ANÁLISE || A ideia é ter um treinador no banco já no sábado. E a ideia também é que esse treinador seja José Mourinho. Um risco para todos que pode correr muito bem, mas também pode correr muito mal. Não há meio termo
O Benfica precisa do melhor José Mourinho como de pão para a boca. Mas José Mourinho não precisa menos do Benfica. Bem pelo contrário.
O casamento que Rui Costa quer consumar ainda antes do jogo na Vila das Aves - o próprio disse que quer ter o próximo treinador no banco já no sábado - pode ser uma brutal história de amor que salva três partes, ou pode ser o enterro final de duas figuras, arrastando o Benfica pelo caminho.
Se ninguém duvida das capacidades que José Mourinho - que já tem um príncipio de acordo com o Benfica - tem ao nível da tática e da liderança de homens, os mais céticos vão levantar todas as dúvidas ao olharem para trás e verem que a última grande conquista remonta há quase 10 anos, à época de 2016/17.
Ganhou a Liga Europa com um Manchester United que já estava bem mais perto de ser o que é hoje do que aquilo que foi com Alex Ferguson, o que é um trabalho meritório e poucas vezes reconhecido.
Deixemos de parte a Liga Conferência ganha ao serviço da Roma em 2021/22. Não só não é um troféu verdadeiramente relevante na alta roda internacional, como a Roma era, de longe, a melhor equipa da competição.
E se até nem quisermos contar com essa Liga Europa, a Premier League conquistada pelo Chelsea em 2014/15 foi mesmo o último grande título, sendo também a última vez que conquistou um campeonato nacional.
Agora, José Mourinho tem neste possível regresso ao Benfica, onde iniciou a carreira de forma discreta, a possibilidade de voltar a um palco verdadeiramente grande e de lutar por objetivos de grande dimensão.
Olhando para trás, fica fácil de perceber que o Benfica é muito maior que o Fenerbahce, que a Roma ou o Tottenham. Pode até nem ter mais dinheiro, pode até talvez ter menos adeptos, mas tem uma história, nomeadamente ao nível europeu, incomparável. Basta ver que tem duas Ligas dos Campeões contra zero daqueles três clubes.
Embora a Liga portuguesa não seja uma Premier League ou uma Serie A, é melhor do que a turca, havendo o bónus de o Benfica estar na fase de grupos da Liga dos Campeões, como tantas vezes tem acontecido, ao contrário daqueles três clubes - o Tottenham está este ano, mas não é garantido que seja sempre assim.
E essa esperança é o que motiva o casamento. Que tudo corra bem e seja quase só paixão. Que se pratique um futebol enleante e, em último caso, que se chegue aos títulos.
É assim para José Mourinho, mas também é assim para Rui Costa, que prende o seu destino ao próximo treinador, seja ele qual for. A pouco mais de um mês das eleições, o que o técnico do Benfica que aí vem é um all in para o presidente dos encarnados, ainda para mais pensando que nesse espaço de tempo há muita Champions por jogar e, talvez acima de tudo isso, uma deslocação ao Dragão que pode ser decisiva.
Vencer em casa do FC Porto dará estado de graça a qualquer treinador. Perder, sobretudo dependendo da forma como perde, traz uma nuvem negra a essa mesma pessoa.
É o lado do divórcio total, que também figura aqui nesta relação de aposta derradeira.
A queda e a ineficácia de José Mourinho representarão, muito provavelmente, a queda de Rui Costa. Em todo o caso, um nome de peso como este dá algo que outros não teriam: tempo. Dentro dos falados e dos possíveis - o nome de Jurgen Klopp foi atirado, mas ninguém acredita que fosse possível -, talvez só Ruben Amorim tivesse a mesma aura de José Mourinho e a mesma capacidade de gerar confiança e paciência nos adeptos.
Mas será mesmo preciso jogar para percebermos para que lado vai a coisa cair. Ou o casamento é perfeito e ganham todos - José Mourinho, Rui Costa e Benfica -, ou o divórcio é total e perdem todos.