Foi a capital da festa hedonista da Europa. Agora a Geração Z quer outro tipo de diversão

CNN , Bryn Stole
11 mai 2025, 15:00
Festas em Berlim (Getty Images)

São 2 da manhã e centenas de pessoas estão alinhadas à porta do lendário clube de techno Berghain, em Berlim. Esqueçam a Filarmónica ou a Neue Nationalgalerie — esta é a instituição cultural mais famosa de Berlim, e multidões de amantes da dança vestidos de preto esperam conseguir passar pelos notoriamente exigentes porteiros do clube.

Mas nem tudo vai bem no cenário dos clubes de Berlim. O Wilde Renate, uma autêntica casa de diversões com pistas de dança empilhadas dentro de um prédio antigo e degradado, a pouco mais de um quilómetro do Berghain, planeia encerrar até ao final do ano. Do outro lado do rio, as pistas de dança junto à água do Watergate estão em silêncio desde uma festa de despedida na passagem de ano, terminando os 22 anos de existência do clube como um dos destinos mais emblemáticos da música electrónica europeia.

A vida noturna hedonista e dominada pelo techno de Berlim está profundamente enraizada na identidade cultural da cidade, e a série de encerramentos de espaços levou a muitas preocupações sobre o futuro, face ao aumento das rendas, à gentrificação e à mudança nas dinâmicas das festas. Naturalmente, há uma palavra alemã para o fenómeno: Clubsterben, ou morte dos clubes.

"Os dias em que Berlim estava inundada de visitantes amantes de clubes já passaram", escreveu a direcção do Watergate numa publicação no Instagram no ano passado, ao anunciar a decisão de fechar, acrescentando que uma "mudança nas dinâmicas nocturnas da próxima geração de clubes e uma alteração na relevância da cultura clubbing em geral" ajudaram a justificar a decisão de encerrar.

Uma geração mais jovem inteira, que atingiu a maioridade durante os confinamentos da pandemia, quando a maioria dos clubes de Berlim estava fechada, nunca foi iniciada na famosa cultura clubbing da cidade, disse um dos donos do clube, Uli Wombacher, ao jornal local Berliner Zeitung, pouco depois do anúncio. "Os saltos geracionais neste negócio são rápidos. Dois anos e meio de clubes fechados fazem a diferença."

As coisas tornaram-se indiscutivelmente mais difíceis, à medida que o submundo selvagem e irreverente que emergiu em Berlim após a queda do Muro, nos anos 90 — quando o colapso do comunismo e uma prolongada crise económica deixaram vastos espaços industriais abandonados e armazéns junto ao rio perfeitos para festas improvisadas — deu lugar à gentrificação e a uma invasão de grandes negócios.

Respeitabilidade de meia-idade

A cena das discotecas passou de underground a mainstream - com preços a condizer. Thielker/ullstein bild/Getty Images

As rendas aumentaram drasticamente, os custos com energia, pessoal e DJs subiram, e os aviões cheios de jovens turistas que em tempos enchiam os clubes de Berlim todos os fins-de-semana já não aparecem como antes. Mas, para quem sabe onde procurar, ainda há poucos sítios no mundo com uma vida nocturna como a da capital alemã. Agora, é um leque muito mais diversificado de organizadores de festas a tentar refazer (ou talvez apenas manter) uma cena de clubes que atingiu fama global há três décadas — e, para isso, têm de cativar as gerações mais novas.

Mas a cultura de clubes dominante em Berlim também atingiu uma certa respeitabilidade de meia-idade: os pais dos jovens da Geração Z que hoje frequentam a noite dançaram nos clubes como o Berghain e o Tresor durante a sua juventude, e políticos alemães aplaudiram no ano passado quando a comissão da UNESCO da Alemanha adicionou a cultura techno de Berlim à sua lista de património cultural imaterial — uma distinção partilhada com coisas como a gaita-de-foles turca, a falcoaria europeia ou a dança do tambor inuit.

Por isso, talvez não seja surpresa que alguns dos jovens queiram moldar uma cena de festas própria. Os clubes de Berlim continuam a ser destinos acolhedores para foliões e aficionados da música electrónica, mesmo já em plena meia-idade — mas embora os jovens ainda representem uma boa parte do público, a sua geração já não aparece em massa da mesma forma.

Parte disso poderá reflectir os custos mais elevados e estilos de vida mais saudáveis. Por exemplo, vários estudos recentes mostram que a Geração Z bebe menos álcool.

