Em Berlim há um prédio de betão de Siza com Bonjour Tristesse escrito no topo. A mesma fachada, anos depois, ganhou um segundo aviso, mais urgente que poético: BITTE LEBN, "por favor vive". Entre estas duas frases, como entre os lados menos turísticos da trilogia de Berlim de David Bowie, cabe uma geração portuguesa que fez as malas na grande crise da troika, deixou recibos verdes e chaves de casa em cima da mesa e foi aprender para Berlim como se respira noutra língua. Esta é a segunda reportagem de uma trilogia que segue algumas dessas vidas adiadas, divididas entre o país que empurrou e a cidade que acolheu: trabalho qualificado pago como se fosse favor, invernos que não acabam, línguas que se aprendem à pressa, regressos que tanto salvam como doem. Mais do que histórias de emigração, são três cartas escritas de Berlim para um lugar chamado Portugal, a tentar dizer, com todas as sílabas: adeus, tristeza
O primeiro objeto que prende o olhar é um cão de louça com uma coleira cor-de-rosa, está pousado numa bonita cómoda de madeira à entrada do apartamento como que a controlar quem chega e quem sai, é cão de guarda mesmo sendo cão de louça. Depois: neste quarto andar em Friedrichshain, antiga Berlim Oriental, a casa abre-se imediatamente para a sala, para a mesa de jantar e para a mesa da cozinha, ocupam todas um só espaço, e sobre a bancada da cozinha repousam farinha espalhada, um monte de massa elástica e uma panela de inox com abóbora assada.
Aparece entretanto André Weigel, 29 anos, sorriso tímido, cabelo rapado e barba curta que faz sobressair os olhos azuis, veste t-shirt castanha, calças largas e meias brancas enfiadas num par de birkenstock, é uniforme de cozinheiro caseiro - há aquele monte de massa elástica que ele vai amassar para transformar no jantar. Joana Seabra, 31 anos, sai do quarto - apressada: veste roupa confortável, tem o cabelo - negro - meio preso, meio desconchavado. Passa por trás de André, abre o frigorífico, fecha o frigorífico, faz contas de cabeça, suspira, “isto não vai chegar”, resmunga com sotaque portuense, depois vira-se para o corredor e diz “hi, come in!” a quem acaba de bater à porta e está sob vigilância do cão de louça-cão de guarda.
Os idiomas flutuam dentro do apartamento mas também lá fora no prédio inteiro, há inglês para uns, português para outros, obviamente que tem de haver alemão, um “danke” ou “tschüss” para os vizinhos. “Vais acabar por reparar que isto parece-se muito com uma sitcom”, diz André Weigel, di-lo a gracejar enquanto já está com as mãos na massa - literalmente.
Daqui a pouco a sala vai ter portugueses, americanos, bielorrussos, gregos, marroquinos, alemães, filipinos a discutir política, arte, projetos novos enquanto passam aperitivos, bebida e relatam novidades das últimas semanas – com “umas boas fofocas” à mistura. André Weigel vai dar-lhes raviolis, está a tratar disso agora mesmo, “está tudo controlado!”, anuncia, Joana Seabra não está convencida disso, vai a correr ao supermercado.
É preciso levar sobretudos fechados até ao queixo e cachecóis a esconder metade do rosto quando se vai para a rua, mas para lá chegar não há elevador - como em tantos prédios de Berlim –, são escadas estreitas em alcatifa gasta que levam do interior para o exterior do prédio. Entre o edifício e a rua há um pequeno hof – geralmente um pátio ou jardim compartilhado – no qual os residentes guardam as suas bicicletas e depositam o lixo.
“Este é capaz de ser um dos melhores interiores onde já vivi, as entradas dos prédios em Berlim são frequentemente um bocado medonhas”, conta Joana Seabra. Ao contrário de Portugal, aqui as campainhas não indicam os números dos andares mas os apelidos dos respetivos residentes: Weigel, Couvinha, Seabra – este escrito à mão numa etiqueta improvisada. “Eu cheguei depois”, ri-se Joana, fecha a porta do prédio.
