Espectadores insultaram o ator, atiraram fruta e tentaram invadir o palco: a reação violenta do público de Berlim à peça "Catarina e a Beleza de Matar Fascistas"

CNN Portugal , MJC
18 fev, 12:38
O ator Ole Lagerpusch na peça "Catarina e a Beleza de Matar Fascistas" (DR)

A peça do português Tiago Rodrigues estreou-se em Guimarães em 2020 e em todos os locais onde tem sido apresentada tem provocado reações acaloradas por parte do público, sobretudo durante a cena final onde um ator interpreta um fascista que expõe a sua ideologia - o monólogo dura 15 minutos

Um ator da peça "Catarina e a Beleza de Matar Fascistas" foi vaiado e atingido por fruta, no passado sábado, em Berlim, ao mesmo tempo alguns espectadores tentaram invadir o palco. Tudo aconteceu durante a estreia da peça do dramaturgo português Tiago Rodrigues, em Bochum, Renânia do Norte-Vestfália, quando o ator Ole Lagerpusch interpretava o monólogo final como um ativista de extrema-direita.

A premiada peça, estreada em Guimarães em 2020, foi montada em Berlim com encenação de Mateja Koležnik. Conta a história de uma família com uma macabra tradição anual: para vingar o assassínio da trabalhadora rural Catarina Eufémia, em 1954, durante o Estado Novo, raptam um "fascista" todos os anos e executam-no durante um banquete familiar. Ao longo da peça, desenrola-se um conflito geracional entre os pais que defendem o assassínio e a sua filha, uma jovem adulta, mais cautelosa, sobre os meios justificáveis ​​para defender a democracia. No final do último ato, o fascista, funcionário de um partido de extrema-direita, profere um monólogo de 15 minutos expondo a sua agenda extremista.

"Até onde se pode ir para proteger a democracia da destruição?", questionava o teatro Schauspielhaus Bochum na promoção do espetáculo. A resposta foi dada pelos espectadores na estreia. À medida que o ator Ole Lagerpusch interpretava o seu discurso incendiário, divagando sobre assuntos que faziam lembrar o partido AfD (Alternativa para a Alemanha), criticando os homossexuais e questionado "se as minorias se queixam constantemente do nosso país, porque é que ficam aqui?", a plateia mostrou-se cada vez mais agitada, relatou o porta-voz do teatro, Alexander Kruse, citado pelo The Guardian.

Inicialmente, as pessoas começaram a assobiar e a vaiar, insultando Lagerpusch e incitando-o a parar. Uma laranja foi atirada contra o ator, falhando-o por pouco. Kruse disse que alguns espectadores se levantaram dos seus lugares. "Além disso, dois espectadores subiram ao palco, aparentemente com a intenção de arrastar o ator para fora, o que foi impedido", afirmou, classificando a agressão como "completamente inaceitável".

Martin Krumbholz, crítico do site de cultura Nachtkritik, que assistiu à estreia, contou que Lagerpusch continuou o seu monólogo, apesar da reação hostil e conseguiu proferir a sua impactante última frase: "O futuro pertence-nos".

Também o crítico Christoph Ohrem, da emissora pública regional WDR, assistiu à estreia e divulgou uma breve gravação áudio do tumulto, que, segundo ele, fazia lembrar algo da época de Shakespeare. Afirmou ainda que esta é uma "boa peça" por tirar os espectadores da sua zona de conforto. "É realmente surpreendente que uma peça ainda possa suscitar tais reações em 2026", disse.

Nos vários locais onde tem sido apresentada, a peça de Tiago Rodrigues tem causado reações do público, com espectadores a abandonarem a sala e a insultarem o ator. Em Portugal, houve espectadores que gritaram "25 de Abril sempre, fascismo nunca mais" e até houve sessões em que cantaram "Grândola, Vila Morena", de Zeca Afonso.

"Ali o que acontece é a vitória da extrema-direita pela incapacidade, a impossibilidade de uma democracia, naquele caso uma família que quer defender a democracia pela violência e mesmo assim é incapaz de impedir a vitória de um discurso fascista e antidemocrático”, explicou Tiago Rodrigues num debate em 2022. "O discurso é tão insuportável, tão provocatório que o público não pode senão reagir. Em Portugal têm cantado a ‘Grândola’, em Itália a ‘Bella Ciao’, em Viena o público levantou-se. Ver esses públicos reagir é algo que me devolve confiança, mas ao mesmo tempo preocupa-me que o público tão facilmente se revolte contra um ator”, lamentou.

A encenadora Mateja Koležnik disse ao The Guardian por telefone a partir de Liubliana que estava "incrivelmente orgulhosa" de Lagerpusch e denunciou a "estupidez" e a brutalidade do ataque dos espectadores. "Para mim, foi um choque – esperávamos que as pessoas respondessem, até que gritassem, porque, claro, o último monólogo é uma provocação", observou. O ator ficou "traumatizado", acrescentou. "Nunca imaginei – ninguém imaginou – que alguém da plateia saltasse para o palco e tentasse agredir o ator... Esperava isso das pessoas contra quem votámos, mas não das pessoas que deviam estar do nosso lado."

Koležnik afirmou que a sua intenção com a produção não era fazer com que a "sociedade liberal e pequeno-burguesa da Europa se sentisse bem" em torno de um consenso de condenação da intolerância, mas sim assustá-la: "Na próxima vaga do fascismo, não haverá monstros. Haverá pessoas normais e boas."

A peça tem percorrido vários palcos, quase sempre dirigida pelo próprio autor. Em setembro, "Catarina e a Beleza de Matar Fascistas" será também apresentada em Londres. "É a primeira vez que o National Theatre de Londres apresenta um espectáculo em língua portuguesa", anunciou Tiago Rodrigues nas redes sociais. O dramaturgo e encenador é também diretor do Festival de Avignon.

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