Mas os jovens também procuram uma cena mais solta, descontraída e irreverente, impulsionada por playlists alegres e dançáveis com trance e pop nostálgico. Ao longo da última década, Berlim tornou-se também muito mais diversa, e uma vaga de novos colectivos está a organizar festas com uma maior variedade musical — desde Afrobeat a electrónica árabe — além dos géneros clássicos de Berlim como house, techno e hip hop.

"A cena clubbing de Berlim começou como contra-cultura, mas agora é tão mainstream e menos entusiasmante", referiu Jose, um estudante de 26 anos que cresceu em Berlim, que preferiu não revelar o nome completo por razões de privacidade. "Também é muito caro. Talvez isso tenha aberto espaço para outras coisas surgirem. As pessoas vão a eventos culturais, festas ilegais, eventos mais underground ou discretos."

Templo do techno vs. ambiente despreocupado

A discoteca Berghain, em Berlim, cultivou uma reputação de exclusividade. Fabian Sommer/picture alliance/dpa/Getty Images

Alguns dos clubes mais antigos e famosos de Berlim há muito cultivam uma reputação de exclusividade, com filas intermináveis e políticas de entrada rigorosas que originaram dezenas de guias online sobre como conseguir entrar (alguns sugerem vestir o uniforme não-oficial preto dos clubes de Berlim).

Talvez nenhum seja tão lendário como o Berghain, um imponente templo do techno numa antiga central eléctrica de Berlim Leste frequentemente referido como o melhor clube do mundo. Lá, o julgamento exigente (ou caprichoso) dos porteiros tornou o chefe de segurança tatuado, Sven Marquardt, uma celebridade local.

A reverência por locais como o Berghain reflecte o quão a sério os berlinenses levam as suas festas techno — mas também irrita alguns foliões que procuram um ambiente mais leve, para simplesmente dançar e relaxar, em vez de se preocuparem com se vão ou não ser aceites à entrada.

"Não estamos à procura desse tipo de sair super rigoroso e sério, que é como eu sentia que Berlim era para mim há uns tempos", disse Daria, 24 anos, que também preferiu manter o anonimato. "Quando se vai dançar techno, é preciso ser aquele tipo específico de pessoa que leva tudo muito a sério, que tem de ficar acordada até muito tarde. Já não é isso que procuramos.

"Para mim, sair à noite é passar tempo com pessoas de quem gosto, poder expressar-me livremente, ser despreocupada", acrescentou. "E pelo que ouvi e vi, não se pode ser verdadeiramente despreocupado se não se sabe se se vai entrar, se é preciso comportar-se ou parecer de determinada forma."

When people go out to dance to techno, you’d have to be this specific type of person who takes everything very seriously, who has to stay up super late. It’s something that we’re not looking for anymore.

Daria, 24.

Durante a pandemia, houve um aumento de festas ilegais ao ar livre em parques e outros espaços públicos em Berlim, muitas vezes à margem das regras em vigor, e essa cena ajudou a alimentar um ressurgimento da vida nocturna underground. Os espaços vazios que impulsionaram o crescimento da cena nos anos 90 praticamente desapareceram do centro da cidade, mas agora há muitas festas — algumas com autorização, muitas sem — organizadas em campos junto a autoestradas e em espaços industriais abandonados nos arredores.

Tudo o que é realmente preciso para uma boa festa, no essencial, é um pouco de electricidade, um sistema de som minimamente decente, um público entusiasta — e talvez algumas grades de cerveja barata.

Alguns dos clubes mais estabelecidos também têm vindo a mudar radicalmente. O Suicide Circus, por exemplo, existe em Berlim, de uma forma ou de outra, há mais de três décadas e, desde 2009, está instalado num antigo complexo fabril perto da linha férrea, no coração da antiga Berlim Oriental. Mas no início de 2024, o clube rebatizou-se de Lokschuppen (que significa “barracão da locomotiva”) e entregou algumas das festas a novos coletivos de eventos, que trouxeram consigo um público mais jovem.

‘Espaços mais seguros’

Nem mesmo a pandemia fez parar as discotecas de Berlim. No entanto, após a Covid, algumas discotecas têm tido dificuldades. Sean Gallup/Getty Images

"Lembro-me de quando as pessoas iam só pelo clube", contou Jermaine Fuchs, um dos responsáveis, ao jornal Tagesspiegel. "Hoje, os convidados tendem a seguir os DJs ou os colectivos."

Emiko Gejic, porta-voz da Berlin Club Commission, um grupo que defende a cena clubbing da cidade, disse que uma nova vaga de colectivos de música e eventos mais jovens têm trazido “um estilo diferente” e alargado a oferta nos clubes.

