Arranca hoje o Bestiário, uma coluna de análise diária sobre protagonistas da campanha eleitoral, assinada pelos jornalistas Pedro Santos Guerreiro e Filipe Santos Costa, que intercaladamente assinam também a rubrica Folhetim de Voto. O primeiro passageiro desta Arca é o procurador-geral da República
Foi no melhor catálogo de bestas alguma vez publicado, “O Livro dos Seres Imaginários”, que Jorge Luís Borges nos alertou: virá um tempo em que as criaturas dos espelhos se sacudirão do torpor mágico que as condenou a repetir todos os atos dos homens; elas partirão as barreiras de vidro e de metal, elas sairão do reino especular, elas invadirão a Terra – e, antes desse momento, “ouviremos do fundo dos espelhos o rumor das armas”.
Talvez essa invasão tenha enfim chegado, sem clarim que avisasse nem clarão que alumiasse, e agora nós, no reino dos homens, andemos evadidos num mundo paralelo, simulador, de reflexos conspirativos, e aqui valoramos perceções, valorizamos rumores e avaliamos a queixa anónima que jorra da liquidificadora das “averiguações preventivas”: ora para Luís Montenegro, agora para Pedro Nuno Santos, ambas oficialmente anunciadas pelo procurador-geral da República. Queira ou não, Amadeu Guerra é personagem nestas eleições. O que terá pretendido usar como antídoto contra a especulação acabou como veneno que a espalhou.
Todos os jornalistas sabem que uma queixa anónima, por si só, pode ser zero vírgula um vírus incubado na esperança de transmissão; todos os jornalistas sabem que a confirmação oficial de que uma queixa vai ser investigada inicia essa transmissão sob a forma de notícia. Ao decidir comunicar a “averiguação preventiva” para Montenegro, Amadeu Guerra ficou refém de si próprio e precisou de comunicá-la também para Pedro Nuno. Abriu-se a queixa de Pandora - e daí vieram suspeitas de politização e as insinuações de manipulação, iniciando-se uma caça às gralhas que crocitam a desordem na justiça e, através dela, na política.
Não sabendo quem as gralhas anónimas são, a Esfinge não poderá devorar aquelas que não souberem responder aos seus enigmas. Amadeu Guerra ouve agora o credo comum de que uma “averiguação preventiva” deve anunciar-se apenas depois de concluída, seja arquivando-se ou evoluindo para investigação. Essa é, paradoxalmente, a forma de fazer justiça sem as próprias mãos, porque uma “averiguação preventiva” é tão simples e rápida que o MP se dispensa de convocar os poderes especiais reservados às suas próprias mãos.
A tragédia de Amadeu Guerra é que ele provavelmente não queria nada disto, queria transparência mas não visibilidade, intervenção mas não interferência, clarificação e não protagonismo. A tragédia de Amadeu Guerra é que ele quererá tanto que não valorizemos a simplicidade de uma “averiguação preventiva” que poderemos acabar por desvalorizar a complexidade de uma “investigação aprofundada”. Pois não foi já isso que aconteceu nas eleições na Madeira?
A reputação de Amadeu Guerra é irrepreensível e a sua carreira não se abala com isto. Mas isto foi uma falsa partida depois da sofrida chegada ao fim do mandato da sua predecessora, Lucília Gago, para sempre associada à demissão do primeiro-ministro António Costa.
Guerra é Guerra e Amadeu é ainda a consagrada esperança de um sistema que precisa de não arder no lume pouco brando que anda à solta. Para isso precisa de investigar, de arquivar e acusar – e quanto à política, como diz Borges, saber repelir os invasores do reino especular e aprisioná-los de novos nos espelhos.
Referências: citações de “O Livro dos Seres Imaginários”, Jorge Luís Borges, Quetzal Editores; imagem no topo feita através de ferramenta de Inteligência Artificial.
