Luís Filipe Vieira: «Não roubei o Benfica»

6 jun, 20:44
Luís Filipe Vieira

Antigo presidente do Benfica fala da detenção, da OPA 'chumbada' e da reunião com John Textor

Luís Filipe Vieira garante que não roubou dinheiro ao Benfica.

Em entrevista à CMTV, praticamente um ano depois da detenção, o antigo presidente do Benfica fala do processo judicial que o afastou da liderança do clube.

«Não roubei o Benfica. Vim de livre vontade para o Benfica, mas o Benfica roubou-me muito da minha vida familiar e empresarial. De certeza absoluta que não roubei o Benfica. Passei 12 anos por burlão com o caso do BPN. Não fui a julgamento nem a lado nenhum. Espero que, neste, seja inocentado em vida. Se não cometi ato algum...», refere.

«Isto mudou a minha vida e a vida da minha família. Ficou afetada, como é lógico. Estava numa reunião de manhã e estava a chamar o Bruno Maruta quando alguém me interrompeu e disse que o Maruta não podia vir. Umas pessoas deram-me coisas para ler e disseram-me que ia ser ouvido. Fizeram buscas no meu gabinete, no meu quarto, até nos tetos falsos mexeram. Não sei do que andavam à procura. As buscas foram em minha casa, na casa do meu filho, em todo o lado. Saí do Seixal e fui para casa. Os inspetores almoçaram em minha casa e só depois vim a saber que ia ficar detido. Detido de quê? Disseram-me que tinha de ser detido. Percebi após o almoço que ia ser detido. Estavam diversas pessoas. A minha mulher ficou tremelica. Parece de propósito, que alguém quer a minha cabeça, que sou um troféu de caça para muita gente. Fui visitado quatro vezes em casa. Parece que sou troféu de caça para alguém», acrescenta.

Luís Filipe Vieira descreve a detenção, e em particular o momento em viu o filho, Tiago, igualmente detido.

«Fui do Seixal para casa. Almocei e a partir do almoço disseram-me que ia ficar detido. Meti a mala dentro da cela, disseram-me que não podia estar com atacadores, nem com a mala na cela. Vesti um fato de treino que tinha lá e no corredor perguntaram-me se não queria ver o meu filho. Longe de mim pensar que o meu filho estava detido. Nem quero contar. A cela tem uma parte em vidro e ele dá-me um sorriso e depois nem vale a pena recordar... É uma imagem que não quero mais lembrar.  Disse-lhe: Tiago, isto não é nada. Tem calma’. Não consegui dormir.», recorda.

O antigo dirigente do Benfica negou ainda que tenha manipulado o Novo Banco, acrescentando que houve «gestão danosa» por parte da entidade bancária. 

«É preciso ser-se muito ingénuo para uma acusação dessas. Alguma vez ia manipular um banco? Nunca mostrou interesse na Imostep. Até hoje nunca tive noção exata do que valia. Não quis ficar com o ativo nem desenvolver, não quis nada. O Novo Banco, no mínimo, podia dizer que tinha o dinheiro salvaguardado porque o 'dinheiro está aqui'. Mas nunca se interessou. O banco parou. Parou o quê? Não houve interlocutor. Não ligou mais. Não manipulei ninguém. Só quando soubemos que o banco ia colocar NATA2... [NATA 2 crédito mal parado] o sr. António fez a proposta para comprar e o fundo de resolução aceitou. Não manipulámos ninguém. Foi feito às claras. São os dois fundos que vêm falar connosco. O senhor José Antonio fez uma proposta aos dois. Contei ao José António e disse: 'é grande negócio para ti'», defendeu. 

«Isto é que me choca, parece que eu é que tinha problemas com a banca. Nao tive problema nenhum. Não ia ter incumprimento. Sabia o que ia desenvolver. Fala-se de Luís Filipe Vieira porque é o presidente do Benfica. Fui o único... Dei sempre a minha cara, apareci sempre no banco e disponível para colaborar. E não tive um perdão. Fui de certeza o único que não tive perdão, porque era uma figura pública. Na minha ótica há uma gestão danosa do Novo Banco. Nao sei as motivações das pessoas. Nem sei quem foi. Que há ativo que vale mais do que aquele dinheiro e vai para o NATA2, alguém deve explicações», acrescentou. 

Nos últimos meses da presidiência de Luís Filipe Vieira no Benfica, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) indeferiu o pedido de registo de oferta pública de aquisição (OPA) de ações da SAD encarnada por ilegalidade.

Em entrevista à CMTV, o antigo presidente das águias explicou o negócio e frisou que nunca avisou antecipadamente José António dos Santos da OPA.

