Aqui andámos todos os dias a dar cartas sobre bestas políticas mais ou menos eleitorais. E no fim da campanha, acabamos entre o 8 e o 80: estas são as notas finais sobre os líderes partidários que aqui chegaram com assento parlamentar
Luís, o cavaquista que encostou à direita
Luís Montenegro fez uma campanha eficaz e quase sem falhas. Tal como o objetivo do futebol não é ser um jogo bonito, mas marcar golos e ganhar, o objetivo de uma campanha eleitoral é garantir votos. A campanha da AD foi como os jogos daquelas equipas italianas que se estão a marimbar para o “beautiful game”: olhos na bola, ataque q.b., foco na defesa. O líder da AD usou o caso Spinumviva como pretexto para uma moção de confiança que fez cair o Governo, para depois varrer o assunto para debaixo do tapete, atacando jornalistas que deram mais notícias sobre o caso, e até censurando um repórter que o questionou sobre explicações que faltam – porque sabe que os eleitores dão pouca importância ao assunto. Desvalorizou o 25 de Abril, adiou a sua celebração para o 1º de Maio, e depois embrulhou tudo como a festa “da família” – o que permitiu a Montenegro um dueto com Tony Carreira, e agarrar um dos temas do Chega, a família. Fez o mesmo com a segurança e a imigração, apostado em roubar bandeiras à extrema-direita. E nem hesitou em ir a Fátima com as tvs atrás para apoiar a peregrinação da mulher.
Tudo óbvio? Sim, mas sempre de olhos nos grandes grupos eleitorais. Carregando nos tiques cavaquistas (“deixa o Luís trabalhar”...), Montenegro aproveitou uma greve da CP para ameaçar “pôr cobro a isto”, pondo-se do lado dos eleitores que são prejudicados pelas greves. Isto, depois de um ano em que distribuiu por milhares de funcionários públicos e de idosos o superávit que herdou de Medina. Lembrou constantemente essas benesses, ao mesmo tempo que garantia a estabilidade que não assegurou. Teve partido unido, povo nas ruas, e mensagem quase sempre clara. Foi vago quando lhe convinha, e omisso sempre que quis. E teve sorte: voltou a ter Pedro Nuno Santos do lado de lá.
Pedro Nuno, o predestinado que não chega ao seu destino
Há uns anos, no “seu” superministério das Infraestruturas e da Habitação, com a autoconfiança que lhe permitiu quase desafiar António Costa no congresso da Batalha, Pedro Nuno Santos tinha o futuro todo planeado – sabia quando cairia Costa, quanto tempo duraria um governo minoritário da direita, de que forma, enquanto novo líder socialista, reeditaria a geringonça, quanto tempo poderia governar. Tudo quase delineado ao dia. Era uma coisa à Marcelo, cenários e mais cenários, tudo planeado. Depois, veio a realidade: a saída do Governo pela porta pequena, a demissão de Costa, a necessidade de avançar para a liderança. Tudo cedo demais. Percebia-se a verdura e a atrapalhada relação com os Executivos de Costa. Perdeu por pouco em 2024. Logo nessa noite estava na cara que haveria outra vez eleições em pouco tempo. À cautela, Montenegro entrou de imediato em modo de campanha. O PS não. Pedro Nuno foi acudindo às urgências do dia a dia, consolidando o seu poder no PS, e anunciou uns Estados Gerais de onde sairia um programa eleitoral, como se tivesse tempo de sobra. Não tinha. Embora mais maduro, mais distante dos seus tempos de governação e das suas polémicas, Pedro Nuno pareceu, pela segunda vez seguida, pouco preparado para ir a votos. Mensagem errática, ética e Spinunviva num dia, no outro distanciamento ou colagem em relação às políticas de Costa, e no dia a seguir apelos ao voto útil e hesitação sobre novos acordos à esquerda. Muitas vezes zangado, muitas vezes apelando ao voto de quem se zangou com o Governo. O seu destino eleitoral parece traçado. O que não significa que os seus anos de liderança tenham terminado. Se tiver terceira oportunidade, estará Pedro Nuno finalmente preparado para ir a eleições?
André Ventura, make azia great again
André Ventura tentou ser vítima de um atentado, por pequenino que fosse, perpetrado pelos “ciganos”. Já o tinha tentado em campanhas passadas. Mas o único ataque que sofreu foi de azia, embora tenha exteriorizado o sofrimento de quem estava às portas da morte – por azar, foi socorrido por um imigrante, trabalhador do INEM, e foi tratado pelo SNS, num hospital que o próprio Ventura tinha retratado, pouco antes, como um caos.
