Bestiário | António Costa, o homem que fez chorar as esquerdas e chover as direitas

13 mai 2025, 07:50
Bestiário António Costa. Ilustração feita com recurso a tecnologias de inteligência artificial

Sim sim, está a ler bem: António Costa é o protagonista do dia. Ou o antagonista da noite, já que ninguém o vê nem cita nem parece recordar. E no entanto, muito do que está a acontecer é desova dele. Não estando na campanha, a sua ação já fez decidir quem será o próximo primeiro-ministro. Sem bruxaria

Há um cemitério de políticos atrás de Costa. A muitos primeiro deu a mão e depois deu com os pés. É um falso bonacheirão, de uma astúcia implacável, a quem foram amando ao longe e temendo ao perto, chamando-lhe “hábil” como quem o acusa mais do que elogia. Depois dele viria que dele bom fará: a esquerda, segundo as sondagens, está à beira de ter a pior votação de sempre. E isso também é testamento vital dele: primeiro, tomou conta da esquerda, depois deixou-a de pantanas.

Neste jardim das tabuletas está  António José Seguro, corrido por Costa do PS em vésperas de legislativas de 2015. Está  José Sócrates, que foi desligado do partido. Está  Pedro Passos Coelho, que ganhou aquelas eleições mas foi corrido do governo pela criatura com que Costa se salvou a si mesmo e à sua carreira política: a geringonça. Está  Jerónimo de Sousa, com quem se deu lindamente, e está  Catarina Martins, com quem se deu pessimamente: PCP e BE foram colonizados pelo PS e até hoje não se recompuseram do sangue sugado.

De alguma maneira, neste cemitério particular está também  Marcelo Rebelo de Sousa, que foi pela primeira vez fragilizado por Costa na demissão recusada de João Galamba e nunca mais recuperou a mesma autoridade. E está Lucília Gago, procuradora demasiado geral de República que assinou o pior parágrafo de sempre da história da política e da justiça portuguesa. A Costa o que é de Costa.

Mais: foi Costa quem matou no ovo  Pedro Nuno Santos, cobrando-lhe a humilhação pública no caso do aeroporto que ainda hoje o persegue. Aqui o escrevi há dias: a Moby Dick de PNS não é Montenegro, mas Costa.

E como se estas maldades individuais não bastassem, Costa deixou o país numa bandeja à direita depois de seis anos de pouquíssimas reformas e dois anos de uma maioria absoluta paralisada: Luís Montenegro parece um velocíssimo fazedor depois daquele PS narcotizado que, para mais, lhe deixou os cofres do Estado com dinheiro para o que fez durante um ano, baixas de impostos, aumentos de salários e de pensões.

A ajuda à direita não é só passiva. É também ativa: o crescimento do Chega foi alimentado também pelo arqui-inimizade conveniente para o PS, que desviou votos a  Rui Rio. E quando, recentemente, Luís Montenegro caiu nas garras da ética, o mesmo António Costa que não se deixa ver ao lado de Pedro Nuno Santos, mostrou-se ao lado de Luis Montenegro no pior momento para ele do caso Spinumviva, numa fotografia publicada nas redes sociais que ou foi apoio ou foi água tónica fresca no gin.

 

 

O único sobrevivente deste colapso político é o próprio António Costa, que se conseguiu eleger presidente do Conselho Europeu, onde novos protagonistas e antagonistas entram já no futuro livro de memórias que alguém há de escrever sobre ele.

Está alinhadíssimo com Ursula von der Leyen, o que se vê pelos tweets coordenados para que nenhum roube a titularidade ao outro. Mas já menorizou Kaja Kallas na representação externa da União, que parece já protagonizar. Até por uma intervenção corajosa: foi o único dos moderados europeus a dizer a tempo – antes da catástrofe consumada - que uma vida na Palestina vale tanto quando uma vida na Ucrânia. Costa parece além disso entender-se agora às mil maravilhas com Georgia Meloni, que foi a única líder europeia que votou contra o seu nome para presidente do Conselho Europeu, e com Viktor Orbán, que o apoiou.

Eis a subjetiva tese deste bestiário: António Costa é o grande responsável pelo estado mirrado do PCP e do BE e pelo momento isolado de Pedro Nuno Santos. E  ele é também o responsável por sabermos já quem será o provável primeiro-ministro depois das eleições de 18 de maio: Luís Montenegro. Porque como a maioria da direita é mais do que certa, mesmo que Pedro Nuno Santos ganhe as eleições dificilmente terá condições para ter um governo estável. A geringonça à esquerda de 2015 legitima - e quase obriga - a geringonça de direita de 2025.

Nesta lógica, Luís Montenegro quer ganhar e não pode perder. Graças a António Costa. O político português mais hábil e menos lábil deste nosso século de poucos feiticeiros e muitas vilanias.

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