cumpriu. O grande palrador volta a falar sobre o que deve e o que não deve, o que sabe e o que não sabe. É o mesmo que garantiu que não haveria uma crise com o caso Spinumviva. Se ao menos Marcelo se preservasse para quando a sua palavra for precisa... porque pode vir a ser. E muito.

De repente, sem aviso prévio, Marcelo saiu do esquife de gelo onde se havia enclausurado há umas semanas, com o objetivo assumido de baixar a pulsação, a excitação e a tentação habituais de falar sobre tudo e todos, sobre o que deve e sobre o que não deve. Marcelo conhece a teoria que lhe recomenda comedimento em dias de campanha – reconheceu-a e explicou-a antes do seu transitório apagão da vida política nacional. “Agora é a palavra aos partidos e aos portugueses”, explicou Marcelo a 25 de março, o exato dia em que prometeu deixar de comentar tudo o que mexe, mas também tudo o que fica parado: "O que deve acontecer é o Presidente não ser um factor de ruído e de perturbação, esperar para, porventura, no dia da reflexão, na véspera das eleições, olhar para a campanha, olhar para o que aconteceu e aí poder ir mais longe ou não – mas não neste momento".

Mas parecia haver um queixume quando o chefe do Estado acrescentou: “São, apesar de tudo, sete semanas e o Presidente não deve intervir, é um período longo de reflexão e de debate” – é nesse momento que os mais atentos deviam ter ido àqueles sites onde se pode apostar sobre tudo, até sobre quantos migrantes Donald Trump irá deportar este ano, e, neste caso, apostar que Marcelo não aguentaria a provação de semanas a fio calado enquanto via o país focado na política. Era dinheiro em caixa.

Marcelo não aguentou o martírio do seu próprio silêncio. Ventura bem podia dar mais uma volta ao silício, Marcelo não podia dar uma volta à língua. Descongelou o esquife de gelo contranatura onde se havia metido, para fazer uma estrambólica comunicação ao país sobre o Papa. Aberto o precedente, voltou alegremente à ação, feliz por não terminar este malfazejo mandato rijo e frio como em rigor mortis, 

Talvez por isso, Marcelo começou a sentir calores. Foi com tais calores que justificou um dos acontecimentos mais graves da pré-campanha e se demitiu das suas obrigações de fazer cumprir a Constituição. 

É uma pena que quando um deputado da maioria sugere que a PJ se ponha a vasculhar as comunicações entre fontes e jornalistas, propondo que o Estado promova um crime contra a Liberdade de Imprensa, consagrada na Constituição, e o sigilo profissional dos jornalistas, essencial para o desempenho dessa liberdade, não ocorra ao Presidente da República algo mais útil do que desconversar sobre calores eleitorais. 

“{Aconteceu] por uma razão muito simples. Nós estamos num clima eleitoral. E num clima eleitoral, há sempre um calor, há um lado emotivo muito grande.” Responder a algo deste calibre com calores é Marcelo no seu pior. A comentar o que não deve, a falar quando sabe que devia estar calado, e a dizer a coisa errada. 

“Estamos a 15 dias das eleições, terminaram os debates, acho que os debates de maneira geral foram úteis e importantes, Uma coisa são as ideias, eu vou fazer isto e isto, eu vou fazer aquilo. Mas vai fazer como? Com que base de apoio? É aquilo que vai ser esclarecido até à eleições. Neste clima é natural que vai aparecer (sic), e aparece sempre as picardias… Isso, em climas eleitorais, acontece sempre nas democracias mais sofisticadas.”

Compreende-se a realidade atamancada por Marcelo: se acontece nas democracias mais sofisticadas, não haveria de acontecer na nossa? A desconversa foi a mesma em relação às tentativas de intimidação de deputados da oposição por parte da maioria. “Estamos em clima eleitoral, e mesmo fora de tempo eleitoral, há um lado de luta eleitoral partidária que existe, o que é que havemos de fazer?”

Ao que se chegou: Marcelo, o escorpião, tornado Marcelo, o impotente. “O que é que havemos de fazer?”... 

Talvez o Presidente  da República precise de quem o ajude a terminar o mandato com dignidade, como sugeriu em tempos Cavaco Silva, falando de Mário Soares – que, ao contrário de Cavaco e Marcelo, soube sair de Belém pela porta grande e com bons índices de aprovação popular. Não é para todos.

Depois de oito anos de coabitação com o Governo Costa, que na opinião de muita direita envolveu proximidades excessivas, Marcelo quer sair de Belém deixando o seu partido no poder (todos os PR ambicionavam o mesmo), e precisa de sair de Belém com os índices de popularidade um bocadinho mais quentes. Isto de perder as graças do povo, talvez farto de tantas graças de Marcelo, é uma espécie de purgatório em vida para alguém que sempre quis ser o centro das atenções, aplaudido e admirado (a biografia escrita por Vítor Matos é bem documentada sobre estas necessidades vitais do atual chefe de Estado). Para seu infortúnio, Marcelo não cumpre neste momento nenhuma dessas condições: não é o centro das atenções (há de ser após as eleições, mas tem falhado tanto nas suas decisões políticas neste mandato que se teme o pior…), não é aplaudido nem é admirado. Ainda alguém lhe pede selfies? Quem o conhece percebe que para Marcelo “antes o poço da morte que tal sorte”. Daí que não tenha resistido ao exílio auto-imposto há umas semanas, e por estes dias volte ao comentário desenfreado.

Ladeado pela ministra da Administração Interna (que, sim, existe, e até teve Marcelo a dar-lhe amparo), comentou o apagão para fazer sua a narrativa oficial do Governo, desde as horas de aflição do apagão às decisões pós-sufoco. Comentando os acontecimentos – o durante e o depois – Marcelo louvou-se na sua contradição: “Eu entendi, por uma questão de respeito da recomendação da anterior comissão técnica independente, e de bom senso, que fazia sentido não estar a comentar durante estes acontecimentos e, mais do que isso, esperar pelas conclusões da comissão técnica-independente.” 

