Benjamin Netanyahu já percebeu que irritar Donald Trump é a sua opção menos má

CNN , Andrew Carey
10 ago, 10:00
As sondagens sugerem que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, enfrenta umas eleições gerais difíceis. Ilia Yefimovich/AFP/Getty Images
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ANÁLISE || Primeiro-ministro israelita tomou uma decisão potencialmente arriscada. Agora, poderá provocar a ira de Trump

Em questões delicadas, a preferência do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, é adiar as decisões. Se tiver de tomar uma posição, gosta de incluir uma dose de ambiguidade, alguma margem de manobra, para o caso de as coisas se complicarem mais tarde. Desta vez, porém, não foi assim, relativamente ao plano do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para avançar com o acordo de cessar-fogo em Gaza.

“Quero ser preciso: Israel não aceita o documento de 15 pontos”, referiu Netanyahu durante as declarações iniciais da reunião semanal do Governo israelita, no domingo.

Na verdade, repetiu a afirmação duas vezes.

“Ouvi pessoas dizerem: ‘Não o disse’. Por isso, aqui estou eu a dizê-lo novamente: Israel não aceita o documento de 15 pontos.”

Categórico.

É potencialmente uma decisão arriscada, já que poderá provocar a ira de Trump.

O presidente norte-americano — mais desesperado do que nunca por uma vitória, à medida que o seu fracasso no Irão parece cada vez mais encaminhá-lo para uma derrota — voltou a investir em Gaza há dez dias, declarando que o seu Conselho da Paz tinha alcançado um “acordo histórico” com o Hamas para o seu completo desarmamento. O principal enviado do conselho, Nickolay Mladenov, explicou depois cuidadosamente na rede social X que o desmantelamento das armas teria de ocorrer “em sintonia” com a retirada das tropas israelitas, sugerindo um processo faseado através do qual as Forças de Defesa de Israel (IDF) recuariam gradualmente de posições dentro de Gaza, enquanto o Hamas entregaria as suas armas.

Qualquer esperança que ainda restasse de convencer Netanyahu a participar num processo desse tipo parece agora desaparecer.

“As IDF não vão efetuar qualquer retirada até que o Hamas seja desarmado. E quando digo desarmamento do Hamas, significa armamento pesado, armamento ligeiro, todo o armamento. E estamos a falar de um desarmamento verdadeiro, não de um desarmamento fictício”, afirmou o líder israelita no domingo.

Na tarde de domingo, Trump continuava a manter silêncio sobre o assunto, além de uma publicação na Truth Social que citava a antiga secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton, dizendo que apoiava o seu plano para Gaza. Mladenov, entretanto, foi entrevistado pelo Canal 12 israelita na noite de domingo, parecendo sugerir que algum tipo de processo faseado poderia continuar a estar previsto, mas deixando também a entender que o Hamas teria de dar o primeiro passo.

“Ninguém é obrigado a fazer nada, muito menos Israel, antes de termos efetivamente passos verificados no terreno. Se houver um desmantelamento verificado das armas, se estas forem retiradas às fações, armazenadas e, em última instância, tornadas inutilizáveis, Israel retira-se de Gaza”, sublinhou Mladenov.

A falar para os eleitores

Naturalmente, há céticos em todos os lados deste cenário, sobretudo em relação aos dois principais protagonistas. Tanto Israel como o Hamas têm interesse em garantir que o outro lado seja responsabilizado por qualquer fracasso.

Assim, a resposta do Hamas às declarações de Netanyahu foi bastante sóbria e ponderada. O grupo afirmou que continuava empenhado no plano, acrescentando que esperava que o Conselho da Paz “exercesse pressão” sobre Netanyahu para que este o cumprisse.

Na verdade, muitos duvidam que o Hamas tenha alguma vez intenção de entregar todas as suas armas, que constituem a expressão mais evidente da sua posição de liderança na resistência palestiniana e funcionam como garantia da sua própria sobrevivência perante qualquer instabilidade interna em Gaza. O grupo acumulou muitos inimigos durante os quase 20 anos em que esteve no poder no enclave.

Mas, independentemente da falta de confiança nas verdadeiras intenções do Hamas, da confiança de Mladenov na capacidade de verificar o desmantelamento das armas ou, de facto, da disponibilidade de Netanyahu para ordenar qualquer retirada de tropas, por que razão provocar Trump publicamente? Certamente, Netanyahu, considerado por muitos dos seus apoiantes um mestre da estratégia, poderia tê-lo feito com um pouco mais de subtileza?

A razão — talvez sem surpresa — é a eleição geral em Israel. Faltam menos de 12 semanas para o ato eleitoral e as sondagens sugerem que Netanyahu continua em dificuldades. Chegou o momento — sem ambiguidades — de falar para os eleitores.

Todos os primeiros-ministros israelitas têm de construir uma coligação governamental composta por vários partidos. Netanyahu, como outros já salientaram, gosta de construir a sua próxima coligação antes das eleições, e não depois.

Quando a contagem terminar, precisará dos seus aliados da extrema-direita para se juntarem a si se quiser continuar no poder. Por isso, ficou incomodado com as críticas públicas destes ao plano, bem como com os apelos para reverter uma decisão anterior do Governo israelita que aprovou o destacamento de uma Força Internacional de Estabilização para Gaza, destinada a supervisionar a segurança num pequeno projeto-piloto no território. Netanyahu tinha aprovado discretamente o início dos trabalhos de reconstrução na zona-piloto, informou a rádio do Exército no domingo, o que acabou por parecer mais um sinal de fraqueza.

Ainda assim, seria um erro interpretar isto apenas como uma tentativa de agradar à extrema-direita. A esmagadora maioria dos eleitores israelitas, embora continue favorável a Trump, acredita que o Presidente norte-americano está profundamente errado se pensa que a liberdade de Israel para fazer o que quiser em Gaza deve ser limitada de alguma forma.

Nenhum dos principais adversários de Netanyahu, por exemplo, deverá adotar a tentativa de Mladenov de apelar ao interesse de Israel durante a entrevista televisiva de domingo, quando afirmou que apenas a implementação integral do plano do Conselho da Paz poderia garantir que nunca mais ocorreria um ataque em massa como o de 2023 contra as comunidades israelitas junto a Gaza.

“Se acabarmos com discussões sobre isto e aquilo, e com táticas de adiamento, posso garantir-vos que a única alternativa será então um novo processo de rearmamento do Hamas e o aumento do risco de um novo 7 de outubro”, referiu o alto responsável.

Na verdade, seria surpreendente se Gadi Eisenkott, Naftali Bennett ou muitos outros potenciais primeiros-ministros israelitas acreditassem que haveria muitos votos nessa plataforma.

Entretanto, um responsável do Conselho da Paz dos Estados Unidos procurou destacar a contenção militar de Israel nos últimos dias em Gaza, bem como uma mudança na política de seleção de alvos.

“Estamos a assistir a uma cooperação nos bastidores”, afirmou o responsável.

Um fraco consolo para os dois milhões de habitantes de Gaza, que continuam excluídos da discussão e praticamente sem poder para determinar o seu destino.

Eugenia Yosef e Jennifer Hansler contribuíram para este artigo.

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