A escassos metros dali, o trânsito foi empurrado para longe e o asfalto ganhou um tapete de cores: flores, folhas e formas abstratas pintadas no chão a abrir caminho para bicicletas e crianças e adolescentes de capacete. Há canteiros de metal grafitados com corações fluorescentes, cães param cheirá-los durante os seus passeios de rotina, um banco coberto de ‘tags’ serve de ponto de encontro, folhas secas acumulam-se na extremidade do passeio.
Uma vez por ano, no Dia Europeu Sem Carros, troços como este em dezenas de bairros de Berlim transformam-se em Spielstraßen, “ruas de brincadeiras” ou “ruas de jogos” numa tradução literal: é fechado o acesso aos automóveis, os carros estacionados têm de ser retirados e as pessoas saem de casa com mesas improvisadas, espalham brinquedos e fazem piqueniques em pleno alcatrão. “Uma das minhas coisas preferidas de viver cá é poder andar de bicicleta para todo o lado.”
Friedrichshain, antigo reduto de ocupas, coletivos de esquerda e artistas, é hoje residência de recém-chegados do mundo inteiro, americanos e britânicos enchem os cafés de conversas em inglês. “Hoje em dia é mais fácil andar por aqui a falar inglês do que era há cinco ou seis anos.” É por esta zona quase pedonal, meio parque infantil, meio mural político a céu aberto, que Joana carrega os sacos das compras no regresso a casa, rumo à cozinha onde há massa elástica para transformar em massa pronta para jantar.
Joana fala sobre a infância, passou os primeiros cinco anos em Vila Nova de Gaia e depois do nascimento da irmã muda-se para Lordelo do Ouro, perto do Bairro do Aleixo, onde a família toda vivia num raio de dois quilómetros. Crescer no Porto, num circuito em que “conheces toda a gente” e as hierarquias sociais estão mais ou menos definidas, tudo isso faz o mundo parecer-lhe tão gigante ainda antes de ela sequer ter viajado pelo mundo para saber mesmo de que tamanho o mundo é. A escola de artes, no secundário, começa a desdobrar-lhe o mapa e a mostrar-lhe quão diverso é o que nos rodeia: colegas de outros bairros, outros estilos, outras biografias, a descoberta de que era “fixe ter interesse pelas coisas”.
Segue para Belas-Artes, sai brevemente do país, é o primeiro ensaio para mais tarde sair de vez: faz um Erasmus em Sheffield, Inglaterra, é “chunguito” porque é difícil porque é solitário ou vice-versa, mas dá para perceber que tem uma necessidade de independência impossível de satisfazer se voltar para o lugar onde estava antes de ter ido para Inglaterra. Terminada a licenciatura também percebe que não quer “passar a vida a fazer quadros para o pessoal rico do Porto” e muda subitamente de planos: mestrado em Evolução e Biologia Humanas em Coimbra mas a meio descobre que grande parte do currículo não lhe diz nada, a cadeira de Antropologia Forense, por exemplo, é “olhar para ossos e dizer de que é que esta pessoa morreu”, não é isso que quer fazer da vida.
O destino Berlim aparece em 2017 associado a uma nova hipótese de Erasmus, desta vez em Neurociências, o namorado de Joana “queria muito sair de Portugal”, ela não se opôs apesar de Berlim não a seduzir especialmente mas: Joana candidata-se na mesma, “shoot first, ask questions later”, à última hora ele recua e ela não.
A mudança é “caótica e stressante”, Joana não fala alemão de todo, fica primeiro a dormir num Airbnb, entretanto a mãe tira férias para ir a Berlim ajudar na procura de quarto, o início é turbulento mas também apaziguador: Joana entra num mestrado com investigadores ativos, tem acesso a laboratórios e a um grupo de colegas tão diverso que pela primeira vez sente estar a viver a experiência Erasmus que idealizara. Seis meses transformam-se num curso completo e em 2021, por sugestão de uma professora, começa um doutoramento no hospital universitário Charité - descobre que manter-se na academia é um emprego como qualquer outro, com direito a progressão, mas o desafio torna-se “difícil, muito muito difícil”, se Joana soubesse no que se ia meter não sabe se teria alinhado mas tê-lo feito “abriu muitas portas que, se calhar, de outra maneira não teria acontecido”.
