«Paulo Bento vai regressar a Portugal para treinar o Benfica ou o Sporting»

Samuel Santos , Coimbra
9 abr 2025, 00:12
Marcelo Cipriano, antigo avançado de Benfica e Tirsense (imagem gentilmente cedida por Marcelo Cipriano)

Antes do reencontro entre Tirsense e Benfica, Marcelo recupera a distinta caderneta de cromos. Ao Maisfutebol, o antigo goleador realça as lições de Artur Jorge, as noites felizes ao lado de João Vieira Pinto e a «explosão» em Inglaterra

De leão ou águia ao peito, Marcelo Cipriano entrelaçou o rumo de Benfica e Tirsense na década de ‘90. Este carioca, de 55 anos – nascido para o futebol em Aveiro, pelo Beira-Mar – completou uma distinta caderneta de cromos entre 1983 e 2004. Da juventude em Coimbra ao sonho na Premier League, partilhou balneário com distintos talentos e treinadores marcantes.

Pelo estrangeiro, o antigo ponta de lança reencontrou a felicidade em Sheffield, onde cravou o nome na história. E serviu de mote para o Birmingham regressar à Premier League.

A morar em Coimbra desde 2002, Marcelo recebeu o Maisfutebol em casa, que serve de museu e epicentro à atividade como agente FIFA. Apto a recordar inúmeras peripécias, aponta ao Tirsense-Benfica desta quarta-feira e revela aventuras por Portugal, Espanha e Inglaterra.

Leia também.

Parte I: O Tirsense-Benfica aos olhos de Marcelo, goleador de águias e jesuítas na década de 90

Parte III: Marcelo, o goleador que edifica sonhos: «Fizemos um trabalho fantástico com o Fábio Vieira»

Maisfutebol: O primeiro golo do Marcelo na Luz foi decisivo, frente ao Belenenses, aos 84 minutos (1-0). Uma noite de setembro especial.

Marcelo: Cruzamento do João Vieira Pinto e remate de primeira. Foi um momento de êxtase, até tirei a camisola. Vivíamos uma fase difícil, havia muita ansiedade. Aquele golo ajudou a sacudir a pressão.

MF: Na época pelo Benfica preencheu uma caderneta de cromos, tantas as figuras com as quais partilhou balneário.

MA: O Valdo foi dos jogadores com maior capacidade técnica que conheci. Os jovens não fazem ideia de quão bom era o Valdo. Queria a bola colada no pé e o jogo com velocidade. Ao transpor para a atualidade, diria que o Valdo tem a capacidade finalizadora do Bruno Fernandes e a intensidade do Vitinha.

MF: (…)

MA: Sobre o João Vieira Pinto, posso-me orgulhar de ter feito dupla na época em que ele conseguiu o máximo de golos na Liga. Sempre foi um craque, mas eu ajudava a desgastar as defesas. Curiosamente, com o Jardel [no Sporting] foi ao contrário, porque era o João a assumir a tarefa de abrir espaços. O João era dotado de um talento enorme, pensava rápido e decidia bem.

MF: E o Paulo Bento?

MA: Era evidente que daria treinador, pelo conhecimento e a intensidade da análise. Ele estava sempre a assistir a jogos. Sempre viveu o futebol com plena paixão, era um treinador dentro do campo. Creio que, em breve, vai regressar a Portugal. Mais cedo ou mais tarde, pode treinar o Benfica ou voltar ao Sporting.

MF: Havia um jovem, o Maniche.

MA: Impôs-se pela postura, não tinha problemas em jogar ao lado de líderes como o Valdo. Na altura era bem mais tímido, ainda assim. E havia respeito pelos «monumentos» do plantel.

MF: O Marcelo saiu do Benfica para o Alavés, mas foi em Inglaterra que voltou a ser feliz.

MA: Senti-me realizado, mesmo na II Liga. Joguei em projetos para subir à Premier League. Na última época, em 2001/02, ajudei à promoção do Birmingham.