Sem nada que pudesse ser a sua “Marinha Grande”, Ventura contrariou as ordens médicas, voltou à campanha e perdeu aquele restinho de vergonha que às vezes acreditamos que ainda possa ter, falando abertamente no risco de ser “assassinado por ciganos”. É o problema de bater no fundo: quanto mais se bate, mais o fundo desce. Ao racismo e à xenofobia, ao ódio e à mentira, Ventura juntou a frustração de não poder vitimizar-se como gostaria – tecnicamente, chama-se espasmo esofágico (vulgo azia). Não é morte de homem, é só agonia da decência.
Pouco depois de falar em ser “assassinado por ciganos”, Ventura voltou a ter um chilique em público. Desta vez, com diretos televisivos acompanhando as ambulâncias e as entradas e saídas de hospitais. Os médicos bem procuraram outras maleitas, mas só encontraram tensão e azia. Nas redes sociais, o que se via era a autopromoção de um homem acamado mas com as mãos cheias: um terço, um electrocardiograma, um telemóvel. Ventura não voltará à campanha, mas voltou a ser o centro da campanha. Tornou o chilique grande outra vez.
Rui Rocha, entre o isco e o risco
O líder da IL andou a campanha quase toda com os pés na terra mas a sonhar acordado e com um ioiô na mão. Os pés impediram-no de cometer grandes erros, os sonhos destravaram-lhe a ambição de entrar num governo e o ioiô fê-lo avançar e recuar, avançar e recuar, avançar e recuar nas críticas àquele com quem se quer aliar. Não é fácil crescer em votos quando se abdica de ser alternativa de fora para ser aquele que quer mudar por dentro. Mas é essa a estrada de tijolos amarelos da Iniciativa Liberal para chegar à sua Oz, que passou a ser o Conselho de Ministros.
Rui Rocha pode ficar na história deste jovem partido como o líder que levou a IL a uma coligação de governo ou como aquele que o descaracterizou em troca lugares. Precisa de eleger muitos deputados para ter força negocial numa eventual coligação com a AD, que pode ser mais ou menos fácil consoante a lista de compras. Se for apenas descer o IRS, privatizar a TAP e avançar com PPP na saúde, é fácil; se for alterar o regime de financiamento da Segurança Social, é difícil. Pelo que vimos ou ouvimos na campanha, Rui Rocha está disposto a escolher o fácil. Ou a sê-lo. Mas não terá essa disponibilidade parecido afã, e limitado o crescimento da IL? Depende da perceção dos eleitores: se o veem como um isco para entrar no poder ou como uma isca que a AD vai devorar.
Rui Tavares, a esquerda suave que irrita a esquerda dura
Uma das críticas que se faz a Pedro Nuno Santos é que não se imagina quem estaria num governo seu. É uma crítica injusta, porque há pelo menos um ministro óbvio: Rui Tavares.
A piada é tanto um elogio às capacidades de Rui Tavares – que poderia ser ministro da Ciência e Ensino Superior, Educação ou Cultura – como uma crítica a quem se dispõe à anexação. Tavares anda de bicicleta mas, por sua vontade, Pedro Nuno pode comprar um sidecar para a mota. É por isso que, nestas eleições, o Livre está para o PS como a Iniciativa Liberal está para a AD, são ambos uma espécie de “jovens partidos procuram coligação companheira”.
Rui Tavares nunca escondeu esse ensejo, numa campanha sem excessos de confiança (como aconteceu no ano passado), com desdém declarado por Ventura (a quem não perdoará os ataques indiretos à família) e oscilando, como sempre, entre o soundbite com trocadilho a que não resiste, e a resposta longa que se desdobra em parêntesis dentro de parêntesis dentro de parêntesis.
O PCP e o BE não o antagonizam, mas têm dificuldade em aceitar que tão modernaça ideologia os passe em votos. Para a esquerda dura, Tavares é a esquerda suave. Ou mole. Chegou sobretudo aos jovens urbanos, apeando nisso o BE, e este ano ambiciona um pouco mais. Secretamente, é possível que Tavares deseje ser o quarto maior partido – ultrapassando a IL. Se o conseguir, no entanto, será provavelmente esvaziando o depósito do condutor da mota.