A casa está em modo pré-festa: tiram-se casacos, cachecóis, gorros, luvas, o calor seco do interior sobe pelas caras, à porta acumulam-se botas e sapatilhas com a chegada dos convidados, usam-se meias grossas ou chinelos para caminhar dentro de casa. Quem entra faz uma pergunta, “onde posso deixar isto?”, “isto” é uma garrafa, o calor desinibidor do vinho haverá também de subir pelas caras.
A cozinha já não é só de André, há uma linha de produção para esticar a massa à vez, cortar quadrados e fechar raviolis de abóbora com a ponta dos dedos. Na sala, um alinha os copos enquanto outro escolhe a música, há vinho francês e italiano e ainda cerveja barata do späti, o ruído de fundo é um vaivém de frases – começam em inglês, descaem pelo português, tornam ao inglês e arriscam um bocado pelo alemão. Uns conhecem-se, outros nunca se viram.
- Estás aqui há quantos anos?
- Nove. E tu?
- Oito. Vim para estudar.
- E ficaste.
- Voltei ao meu país, mas quis vir para cá de novo.
No meio daquela frenesim íntimo, Joana aponta orgulhosamente para o arsenal trazido de umas pequenas férias em Portugal: a marmelada e o “queijinho”, o bacalhau embalado escondido no congelador, o garrafão de azeite encostado a um canto, o frasco de orégãos e o limonete do quintal da mãe. “Por acaso voei pela TAP e tive direito a uma mala, porque normalmente vou pela Ryanair e não tenho opção.” Entre os objetos que vieram das casas anteriores de cada inquilino e os souvenirs de viagem sobressai uma peça de cerâmica ao estilo de Bordallo Pinheiro, foi comprada no Algarve e está pousada numa prateleira para lembrar o calor português que por vezes também sobe pela cara acima transformado em saudade.
Joana está a subir ao terraço do prédio por umas escadas estreitas pouco acolhedoras para quem está apenas de meias ou chinelos, “é proibidíssimo estar aqui em cima, antes vínhamos ao final da tarde com umas almofadas, umas cervejas e conversávamos, mas o senhorio não achou piada”, agora o terraço serve sobretudo para impressionar as visitas - impressiona. Berlim, vista ali de cima, aparece em camadas: o horizonte cor-de-laranja e rosa quase a desaparecer, um céu azul-acinzentado pesado de fim de outono, a torre da TV a rasgar o fundo e ao lado “a Amazon a estragar-nos a vista”, lá em baixo, junto ao prédio de Joana, as janelas acesas revelam cozinhas, estendais, vasos em varandas estreitas, “acho que é a melhor casa onde vivi em Berlim até agora, não só pelo espaço em si mas pela convivência”.
Encontrou este apartamento depois de várias tentativas a partilhar casa com desconhecidos, “a renda não é barata, verdade seja dita”, são 2.580€ a dividir por três pessoas, 860€ para cada um dos inquilinos deste apartamento que foi o primeiro lugar onde Joana sentiu que podia respirar. Antes disso, nos outros sítios onde morou, a convivência tornava-se tensa ao ponto de passar a levar uma lista de perguntas às pessoas com quem teria de partilhar casa, “para garantir que estavam todos na mesma onda”. Foi através de outros portugueses que conheceu André e Daniel, ficaram amigos, quando lhe propuseram dividir este apartamento não hesitou, até hoje não se arrependeu, boa onda.
Conversa-se sobre como se constrói uma vida e uma comunidade longe do país de onde se é: André, já com os últimos raviolis na mão, fala sobre uma geração de portugueses que continua a aterrar em Berlim de paraquedas, sem rede de proteção, e sobre isso lembra-se de um espaço criado por um amigo durante a pandemia, nesse sítio juntavam-se dezenas de portugueses que não andavam propriamente à procura de portugueses mas que eram com portugueses que acabam por se juntar. “Não viemos para Berlim para nos darmos com pessoas portuguesas mas soube muito bem na altura voltar a falar a nossa língua, ter conversas nas quais, se calhar, nos exprimíamos melhor. Ajudou a criar uma comunidade que hoje em dia ainda mantemos, foi aí que me cruzei com 90% dos portugueses que conheço em Berlim.”
