Benfica-Sporting, 1-1 (crónica)

Sérgio Pereira , no Estádio da Luz, em Lisboa
5 dez 2025, 22:50

Um metro de cada vez

O Benfica foi de norte a sul, de uma ponta à outra, para transformar este num daqueles dérbis que não ficam para sempre na memória, mas têm uma história. Uma boa história, aliás.

Vamos dividi-la em quatro capítulos, como todas as histórias deviam ser divididas.

1. Um poço que parecia não ter fundo

A formação de Mourinho estava lá em baixo, bem lá no fundo, e foi subindo metro a metro até sair do poço. Foi um esforço admirável, a merecer o nosso aplauso de pé.

No entanto, e é bom dizê-lo, não o conseguiu totalmente sozinho. O Sporting também teve qualquer coisa de responsabilidade nisso, ele que se vestiu de São Vicente de Paulo para assumir um daqueles atos de caridade, que permitiu ao Benfica continuar vivo no jogo.

Vale a pena ir já por aí, de resto: o domínio do Sporting nos primeiros minutos foi do mais desequilibrado que já se viu nos últimos largos anos deste dérbi eterno. Foi uma coisa tão desproporcional que fez lembrar, a espaços, aquele dérbi de dezembro de 2012, quando o Benfica de Jorge Jesus foi a Alvalade vencer o Sporting de Vercauteren por 3-1. E no fim os adeptos encarnados saíram do estádio a cantar «E o Godinho é o nosso Pai Natal».

Pode parecer que é exagero, mas não. O Sporting teve um domínio avassalador nos primeiros minutos, perante um Benfica que não conseguia segurar a bola.

Cada saída era um ai Jesus (o original, não o treinador). Parecia que a bola queimava e, erro após o erro, os encarnados afundavam-se no campo, cada vez mais recuados, perante um Sporting que recuperava a posse facilmente e jogava instalado em cima da área de Trubin.

2. Um golo, como se anunciava há 12 minutos

Ora por isso surpreendeu uma média de zero pessoas que o Sporting tenha marcado cedo. Logo aos 12 minutos. Barrenechea comete um pecado capital, perdeu a bola à saída da área, Hjulmand assistiu e Pote marcou (com um bocado de sorte, é certo).

Aquele golo tornou as distâncias ainda maiores e os erros dos encarnados continuaram a acumular-se, aliás. Mourinho enlouquecia no banco e o os adeptos assobiavam a equipa, deixando-a ainda mais nervosa. O vulcão da Luz tem esse efeito: quando corre bem, é terrível para o adversário, quando corre mal é terrível para a própria equipa.

Esta noite, e durante quase meia hora, foi terrível para a própria equipa. Até que Dedic cruzou da direita, o Sporting não afastou a bola, Geny Catamo caiu por influência do vento e Sudakov empurrou para golo. Estavam jogados 27 minutos e o jogo nunca mais foi o mesmo.

3. Um Sporting solidário (ou não fosse quase natal)

Antes disso, porém, é importante dizer que o golo foi muito consentido pelo Sporting, o que não é um acaso: dá ideia que perante as facilidades que encontrou, o campeão se desleixou. Foi facilitando, sendo menos urgente, menos decidido nas disputas de bola.

Foi sendo menos bravo e isso permitiu ao Benfica sair do fundo do poço. Fê-lo de tal forma que na segunda parte, até Prestianni ser expulso, pareceu que só ele podia ganhar.

Nesses longos minutos, aliás, o dérbi virou do avesso e foi o Sporting que deixou de conseguir sair. Até porque a equipa de Mourinho tornou-se... uma equipa de Mourinho. Daquelas que joga de faca nos dentes, a disputar cada bola como se fosse a última da vida. Ríos e Barrenechea dominaram o centro do terreno, Dedic continuou a dar profundidade pela direita e Sudakov... bem, Sudakov foi ele próprio, um talento que os colegas procuravam quando era preciso colocar gelo no futebol. Ou até respirar um pouco para recuperar o fôlego.

4. Aquela sensação de mais Benfica, para fim de conversa

Por isso, no fim do jogo fica a ideia que, feitas todas as contas, pesados todos os argumentos, acabou por ser o Benfica que esteve mais próximo do triunfo.

Teve menos bola e efetuou menos passes, é verdade, mas em compensação fez o dobro dos remates (10 contra 5), obrigou Rui Silva ao triplo das defesas (3 contra 1) e saiu de campo com 1,37 golos esperados, contra 0.50 do Sporting.

Enfim, são apenas números, mas são números que servem para sublinhar o essencial: enorme Benfica, que lutou contra si, contra os seus receios, contra os seus fantasmas, contra os suores frios que o início da noite lhe provocou, para acabar o dérbi como se vê.

Com a sensação que ficou mais perto da vitória.

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