«A OPA era algo bastante importante para o Benfica. O José António dos Santos nunca foi avisado por mim. Só três pessoas sabiam da OPA além dos advogados: eu, o Domingos Soares de Oliveira e o Miguel Moreira [ndr: diretor financeiro]. O Ministério Público não pode ter nada nem em escutas nem nada. É impossível ter avisado. Quando disse ao José António dos Santos da OPA, ele disse-me: 'Não vendo das minhas ações'. De certeza que não dei nenhuma informação ao José António dos Santos. Nem o Domingos Soares de Oliveira nem o Miguel Oliveira. Garanto que ele não sabia de nada», começou por dizer.

«O José António dos Santos fez um grande negócio com o BES. Ele é um grande empresário porque sabe antecipar-se e ver coisas. Ele sabia como o Benfica estava a ser gerido. As ações do Benfica estavam muito baratas. Quando pensávamos na OPA, a primeira proposta que fizemos foi de dois preços: a 3 e 5 euros. Passados uns meses, a CMVM disse que era possível e depois que só podia ser um preço. Chumbou um preço, tínhamos de fazer a cinco. Não estava nada preocupado com quanto o José António ia ganhar. Estava preocupado com o Benfica. Na operação desenhada deixaríamos 5 por cento em bolsa por causa do empréstimo obrigacionista, o Benfica ficaria com 45 por cento e o resto para parceiros como o modelo do Bayern Munique. Éramos e somos bem geridos. Tínhamos de consolidar o nosso trabalho para não voltar atrás. Pensávamos que o Benfica ganharia entre 600 a mil milhões de euros. A OPA foi isto. Foi interpretada por gente malformada. Talvez o grande culpado tenha sido eu porque trouxe o Benfica para um patamar que nunca ninguém imaginou.»

Luís Filipe Vieira confirmou que esteve reunido com o empresário norte-americano, John Textor, e que lhe explicou o que era o Benfica.

«O José António disse para me reunir com ele num hotel, mas disse que não. Estivemos no escritório dele. Expliquei ao Textor o que era o Benfica para que este não tivesse receio de investir. Quando fizesse o acordo, apresentaria-o a toda a direção do Benfica e aos quadros profissionais. Foi o que lhe disse e vim-me embora depois», limitou-se a dizer.

Vieira aproveitou ainda para esclarecer os negócios feitos pelo seu filho, Tiago Vieira, com o empresário Bruno Macedo, refutando a acusação de que terá desviado dinheiro do clube da Luz.

«O Ministério Público tem de provar tudo o que diz, por amor de Deus. Não temos nada a ver com isso, nem eu nem o meu filho. Bruno Macedo é um empresário como outro qualquer. Como vou inflacionar a compra de um jogador? É impensável. Algum dia iria pagar dois milhões de euros por um jogador quando este custa um milhão? É impensável. Não tenho culpa que Bruno Macedo tivesse feito um negócio com o meu filho. O meu filho disse que só tinha disponibilidade para vender por um determinado número. Estamos a falar de casas. O meu filho ou eu somos os gajos mais estúpidos da terra, assim. Se me dissesse que tínhamos vendido um património de dois milhões de euros por quatro entendia que o Ministério Público tivesse dúvidas. Vendeu-se ao preço do mercado. Tenho alguma culpa da forma como Bruno Macedo podia pagar? A minha preocupação é vender. Vendi pelo preço de mercado. Tive uma grande discussão com o Bruno Macedo por causa do Darwin. Disse que dava 500 mil euros de comissão, o Bruno queria mais. Se calhar ele até merecia pelo trabalho que fez. Mas como o jogador já tinha sido tão caro, só queria dar 500 mil euros. Ele é amigo íntimo do meu filho. Só na cabeça das pessoas, que querem fazer narrativas, é que inventam isto tudo. Como é possível o meu filho vender a preço de mercado? Podia vender a outro qualquer. Apareceu o Bruno e ele disse’ ‘tudo bem’, mas avisou que não ia ter produto para o que ele queria», elucidonou.

Por último, o ex-presidente do Benfica rejeitou a ideia de que pagava comissões elevadas nos negócios feitos enquanto esteve no cargo.

«Todos sabem a fama que tinha: regateava tudo. Estou de consciência tranquila com todos os negócios. Pava sempre oito por cento de comissão em média. A única comissão que paguei de 15 por cento foi por causa do Jiménez. Ele estava a acabar contrato, não queria renovar e acordei com Jorge Mendes 3,5 M€ de empréstimo e 38 M€ de venda para o Wolverhampton. Nunca inflacionei nenhuma comissão. Podem chamar os empresários todos. Era raro pagar dez por cento, só em venda de jogadores. Sei o que fiz no Benfica e os sócios devem estar muito felizes porque tivemos sempre resultados positivos. Nunca hostilizei ninguém no Benfica, recebi sempre toda a gente. Era raro não colocar o empresário à frente quando queria comprar um jogador.  Acusaram-me de pagar a mesma comissão a dois empresários. É normal. O Benfica fez isso e já não estou lá. Pagou a comissão do Meité a dois empresários. É normal suceder», concluiu. 

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