Organizam jantares, idas ao cinema, atividades ao fim de semana, eram uma tropa de elite contra “a solidão”, cada soldado entreajudava-se no campo de batalha: “Integramos logo as pessoas que chegam. Temos um amigo que se mudou para cá e dissemos ‘vamos apresentar-te a estas 100 pessoas, de 10 delas hás de gostar e ter uma boa conexão’. Nós fazemos a nossa própria comunidade”.
Em 2024, André – que é de Évora – fez o Natal ao contrário e passou-o com a família em Berlim, Joana vai sempre a Portugal mas o regresso já não é tão simples: “Tento ir no mínimo duas semanas, mas há sempre aquela sensação estranha de que estou a voltar a uma vida que já não é bem a minha: tens as mesmas ruas, as mesmas pessoas, os mesmos sítios aos quais foste sempre e, ao mesmo tempo, parece que estás a visitar uma versão antiga de ti própria”.
Em Portugal, diz Joana, sentiu-se confrontada com um “guião invisível”: acabar o curso, arranjar emprego, casar-se, comprar casa - “e se não estás a fazer isso é quase como se estivesses a falhar no jogo”. Em Berlim pôde testar outras versões dela próprias, “não é que seja um paraíso - não é”, mas sente-se “mais bem aceite”. “Ninguém está muito preocupado se compras casa, se tens carro, se vais ter filhos ou se decides não ter. Podes viver num quarto alugado aos 30 e tal anos, podes mudar de área, podes passar de Belas-Artes para Neurociências e ninguém faz grande caso disso.”
A “portugalidade” também já não é a mesma, é “uma portugalidade ‘bastardizada’ através da emigração” - sorri ao saborear a expressão que acaba de inventar. “Sou portuguesa, mas já não sou aquela portuguesa de Portugal. É uma coisa mais híbrida, é falar português com pessoas que também saíram do país, é ter saudades de coisas muito específicas – do pão, das piadas, da maneira como se fala – mas já não querer tudo o resto, o pacote completo.”
Joana encolhe os ombros, tem um copo de vinho branco na mão, olha para a casa cheia: “Neste momento faz mais sentido a minha vida aqui”. Em Coimbra trabalhava em cafés a 3,10€ à hora, no segundo ano de mestrado em Berlim dava aulas de inglês online à noite por cerca de 8€ à hora, o salário do doutoramento começou nos 1.700€, subiu até aos 3.000€ atuais - já depois de feitos os descontos para a Segurança Social. “A maioria das pessoas em Portugal pensa que quem faz um doutoramento vive à custa dos pais, em Berlim um doutoramento pode ser um emprego, recebemos um salário”, por isso: “a condição financeira é um dos fatores cruciais para eu continuar aqui, dificilmente teria o mesmo tipo de condições em Portugal”.
No bairro de Prenzlauer Berg – mais ou menos a quatro quilómetros de Friedrichshain –, uma transmontana tenta montar peça a peça a vida em Berlim: Sara Pinto, 31 anos, está à volta das instruções de uma prateleira nova, os longos caracóis claros escondem o olhar compenetrado. A sala ainda cheira a cartão e madeira acabada de desembalar, de um lado alinham-se caixas rasgadas, sacos de plástico e uma televisão por cima do chão, do outro vê-se uma espécie de escritório já devidamente decorado como se de outra divisão se tratasse.
Sara recebeu há poucos meses o telefonema que esperava há mais de um ano: “Perguntaram se eu estava interessada no apartamento e disseram que podíamos assinar o contrato no dia a seguir”. Foi a 29 de agosto, véspera do 31.º aniversário de Sara, “melhor presente era impossível”. Conseguir este apartamento – um confortável T1 num prédio antigo, com janelas altas para a rua, varanda e uma cozinha equipada – foi uma espécie de pequena vitória numa cidade onde os anúncios de arrendamento desaparecem em minutos, “em Berlim são sempre sete cães a um osso”.
Quando foi ver a casa pela primeira vez “estavam pelo menos 10 pessoas” dentro do apartamento para ficar com ele, queriam todas aquele T1, depois foi preciso enviar documentos, comprovativos de ordenado, registo de residência. Sara achava que um casal com dois salários fixos teria sempre mais hipóteses do que ela, sozinha, ela que estava disposta a pagar mais 300 euros por aquela casa do que pelo quarto onde vivia. Resultado: passou dos 470 euros pelo quarto para 780 euros com despesas incluídas para viver, sozinha, neste apartamento que queria tanto.
