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Físico, Estratega & Ex Cripto-céptico

Avis Budget: quando um short squeeze transforma 100 dólares em 847

23 abr, 11:21

Desta vez não foi a GameStop, nem a AMC. Enquanto o mundo discutia o preço do petróleo e o futuro das frotas elétricas, os ecrãs de Wall Street registavam algo aparentemente impossível: uma rent a car a subir 700% em apenas 30 dias. A Avis Budget subiu dos cerca de 100 dólares por ação em 22 de Março passado para os 847 dólares no dia 23 de abril, exatamente um mês depois.

São mais de oito vezes a cotação em apenas 30 dias, num movimento atípico mas que não é inédito. Bem-vindos ao louco mudo do short squeeze. O mais irónico é que este fenómeno já tinha acontecido com a mesma ação em 2021, mas ainda assim parece que alguns investidores não aprenderam nada com o primeiro. Também já aconteceu com a Hertz, outra rent-a-car, embora a uma escala mais reduzida. Mas estes movimentos mostram bem o perigo de investir em produtos que não se compreendem e o perigo de entrarmos numa luta de gigantes sem sequer nos apercebermos. Quase sempre os pequenos investidores acabam a ser os danos colaterais destas guerras financeiras.

O que é um short squeeze?

Um short squeeze ocorre quando uma ação está demasiado "shortada", ou seja, quando existe um sentimento muito negativo sobre a empresa e muitos investidores apostam na queda, em vez de apostar na subida. O problema para uns, e tiro de sorte para outros, é o facto de qualquer evento poder inverter esse sentimento de forma abrupta, e com isso apanhar muita gente em contra-pé.

Shortar ações, ou adotar posições curtas, significa apostar na descida do preço. A discussão sobre esta prática é profunda e há muitos a defender que a prática deveria ser proibida. Em tempos de incerteza, como durante a pandemia, chegou a haver regulamentação que proibia posições curtas em determinados setores, como o sector bancário. O conceito é o de que o facto de alguém poder vender ações que não possui ser, por si, uma forma de manipular o mercado empurrando o valor da ação para baixo por via  dessa venda excessiva.

Isto porque, para assumir uma posição curta, o investidor vende ações que não tem ou seja, pede ações emprestadas, vende-as no mercado e, mais tarde, recompra as para devolver a quem lhe emprestou as ditas. Imaginemos que uma ação está a 100 euros e que eu acredito que vai cair para 50. Peço ações emprestadas, pago um prémio por isso, e vendo-as à cotação de hoje que são 100 euros. Quando (e se) a ação chegar aos 50, compro-as de volta, devolvo-as e fico com a diferença entre o meu preço de venda e o meu preço de re-compra. Mas… e se a ação nunca cair? E se, pelo contrário, subir?

O short squeeze

Tudo corre mais ou menos bem enquanto o preço se comporta de forma expectável mas, por vezes, a distração, ou a gula, criam um desalinhamento perigoso entre ações disponíveis e posições curtas. As flutuações tidas como normais na cotação de uma ação podem ficar completamente corrompidas por factores excepcionais e é aqui que entra o extravagante.

No caso da Avis, as ações estavam extremamente concentradas em apenas dois investidores que detiam mais de 70% da empresa, e ao mesmo tempo havia demasiadas posições curtas, ou seja, pessoas a vender o que (ainda) não tinham. Entre ações e opções a situação na Avis era ainda mais bombásticas já que vários analistas referem que esses dois investidores controlavam o equivalente a mais de 100% da empresa entre ações e opções sobre mais ações. Ou seja, tinham eles próprios mais do que as ações existentes.

Em meados de março, 54% do free float estava vendido a descoberto transformando a situação num cenário perfeito de squeeze!

Com notícias de que a guerra estava a fazer subir o preço do petróleo, valorizando carros elétricos usados, e com previsões de voos cancelados ou mais caros, aumentando a procura por carros alugados, o desequilíbrio tornou se explosivo. O que aconteceu foi aquilo que, na física, se chama ponto crítico de um sistema.

O preço começou a subir, obrigando quem tinha ações emprestadas a recomprá-las ao preço que fosse no momento. Neste ponto, o short seller torna se um comprador forçado e compra mesmo que não queira para tapar o prejuízo, ironicamente atirando ele próprio o preço ainda mais para cima. É o "efeito do cão a morder a própria cauda".

Em vez de comprarem mais barato, compraram muito mais caro, e cada vez mais. A tempestade perfeita formou-se e a bola de neve começou a rolar. A ação sobe. Shorts entram em pânico ou são forçados a fechar posições muitas vezes de forma automática por não terem mais margem de perda. Como a subida não tem fundamentos sólidos, novos shorts entram ao verem o preço extremamente alto, tentando apanhar o ponto ideal de short mas se o preço continua a subir shorts antigos e novos são eliminados em cascata. Os detentores das ações percebem o efeito e seguram ainda mais, ou compram. Novos investidores tentam "apanhar o barco". O rochet largou a plataforma e ninguém sabe onde vai cair, mas todos sabem que vai cair.

O risco do infinito

Quando compro uma ação a 100 euros, o meu risco máximo é de 100 euros. Se a ação for até zero, perco tudo mas não passa do valor que investi. Mas quem está short a 100 euros e é forçado a recomprar a 800 perde oito vezes o valor investido. Como diz um parceiro de investimentos, shorts nestas situações são "drogas muito duras". A perda pode ser, em teoria, infinita.

Milhares de milhões de dólares foram perdidos por quem estava short na Avis Budget. Já aconteceu antes e todos os grandes short squeezes ficaram para a história. Eu quase nunca invisto numa ação sem perceber o seu balanço de posições curtas e a concentração do capital. É um dos meus critérios para avaliar se uma empresa está num mercado verdadeiramente livre ou condicionada pela sua estrutura acionista. Investir sem conhecer o funcionamento real dos mercados pode colocar nos numa posição muito delicada. Para quem não percebe, mais vale ficar quieto ou procurar quem perceba.

Sardinhas

Certo é que estas situações são cada vez menos raras e até já deram um nome a estas empresas com comportamentos atípicos e cujos valores saem fora dos seus fundamentos: Meme Stocks. Já há inclusive ETFs apenas de Meme stocks.

Num mercado cada vez mais guiado por narrativas, ignorar a mecânica dos shorts é brincar com fogo. Longe dos holofotes, há sempre quem saiba exatamente quando acender o fósforo e quando largá-lo. A humildade aqui é fundamental para os investidores. Não devem tentar entrar em lutas que não são deles.

O short squeeze da Avis mostrou como uma jogada estratégica pode drenar recursos de uns para alimentar o apetite de outros, não por acaso, mas por desenho e por desempenho. No meio desta dança de predadores, quem não entende o jogo não é adversário, é apenas a sardinha que passa no momento errado e que sai inevitavelmente esfarrapada .

Obviamente, este artigo não é uma recomendação de investimento, mas sim a explicação do fenómeno estratégico por detrás da recente subida estratosférica e da forma como funciona um short squeeze.

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