Paulo Raimundo, a “surpresa extraordinária”
Na sua única participação nesta campanha eleitoral, Jerónimo de Sousa, igual a si mesmo, desarmou os perguntadores com a sua franqueza. Perguntaram-lhe sobre o desempenho de Paulo Raimundo, o ilustre desconhecido que lhe sucedeu como secretário-geral do PCP em 2022. “O Paulo Raimundo é uma surpresa extraordinária”, respondeu Jerónimo. Se foi uma surpresa para o ex-secretário-geral, um dos que o escolheram, ainda mais foi para um país que desconhecia a sua existência e que demorou a habituar-se à sua figura discreta, depois de tantos anos de familiaridade com “o Jerónimo”. A surpresa não foi assim tão extraordinária nas eleições de 2024, mas a curva de aprendizagem do último ano, essa sim, parece extraordinária.
O líder comunista tem um discurso simples, direto, bem-humorado, com aquele registo terra-a-terra que faz lembrar Jerónimo, mas também outros quadros do partido como João Oliveira ou Bernardino Soares. Foi assim que apanhou André Ventura na curva, desmascarando o “nheca-nheca” do seu discurso. Quanto ao discurso do PCP, não mudou, porque o PCP não muda. Acredita, como muitos há mais de um século, que “o comunismo é o futuro da Humanidade”, conforme reafirmou no Teste de Stress, aqui na CNN. A mesmice programática e discursiva não surpreende, dará conforto aos eleitores de sempre, mas nem a mudança de rosto parece suficiente para conquistar novos eleitores ou velhos votantes perdidos. O apoio à Rússia e a culpabilização da Ucrânia e da NATO pela guerra de Putin garante em coerência o que provavelmente faz perder em votos. Em 2024, a CDU foi ao fundo: 205 mil votos, quatro deputados. O objetivo assumido para este domingo é recuperar dois lugares e chegar aos seis deputados. Um objetivo modesto e, ainda assim, longe de estar ao alcance da mão.
Mariana Mortágua, a lutadora incompreendida
A seguir à obsessão analítica sobre que razões explicam tamanho crescimento do Chega nos últimos anos, um dia virão especulações mais ou menos informadas sobre outra surpresa, o encolhimento perene do Bloco de Esquerda. Se as sondagens estiverem certas, a lutadora e promissora Mariana Mortágua poderá ficar como lanterna vermelha do Parlamento, não logrando recuperar o partido do estado em que o recebeu da Geringonça em que Catarina Martins alinhou. Poucos no próprio BE conseguem perceber o porquê da queda, num partido que parece estar a lidar mal com a sua meia-idade.
Com uma campanha menos nas ruas e mais em salas e anfiteatros de universidades, foi na habitação que Mariana Mortágua mais apostou, apontando aos jovens e reclamando ser o BE o único partido com uma proposta (o teto às rendas) para resultados agora, contra as propostas de mais oferta de outros partidos. Mas o que marcou mais a campanha foi o seu início, a estratégia contraintuitiva de Mariana Mortágua de persuadir os velhos fundadores a regressarem à luta pelo partido e contra a extrema-direita. Registou-se o gesto de abnegação (de todos), ver-se-á com que sucesso.
Inês Sousa Real, a vegana que não é carne nem peixe
Sabemos quem ela é, boa rapariga, “um pouco tímida” até, segundo autorretrato feito no Teste de Stress. Mas, quatro anos depois de ter chegado à liderança do PAN, Inês Sousa Real não só não se impôs como nome grande na política portuguesa, como não fez esquecer o seu antecessor, André Silva, que conseguiu elevar o PAN aos quatro deputados.
Pior: Sousa Real corre o risco de ver o partido desaparecer do palco parlamentar. Enquanto luta pelo clima, pelas pessoas, animais e natureza, a deputada única do PAN luta também pela sobrevivência do partido e da sua carreira política.
Não se saiu mal nos debates, nomeadamente contra André Ventura – cuja bancada costuma fazer-lhe bullying no Parlamento –, mas se há uma medida da pressão existencial desta campanha, é o facto de se ter focado nas razões pelas quais o PAN não é um voto inútil. Há uns anos, seria uma explicação desnecessária: o partido tinha como grande causa (quase monotemática) a defesa dos animais de companhia e respectivos donos. Hoje, as prioridades vão da proteção ambiental aos direitos das mulheres, e talvez a abertura de foco tenha feito perder o foco. Fica a sensação de que o PAN de Inês Sousa Real, apesar de se inclinar para a esquerda, não é carne nem peixe – frase que, não sendo escrita como elogio, a própria seguramente entenderia como tal. Afinal, é vegana e quer fazer lei com um dia por semana exclusivamente vegetariano, começando por dar o exemplo no Parlamento.
Nota: imagens produzidas com recurso a ferramentas de inteligência artificial