Agora a casa é mesmo dela, cada estante é montada com carinho, cada planta é pousada no sítio devido. Na bancada da cozinha já há uma azeiteira portuguesa em inox, por baixo cinco litros de azeite do Minho rotulado em alemão. Depois ela anuncia: “A nossa couve!”, Sara aponta para uma peça de cerâmica ao estilo Bordallo Pinheiro, ao lado há uma pilha de livros e um copo do Sonic Blast - o festival português a que tenta ir todos os anos: “Nessas duas semanas em agosto estou em Portugal e são experiências incríveis porque estou com a família, estou com amigos, estou a ver bandas de que gosto. Depois é muito difícil regressar, fica um bocadinho o coração partido”.
Sara nasceu em Mirandela em 1994, tirou a licenciatura e o mestrado em Jornalismo em Coimbra, onde trabalhou quase dois anos numa empresa de comunicação antes de perceber que lhe faltava qualquer coisa. “Vim para a Alemanha em 2019, inicialmente para fazer um projeto de voluntariado em Wittenberg porque queria ter uma experiência internacional fora de Portugal”, foi o ano em que a pandemia veio, Sara ficou.
Passou um ano em Bonn como au-pair, para aprofundar o alemão, fez dois estágios em Frankfurt - no Museu de Cinema Alemão e em jornalismo financeiro - e ainda um estágio em Bruxelas, no centro de visitas da Comissão Europeia. Em 2023 decidiu-se finalmente por Berlim: “O que me motivou mais foi o facto de ser uma cidade grande e de ter muita oferta cultural: gosto muito de cultura, gosto muito de ir ao cinema, teatro, gosto muito de ir a concertos e em Berlim há sempre coisas a acontecer, os dias todos, não só ao fim de semana”.
Sara fecha a porta da casa nova, desce as escadas – mais um andar sem elevador – e apanha o U-Bahn em direção a Alexanderplatz, no coração de Mitte. O casaco comprido e a mochila preta contrastam com a camisa de padrão colorido apertada até cima.
Dentro da carruagem, a luz fria ilumina a escuridão do túnel. Nas paragens, os azulejos e os anúncios passam como fotogramas, rápidos, antes de aquela composição voltar a ser engolida pela noite subterrânea. Há uma publicidade a uma escola de línguas que se repete em mais do que uma estação: “Tired of speaking silly german?”.
À superfície, Sara caminha pela Rosa-Luxemburg-Platz, onde o cinema Babylon se destaca das outras fachadas: letras vermelhas enormes num edifício com janelas retangulares simétricas e um letreiro a anunciar a estreia de uma nova série da HBO. À entrada juntam-se videógrafos, convidados vestidos de acordo com o tema, sobretudo jovens, que percorreram um modesto tapete vermelho estendido no passeio.
Por dentro, o Babylon é uma viagem no tempo até 1929. O teto da sala de cinema é arredondado, com candeeiros circulares que lançam uma luz quente sobre filas e filas de cadeiras verde-água, todas iguais. Entre duas dessas cadeiras, na plateia quase vazia, Sara senta-se ao lado de uma estátua do realizador Ernst Lubitsch, em tamanho real, sorridente e de charuto nos lábios. À frente do ecrã, junto às cortinas, uma pianista toca como se fazia no tempo do cinema mudo.
“Acho que é a cidade para mim: nos dois anos e meio em que aqui estou ainda não fiz tudo o que gostava, há sempre museus para visitar, exposições para ver, filmes.”
A noite não acaba naquela sala. A poucos metros dali, do outro lado da praça, há outro ritual sagrado de Sara Pinto: futebol. O Belushi’s é um bar de paredes escuras e tubos metálicos à vista, está preparado para noites de Liga dos Campeões: o cheiro a fritos e a cerveja derramada misturam-se com o ruído de várias televisões ligadas em simultâneo, em cada mesa alta há copos meio vazios ou meio cheios, consoante o otimismo ou pessimismo de quem os bebe, os pratos de nachos estão cheios de molho, os clientes vestem camisolas de clubes diferentes e competem entre quem grita mais alto.