"Frequentemente organizam espaços mais comunitários. Há muitos colectivos jovens — colectivos POC, colectivos queer, colectivos FLINTA (mulheres, lésbicas, intersexo, não-binárias, transgénero e agénero) — que se centram muito mais na identidade e na criação de espaços seguros", afirmou.

"Organizam eventos com programação muito mais diversa, com exibições de filmes, debates, concertos, performances ao vivo. Torna-se, de certa forma, muito mais artístico, em vez de, digamos, apenas uma festa onde as pessoas vão dançar num quarto escuro com música techno alta."

Aziz Sarr, de 44 anos, cresceu no meio da cena nocturna de Berlim. O seu pai, um DJ senegalês, actuava regularmente no Dschungel, um ponto quente da Berlim Ocidental nos anos 80. Ele próprio começou a organizar festas há mais de uma década com dois colectivos, Freak d’Afrique e RISE, ambos centrados na música africana. Em conjunto com Ukai Ndame, abriu o MAAYA no ano passado, num espaço ao lado do Lokschuppen.

"Berlim tornou-se muito mais diversa, nota-se", disse. "E todas estas comunidades querem festejar, e por isso moldam a vida nocturna.

"Berlim é definitivamente uma daquelas cidades onde se pode sair para ouvir qualquer tipo de música", afirmou Sarr. "Pode-se ir a uma festa de Afropop, de techno, de música brasileira, de electro árabe, de festas queer árabes. Acho que há uma festa para cada cena em Berlim — e isso é muito bonito, e cada vez mais diverso."

Zuher Jazmati começou a organizar o que chama de eventos queer árabes com o colectivo ADIRA em Fevereiro de 2023. Apaixonou-se pela vibrante vida nocturna de Berlim ainda nos anos 2000, e embora se queixe de que o clubbing mais comercial e mainstream tenha abafado parte da contra-cultura, também há espaço crescente para eventos além das festas ensurdecedoras. O ADIRA organiza festas pop que enchem clubes, mas também eventos comunitários, exposições de arte e lançamentos de livros.

"Uma festa como a nossa não teria acontecido em nenhum dos clubes que havia em Berlim", referiu. "Quer dizer, uma festa queer de música pop árabe? Onde?"

"Espaço para escapar"

Em Berlim, as discotecas são cada vez mais vistas como um objeto de luxo. Carsten Koall/Getty Images

Os custos em subida tornaram efectivamente mais difícil a sobrevivência da cena, e o aumento do custo de vida — numa cidade que outrora se destacava pelas rendas acessíveis, atraindo artistas e amantes do lazer — tornou mais difícil sair à noite. Entradas que rondavam os 10 a 15 euros há pouco tempo já vão nos 20 ou até 30. "Muitos dos meus amigos gostariam de sair, mas simplesmente não conseguem gastar 40 euros", contou Daria.

"Tornar-se uma coisa de luxo sair à noite, comprar bebidas, consumir drogas. Tudo isso custa muito dinheiro", acrescentou Jazmati, de 35 anos.

"Talvez alguns nepo babies, ou filhos da classe alta, mas não é algo fácil de fazer para um miúdo da classe trabalhadora."

Também notou que os mais novos já não saem tanto, em parte por terem perdido a possibilidade de se libertarem em festas durante os anos formativos da pandemia. Mas o custo elevado de sair nos clubes tradicionais também impulsionou o renascimento de festas underground, e Jazmati diz ter esperança de que Berlim encontre novos espaços — talvez nos arredores, em bairros menos na moda ou em locais diferentes — para manter viva a subcultura.

"A cena noturna de Berlim era uma subcultura acessível, sempre para os excêntricos, para os que nunca se encaixaram na sociedade, que queriam um espaço para escapar um pouco", disse. "É isso que torna Berlim fascinante e interessante."

"Durante muito tempo, na cultura de Berlim, sair à noite era extremamente acessível para os jovens, para pessoas com baixos rendimentos, e isso mudou muito", referiu Gejic.

Mas se há algo que tem sido constante na vida nocturna de Berlim ao longo das décadas, é uma geração mais velha a dizer aos recém-chegados que já perderam todas as melhores festas. "Quando cheguei, já diziam que estava morta", disse o DJ, produtor e veterano dos clubes de Berlim Sven von Thülen à revista inglesa da cidade, The Berliner, sobre a cena em 1996.

"Acho que os melhores tempos já passaram, mas não sei onde é que ainda poderá ser melhor, digamos assim", defendeu Daria. "Em termos de quantidade e da diversidade de festas, clubes e pessoas, acho que Berlim continua no topo."

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