Dito isto, o Presidente obviamente comentou o que prometera não comentar: a causa, o porquê, a lentidão do arranque da central de Castelo de Bode, a decisão do Governo (que já estava decidida pelo Governo anterior) de “juntar outras centrais para situações como esta”, as “várias horas” que demorou o arranque das centrais, os problemas de abastecimento dos geradores das unidades de saúde, a reposição desfasada de eletricidade nas várias partes do território… 

Tudo isto comentou o Presidente que tinha acabando de prometer não comentar. Chegando ao ponto de repetir uma das coroas de glória do Executivo – “Não houve mortes” – quando já se sabia que se registou, pelo menos, uma morte diretamente imputável ao apagão. Deve ter sido dos calores… “Perante uma situação nova se encontrou a melhor solução possível para lidar com ela”, disse Marcelo, apesar dos problemas de comunicação e de o próprio PR ainda não ter recebido qualquer sms da Proteção Civil. 

As investigações ainda nada concluíram, as garantias são desmentidas pela realidade, Marcelo falou do que não sabe, mas, sendo o eternamente escorpião da fábula, não aprendeu nada com o Marcelo de 2017, o que após os fogos de Pedrógão jurou que “o que se fez foi o máximo que se podia fazer. Não era possível fazer mais.” Marcelo não sabe, mas também não sabe estar calado.

Perdeu o faro político, mas, mais grave, perdeu a noção. Por isso cai a pique nas sondagens. Quando o comentador Marcelo fazia vaticínios completamente ao lado ou que vinham a ser desmentidos pela realidade (e foram tantos, tantos), não era grave, era só entretenimento, o Grande Marcelo a fazer os seus números de prestidigitação televisiva enquanto o país jantava a sopa. Quando dava uma nova cravo e outra na ferradura, era só o pré-candidato Marcelo a tocar pífaro para encantar o eleitorado para que votasse nele. 

Há quase dez anos que a situação é outra. Mas não para Marcelo. Ainda em fevereiro, quando rebentou o caso Spinumviva, “o Professor” (são sempre professores, não é? Também era o Professor Zandinga, e o Professor Bambo…) desvalorizou o caso como “notícias, especulações e tal”, enfim, “coisas desagradáveis”, que uns consideram “justas” e outras “injustas”. Montenegro tinha de dar explicações? Sim! Tinha de aceitar as regras do escrutínio? Claro! A oposição tem “mecanismos para isso”, no Parlamento e fora dele? Óbvio! E no fim? No fim, ficaria tudo na mesma, pois na cabeça de Marcelo “está definido o quadro em que nos vamos mover nos próximos meses”, ou seja, até 8 de setembro, quando o Chefe do Estado perderá o poder de dissolver o Paramento. E, jurou Marcelo, não seria por causa da Spinumviva que haveria uma crise, por um raciocínio muito simples: ninguém queria eleições.

Mais uma vez, Marcelo deixou que a sua imaginação desenfreada e os seus desejos o impedissem de ver a realidade. Sim, alguém queria eleições. Depois de se ter apresentado ao eleitorado como o grande descrispador e estabilizador, na sequência dos mandatos de chumbo de Cavaco, Marcelo bateu todos os recordes de instabilidade e dissoluções parlamentares num único mandato. O mínimo que se lhe podia pedir, era que desse dois passos atrás e assistisse em silêncio ao seu próprio fracasso.

Mas pedir a Marcelo silêncio e/ou reconhecimento de erros próprios, é como espetar-lhe duas estacas no coração e uma bala de prata, talvez na cauda de escorpião. Na sua dolorosa inutilidade, Marcelo vê Luís Montenegro abraçar o discurso anti-imigração e provavelmente acha bem, pois pode ser a forma de o seu partido esvaziar um pouco o eleitorado do Chega. 

Por disse nada mais disse este fim de semana do que uns murmúrios sobre a “importância dos imigrantes para a economia”, ao mesmo tempo que ralhou a quem esteve “três anos sem tratar desta matéria.” Sim, mas não, mas não, mas sim. Expulsar umas dezenas, centenas, ou poucos milhares (como fizeram os Governos do PS), ainda vá; mas “não pode ser apresentado como significando que o que importa é que desapareça a imigração de Portugal. Isso é um colapso para a economia nacional". 

Curiosamente, na Ovibeja, onde ontem fez estas declarações, Marcelo cruzou-se com André Ventura. Encenaram, claro, a alegria postiça do encontro inesperado.  “O Professor”, in illo tempore, também desvalorizou Ventura. Ontem, ouviu o líder do Chega atirar-lhe: “Espero que falemos no dia 18” – e explicou que, como espera ganhar as eleições, conta com um telefonema do Palácio de Belém nesse dia.

O dilema de Marcelo nem será tanto esse, pois, depois do ladrão de malas, dos dirigentes do Chega que se dedicavam aos prazeres da pedofilia e de outros podres que o partido revelou, o crescimento da extrema-direita tenderá a estacar. Mas, se o Chega for suficiente para impedir soluções governativas, à esquerda ou à direita, que autoridade, que equidistância, que capital político, terá Marcelo, o grande palrador, para quebrar a incomunicabilidade que se instalou entre os líderes dos dois maiores partidos? 

Nem que fosse por isso, para ganhar o distanciamento e a gravitas que provêm da palavra com conta, peso e medida, talvez Marcelo devesse voltar a congelar a palavra e a ação. Mas, com estes calores, não será fácil.

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Decisão 25

Mais Decisão 25