Numa das mesas do segundo andar, virada para o ecrã onde passa o Sporting-Marselha, o verde domina: cachecóis com o leão, camisolas às riscas, um boné verde, uma mascote de peluche pousada em cima de um jarro de vidro. Sara está numa das pontas, t-shirt verde e branca vestida à pressa antes de entrar, copo na mão. À volta, uma meia dúzia de portugueses discute a tática, reclama de faltas, levanta-se a cada ataque mais perigoso.
É um dos “vários grupos de amigos portugueses” que Sara foi construindo ao longo dos últimos anos, este é para “ver os jogos do Sporting”. No WhatsApp são umas 30 pessoas, na prática são “mais ou menos seis” a aparecer quase sempre. Aos poucos trazem amigos novos, conhecidos de conhecidos: quem chega a Berlim e procura “Sporting” no Facebook ou é adicionado a um grupo de portugueses por um amigo ou vem dar diretamente aqui à volta desta mesa.
A certa altura alguém estende um cachecol, uma amiga de Sara pousa um macaco de peluche vestido com a camisola da seleção ao lado de uma preguiça com as cores do Sporting: parece só uma noite de futebol num bar além-Portugal mas é mais do que isso, é a continuidade de conversas que se estendem para lá do resultado do jogo, planos para o próximo 25 de Abril em Berlim, ideias para repetir a festa que já organizaram: “No 25 de Abril juntámo-nos para celebrar a data e decidimos organizar um evento, houve uma vez em que nos juntámos todos e éramos 30”. É o plantel da liberdade.
Quando chegou à Alemanha em 2019, Sara não queria nada disto, “eu nem me esforçava por conhecer muitos portugueses”: “Tinha acabado de vir de Portugal, só queria emergir na cultura alemã, queria conhecer pessoas alemãs ou pessoas de outros países, mas não queria ter nada que ver com portugueses nem com Portugal”. Com o tempo foi o contrário, “eu preciso desta conexão e agora dou muito valor ao grupo de amigos portugueses que tenho cá, com quem vamos ao café ou vamos ver o Sporting ou vamos fazer várias coisas - é o elo de ligação que eu tenho aqui com Portugal”.
Esse elo não é tão óbvio como em Bruxelas, onde viveu durante cinco meses enquanto estagiava na Comissão Europeia. “Uma pessoa em Bruxelas consegue ser portuguesa e consegue viver como portuguesa, consegue ir ao supermercado falar português, consegue ir ao restaurante falar português, consegue fazer grande parte da vida e falar sempre português.” Em Berlim os portugueses “estão mais diluídos”, para beber um café português ou ir a um restaurante típico é preciso atravessar meia cidade.
Sara tem o coração neste espaço intermédio em que as veias ligam as fronteiras: Portugal não deixou de ser referência – Mirandela, a festa da terra, o festival de verão, o pai que pergunta sempre que ela volta “mas tu não encontras nada aqui para trabalhar?”; a par disso, a vida que construiu fora de Portugal já não cabe na gaveta de onde saiu, “tenho medo de chegar lá e de já não me adaptar porque a realidade que eu deixei já não vai ser a mesma”. Portanto: “Se calhar vou estar lá uns meses e penso ‘para que é que vim?, já não faz sentido’”.
À saída do Belushi’s, já perto da meia-noite, o grupo dispersa-se pela Rosa-Luxemburg-Platz. Alguns seguem para o metro, outros para o tram. Sara já tem a t-shirt na mochila, guarda o telemóvel no bolso do casaco e caminha para a estação. No grupo do WhatsApp já falam em bilhetes para o próximo jogo, desta vez em Munique para ver o Sporting ao vivo.
Jorge Ferreira, biólogo de 33 anos, está na pausa de almoço: atravessa tranquilamente o Volkspark Wilmersdort, no bairro de Wilmersdorf, já no antigo lado ocidental da capital. Aqui a cidade parece outra: em vez de fachadas cobertas de grafitis e bares ao longo da rua há prédios cuidados com varandas envidraçadas, carros estacionados em fila certinha e idosos a passear cães pequenos em silêncio. Jorge Ferreira olha em volta e resume esta diferença numa frase: “Acho que esta cidade é o expoente máximo do ‘sê quem tu quiseres’”.
