Bernard Arnault não gostou da condição dos socialistas para deixarem passar mais um primeiro-ministro de Emmanuel Macron
“Insano” e “comunista”. É assim que as pessoas mais ricas de França estão a olhar para a pressão que o Partido Socialista está a fazer sobre o novo primeiro-ministro, que entrou sobre brasas num país em polvorosa.
Sabendo que os seus votos são essenciais para a sobrevivência de Sébastien Lecornu, os socialistas estão a aumentar as suas exigências para que não aconteça a este o que aconteceu aos outros dois primeiros-ministros, que duraram pouco mais do que uns meses no cargo, deixando Emmanuel Macron com uma grande dor de cabeça.
O que a esquerda pretende é que a tão necessária sobrevivência das contas públicas francesas se faça também à custa dos mais ricos. Em concreto, pede-se que as pessoas com fortunas avaliadas em mais de 100 milhões de euros pagam uma taxa anual mínima de 2% sobre todos os seus bens, incluindo empresas ou ações de empresas.
Bernard Arnault, dono do conglomerado de luxo LVMH, é um dos mais irritados com a atual situação, já que a proposta socialista terá especial impacto sobre a fortuna daquele que é, segundo o índice da Bloomberg, a oitava pessoa mais rica do mundo, com uma fortuna avaliada em 143 mil milhões de euros.
“Não consigo acreditar que as forças políticas francesas que governam ou governaram o país possam dar alguma credibilidade a esta ofensiva, que é mortífera para a nossa economia”, afirmou, em comunicado.
Para se ter uma ideia, a proposta dos socialistas atinge Bernard Arnault em cerca de três mil milhões de euros, fora os impostos que o magnata dono de empresas como a Louis Vuitton ou Möet Chandon tem de pagar.
Em declarações ao Financial Times, o co-fundador da Ledger, que negoceia na área das criptomoedas, apelida mesmo de “coletivismo” ou “comunismo” o que os socialistas querem fazer, num “ataque fundamental à liberdade e ao direito de propriedade”.
Éric Larchevêque não chega nem perto de Bernard Arnault, mas tem o negócio avaliado em 1,3 mil milhões de euros, pelo que não passará ao lado de uma proposta deste género, mesmo que a sua empresa ainda esteja a gerar lucro.
Caso a proposta vá mesmo para a frente, isso marcará um reverter da política económica de Emmanuel Macron, que tem optado por baixar os impostos sobre as empresas, prometendo tornar França numa “nação start-up”.
Esse tipo de ações levou a oposição a nomeá-lo “presidente dos ricos”, mas o chefe de Estado francês não pretende recuar, opondo-se a impostos deste género. Quanto ao imposto Zucman - assim nomeado por causa do economista Gabriel Zucman, que apresentou a ideia originalmente -, Emmanuel Macron olhar para ele como algo aberrante, de acordo com uma fonte do Financial Times.
Com um impasse à sua frente, Sébastien Lecornu admite abertura a discutir a “justiça fiscal e a partilha do fardo”, ainda que tenha avisado que se devem gerir todos os “bens profissionais” com “cuidado”.
Do lado do imposto Zucman, que Bernard Arnault já classificou como um “ativista de extrema-esquerda”, quem o defende afirma que vai permitir arrecadar 15 mil milhões de euros por ano, o que ajudará, e muito, a reduzir o pesado défice francês, que pode chegar aos 5,4% do PIB no fim deste ano, tornando-se num dos maiores de toda a Zona Euro.
De recordar que o anterior primeiro-ministro, François Bayrou, acabou por sair depois de apresentar uma proposta de Orçamento do Estado que previa cortes em 44 mil milhões de euros.
O próprio Gabriel Zucman decidiu responder a Bernard Arnault, depois de ter sido acusado de não ter fundamentos para as suas ideias. “Vindo de um dos homens mais ricos do mundo e num contexto em que a liberdade académica tem sido colocada em causa num número crescente de países, esta retórica… deve preocupar-nos a todos”, escreveu o economista na rede social X, onde disse ser “tempo de taxar os bilionários a uma taxa mínima”.
Do outro lado, mais do que pensar em casos como o de Bernard Arnault, há que ver situações como as de Éric Larchevêque, que ainda não gera lucro, mas pode ser forçado a pagar um imposto baseado no valor da sua empresa.