MF: Na época de estreia pelo Sheffield United jogou com o lendário Ian Rush.

MA: E joguei com dois avançados que acabaram por reforçar o Benfica: Brian Deane e o Dean Saunders. A concorrência era incrível. Quanto ao Rush, estava habituado a vê-lo na televisão. Tê-lo ao meu lado foi incrível. O «Rushy» dizia que Portugal era o melhor país do Mundo, era apaixonado pelo Algarve. Foi marcante.

MF: Em 1998/99 fez 19 golos em 41 jogos pelo Sheffield United. Ao comando da equipa esteve Steve Bruce, defesa que ainda atuou nessa temporada.

MA: Foi contratado como jogador-treinador. Fez carreira como central pelo Man United e aos 38 anos decidiu reforçar o Sheffield. Nessa época, fui o melhor marcador da década do clube e tive a oportunidade de marcar na antiga casa do Arsenal, na Taça (1-1).

MF: Na época seguinte seguiu para o Birmingham, onde estava o jovem Michael Carrick.

MA: Era um miúdo, de 18 anos, emprestado pelo West Ham. Foi importante para ele, para conseguir uma carreira fantástica e ser líder no Manchester United. Na altura era já dotado de um ótimo porte físico e de uma inteligência técnica única.

MF: Em Inglaterra conseguiu os melhores registos da carreira. Porquê?

MA: Além dos grupos, também se deveu ao trabalho que realizei com uma equipa de preparadores físicos, que colaboravam com a seleção inglesa de râguebi. Fisicamente estava no auge da carreira, aos 28 anos. Esse investimento foi muito importante, porque me ajudou a trabalhar a capacidade de explosão para a baliza. A capacidade de finalização já existia, faltava melhorar o físico.

MF: Portanto, saiu de Portugal e, na II Liga inglesa, encontrou uma realidade mais física e desgastante.

MA: Sem dúvida. Trabalhava muito mais, a exigência física era diferente. E a intensidade nos estádios dava ainda mais força. Acabava os jogos arrasado.

Camisolas de Benfica e Vasco da Gama. Ao centro, a bola de um jogo pelo Birmingham, no qual Marcelo aplicou um hat-trick.

MF: Pelo Birmingham ficou à porta da Premier League por duas épocas. Até que à terceira foi de vez. Contudo, sai em janeiro de 2002 para o Walsall, também na II Liga.

MA: E mesmo assim fui o melhor marcador do Birmingham. Estava em final de contrato e a extensão do contrato não foi acionada, e eu queria jogar. Portanto, optei por reforçar o vizinho do Birmingham, que lutava pela manutenção.

MF: Regressou a Portugal em 2002 pela porta da Académica, então envolvida na manutenção. Foi treinado por João Alves, mais tarde rendido por Artur Jorge.

MA: Houve muitos problemas, o João Alves saiu e tínhamos quatro meses de salários em atraso. O contexto era muito difícil, com trocas de direção. A manutenção foi conseguida na última jornada.

MF: Artur Jorge foi uma figura que o marcou?

MA: Claro. Contratou-me para o Benfica. Devo-lhe esse salto. Na Académica, o Artur Jorge chega como o salvador, foi uma surpresa aceitar o projeto. Ele aceitou o desafio como uma missão. É uma figura incontornável, era extremamente inteligente e culto.

MF: Qual o “onze” de colegas que marcou a sua carreira?

MA: Na baliza colocaria o Michel Preud Homme. Na defesa, Calado, Ricardo Gomes, Steve Bruce e Dimas. No meio, Carrick, Valdo e Gioavanella (ex-Tirsense). No ataque, João Vieira Pinto atrás dos pontas de lança, Ian Rush e Russell Latapy. Este último jogou no FC Porto e na Académica, dotado de uma qualidade tremenda.

[Prossiga para a terceira e última parte desta conversa]

O onze do Benfica em 1995/96, com Marcelo.

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