O parque é um corredor verde no meio do bairro, com caminhos de gravilha clara em curva ladeados por árvores altas, troncos caídos transformados em bancos, pequenas clareiras onde os mais velhos das famílias lançam papagaios de papel para impressionarem os mais novos. Mais à frente, uma vedação de metal alto desenha um retângulo perfeito à volta de um campo de futebol sintético, onde miúdos de camisolas fluorescentes treinam remates. Entre o parque e o relvado, meia dúzia de aparelhos de ginástica aguardam por quem ali passa com tempo para se esticar.
Encostado a uma das vedações, Jorge veste um hoodie azul-vivo por baixo de um casaco de ganga escuro, cujos bolsos usa para proteger as mãos do frio. O cabelo é negro, espesso, está penteado para o lado, a barba farta vinca devidamente a linha do maxilar e a do lábio superior. Fala pausadamente sobre a vida que deixou para trás em Portugal: filho mais novo de quatro, cresceu no Porto numa família que passou de classe média-alta confortável a “sem extravagâncias” - os irmãos mais velhos ainda apanharam a fase boa em que estudar fora podia ser um sonho, quando chegou a vez de Jorge sobrou a realidade de não poder sonhar da mesma maneira.
Frequentou a escola pública de bairro, depois a universidade pública a poucos quilómetros de casa, o mestrado foi escolhido mais pela possibilidade de continuar num laboratório do que por paixão pelo plano curricular. “Eu venho daquela franja social meio esquisita, vivia numa casa grande à beira do Parque da Cidade mas estudava com malta de classe média e média-baixa. Nunca me encaixei bem em lado nenhum.”
Seguiu o percurso académico que o sistema lhe pedia: licenciatura em Biociência, mestrado em Ecologia, Ambiente e Território, doutoramento em Biologia Molecular e Celular, bolsa da FCT, anos de investigação com modelos animais. Mas ao mesmo tempo o sistema empurrou-o para fora: “Não há grande interesse porque não é daqui que vai sair a cura para o cancro, não é daqui que vais curar a SIDA. Não estou numa engenharia, por isso também não tenho um produto final”.
Quando o tema é a forma como Portugal trata os seus jovens com formação superior, tem pena do país - “não valoriza doutorados, o salário nunca vai ser grande coisa”. Não lhe passaria pela cabeça esconder o nível académico, “epá, eu não andei a estudar e a trabalhar uns 20 anos ou mais para chegar ao fim e pensar ‘agora vou só esconder este grau’ para não pensarem que sou demasiado qualificado”.
Em Portugal deixou de ser uma possibilidade “pagar casa, contas, comida”, não ter de se preocupar “com nada”, ter “independência total” - e quando há algum dinheiro: “A renda come-te o salário todo”. Percebeu cedo que “na investigação e na academia é quase obrigatório viver fora” e por isso fê-lo, mas foi “o maior sacrifício” da sua vida. “Não foi de livre vontade, não sou um emigrante holandês que decidiu sair porque quer viver num outro sítio e tinha o poder de escolher ficar, não!, em Portugal não tinha uma escolha assim tão grande.”
São quase 14:00, Jorge abandona o parque. O caminho até casa faz-se por ruas largas, com prédios de fachadas compridas e jardins de inverno, árvores alinhadas junto ao passeio. Ao fim de poucos minutos dobra uma esquina e entra numa rua residencial tranquila, com carros estacionados em ambos os lados e ciclovias marcadas no alcatrão.
No prédio onde vive há cadeiras posicionadas ao lado da janela a cada lanço de escadas, para os mais velhos irem descansando durante as intensas subidas e descidas sem elevador. Lá em cima o apartamento é só dele e de um colega de casa bastante ausente, “é como se eu vivesse sozinho, na verdade”. Jorge tem o seu pequeno escritório montado na sala, ainda decorada por inquilinos anteriores. Enquanto trabalha vai olhando para a varanda, à espreita dos corvos que prontamente batizou depois de chegar a Berlim.
A oportunidade de ir para a Alemanha apareceu há cerca de dois anos, quase por acaso numa conferência em Marselha: conheceu ali o editor de uma revista científica que mais tarde sairia dessa posição que hoje o próprio Jorge ocupa. Uns meses depois desse encontro, Jorge viu no Twitter que o editor tinha mudado de cargo e por isso mandou uma mensagem, recebeu o link para fazer a candidatura.
Berlim surgiu nesse ecrã como uma de quatro opções possíveis – Nova Iorque, Londres, Berlim ou Madrid. Jorge ponderou muito, fez contas de cabeça: Nova Iorque, com o salário oferecido, significava viver “num closet”; Londres, salários apertados e vistos; Madrid, um “não” automático “só porque sou português”. “Então escolhi Berlim, vim para Berlim, aterrei para viver cá. Eu nunca tinha estado em Berlim.”
E aterrou com uma casa arrendada online, à distância, apesar das noites em branco a ler fóruns que garantiam que ia ser enganado. “A quantidade de vezes que eu achei que ia aterrar e não ia haver casa nenhuma…” Risos.
Os primeiros dias foram passados a tentar decifrar placas numa língua em que não sabia “praticamente uma única palavra” e a descobrir quão desorientadora pode ser uma cidade tão plana. “Andei superconfuso, mas percebi como usar marcos geográficos para me orientar.” Agora a rotina é outra: bicicleta para o escritório quando o tempo permite, teletrabalho frequente, escalada ao fim do dia, jantares ocasionais com amigos que também orbitam o mundo da ciência: “Não estou deslumbrado com o estrangeiro mas dá uma liberdade muito grande para escrever a minha história”.
Contas rápidas: ganha 60.000€ brutos por ano, cerca de 40.000€ líquidos; quando veio em 2023 eram 43.000€, depois atualizou para 48.000€, a seguir 51.000€ e no ano passado os atuais 61.000€. Com 43.000 vivia ok mas a renda era apertada - são 1.200€ para a casa, valor que inclui a própria renda e ainda as inevitáveis contas. “Qualquer jovem com 50.000€ para cima já pode viver sozinho em Berlim e não ter de se preocupar com nada - tem opções reais e ainda poupa.” Em Portugal estaria a ganhar 2.000€ brutos ao mês, talvez um pouco mais: “Não sei quanto seria em valor líquido porque nunca tive um contrato, por isso não sei como funcionam os descontos”.
Jorge vai ao Porto duas ou três vezes por ano, quase sempre durante duas ou três semanas, aproveitando o facto de poder trabalhar à distância. “Quando volto a Portugal, nos primeiros dias toda a gente está feliz por me ver e por estar comigo”, mas depois desse entusiasmo inicial: “Noto muito que as pessoas continuam felizes, têm a vida delas”. Há um desfasamento permanente entre o tempo de quem volta e o tempo de quem fica, “de repente toda a gente me trata como se eu vivesse lá mas eu não vivo lá, todo o tempo que eu tenho é muito contado”. E depois tem de regressar a Berlim, sente um “pequeno luto” de cada vez que o faz: “Quando fico mais tempo em Portugal habituo-me a ter os meus amigos ali à volta. Por isso, sempre que volto, todo aquele processo… são pequenos lutos que vou fazendo quando apanho o avião para voltar para o sítio onde moro, onde tenho uma vida”.
Esses “lutos” misturam-se com outra pergunta que persegue qualquer emigrante de longo curso: “Quando é que voltas?”. É outra maneira de perguntar “ainda és nosso?” ou “foi realmente necessário?” e porventura “não podias ter ficado?”. Às vezes, Jorge consegue relativizar: quando está “bem-humorado” leva “na brincadeira”, mas há vezes em que a pergunta “magoa”, em que “é massacrante” - não é a pergunta em si, é o que ela implica: “Não é eu ter ido viver para fora, é eu não ter tido a escolha de poder ficar em Portugal dignamente ou com condições favoráveis e com uma carreira possível”. Nesses dias maus responde com outra pergunta: “‘Quando é que sais?’”. Porque são tão heróis os que ficam como os que partem, we can be heroes: just for one day ou pelo tempo que for preciso.