Sidny Cabral revisitou a carreira e a vida numa entrevista a um jornal neerlandês, recordando as dificuldades que viveu em Roterdão, o quartinho minúsculo num clube da quinta divisão, o dia em que partilhou o currículo no Linkedin e a chegada à Amadora, onde disse ao senhorio que só queria contrato de seis meses porque ia dar o salto rapidamente. Viu Mourinho aos saltos como um louco e recorda a primeira pergunta que ele lhe fez: «Estás pronto para jogar com os teus amigos ou para matar?»
«Uma história louca». É assim que Sidny Cabral descreve a carreira a despontar no Benfica.
Aos 23 anos, o lateral nascido nos Países Baixos, e internacional por Cabo Verde, abriu o livro para contar como tem sido a vida dele, de um quarto minúsculo na parte oriental da Alemanha, até ao luxo do Seixal, onde tudo é diferente do que tinha conhecido até então.
«Tinha dito ao meu empresário que só me falasse de transferências quando houvesse alguma coisa concreta. Um dia, estávamos a jantar e ele diz-me estava em negociações com Sporting, Benfica e Sp. Braga. ‘O quê?! Benfica?’ Quando ouvi isto, tudo o que eu queria era ir para o Benfica», começou por referir em entrevista à Voetbal International.
«Ao assinar com o Benfica, os meus olhos encheram-se de lágrimas»
Pouco habituado aos holofotes e à pressão mediática, Sidny Cabral admite que quando se deslocou pela primeira ao Estádio da Luz, para assinar contrato, estava nervoso.
«Normalmente sou bastante tranquilo, mas quando me vi ao lado de Rui Costa fiquei nervoso. Só o conhecia do FIFA. Também nunca tinha visto tantas câmaras numa assinatura de contrato. Foi realmente incrível.»
Também foi aí que chorou. O que admite sem problemas.
«Pouco antes de assinar contrato, liguei à minha mãe. Ela estava muito orgulhosa de mim e disse-me: 'Tu conseguiste!' Foi aí que a ficha me caiu de verdade. Normalmente não sou de chorar assim, mas naquele momento os meus olhos encheram-se de lágrimas.»
«'Estás pronto para jogar com os teus amigos ou para matar?'»
No dia seguinte apresentou-se no Seixal para o primeiro treino.
«Estava novamente um pouco nervoso. Saí do carro e apareceu-me logo uma câmara à frente, que me seguiu durante todo o primeiro dia. Tudo ali é de outro nível . A piscina, a sauna, até o meu próprio quarto de hotel no andar de cima. Ufa, aconteceu tudo tão depressa...», referiu.
«Quem mais me surpreendeu? É difícil destacar uma pessoa só, mas estou muito impressionado com Fredrik Aursnes. Está sempre calmo e é quase impossível tirar-lhe a bola.»
Poucos dias depois, Sidny Cabral estava a estrear-se no Estádio da Luz. Mas antes disso há um episódio que é preciso recordar. No primeiro treino, no Seixal, Mourinho aproximou-se dele e perguntou-lhe: ‘Estás pronto para jogar com os teus amigos ou estás pronto para matar?’ O cabo-verdiano respondeu, claro, que estava pronto para matar. Era o que o treinador queria ouvir.
«Quando entrámos no relvado do Estádio da Luz para o aquecimento, fiquei arrepiado. Já havia tanta gente nas bancadas! Depois vi os jogadores entrarem em campo, as luzes apagaram-se e a águia apareceu a voar por ali.»
Para o jovem era tudo mágico, mas não tão mágico quanto foi entrar em campo a quinze minutos do fim. Diz que fez uma oração, entrou e serviu Pavlidis para o hat-trick do grego. Dificilmente podia querer mais.
«A minha carreira é uma história muito louca. Tenho muito orgulho de como me consegui manter motivado todos os dias e como acreditei sempre em mim. Porque, para ser sincero, quando eu estava no banco de suplentes na quinta divisão alemã, certamente não pensava que um dia ainda estaria a jogar no Benfica.»
«Mourinho estava aos pulos, a comemorar como um louco»
Mas há mais, claro. Há por exemplo aquele jogo mágico frente ao Real Madrid em casa, que apurou a equipa para o play-off de acesso aos oitavos de final da Champions.
«É uma pena que eu não tenha podido entrar em campo, mas também foi realmente incrível de se ver. De todas os jogadores, foi o guarda-redes quem marcou o golo. Incrível!»
O jovem diz que nessa altura todos os jogadores correram para o balneário e festejaram como loucos. Uma coisa que ele nunca tinha visto. Mas acima de tudo, nunca imaginou ver Mourinho no meio dos atletas, mais efusivo do que todos os outros.
«Mourinho é sempre foi muito calmo, mas de repente ele estava aos pulos, a comemorar como um louco.»
«Provavelmente vou marcar o Lamine Yamal... vai ser um bom jogo»
Mas ainda vai haver mais dias grandes nesta época. Vai haver, seguramente, o Mundial 2026, que será mais uma experiência inimaginável para Sidny Cabral.
«Estou muito ansioso por isso», atira.
«Esta não é exatamente uma temporada normal para mim. Até agora, tenho jogado sobretudo a lateral esquerdo na seleção, o significa que, quando defrontarmos a Espanha, provavelmente jogarei dao lado de Lamine Yamal. Vai ser um bom jogo», sorri.
«Estive seis meses sem clube, até partilhei o currículo no Linkedin»
Nesta longa entrevista, o jovem cabo-verdiano falou de tudo, desde o início. Falou de como nasceu em Roterdão, de como jogou em clubes pequenos da cidade, de como foi observado pelo Feyenoord e pelo Sparta Roterdão, mas nunca deu o salto.
Conseguiu, ainda assim, chegar às camadas jovens do Twente, nas quais acabou por não ter muita sorte.
«Eu tinha um grande rival à minha frente. Jayden Oosterwolde jogava na mesma posição e foi então que eu e a minha família decidimos que o melhor era sair. Depois veio a pandemia e, de repente, fiquei seis meses sem clube.»
Sidny Cabral treinou então na academia do ex-jogador Toni Varela, foi recusado após um período de treinos no De Graafschap e chegou a partilhar o currículo no LinkedIn. Até que surgiram os juniores do Helsingborgs, da Suécia, para onde viajou sozinho.
«Eu chateava todos os dias a minha mãe, a minha irmã e os irmãos com perguntas pelo FaceTime: ‘Como lavo roupa? Como limpo a casa? O que é que eu cozinho?’»
«Morava num quarto minúsculo, sem nada, e liguei ao meu irmão para sair dali»
Um ano depois, mudou-se para a equipa principal do Rot-Weiss Erfurt, um clube da quinta divisão alemã, no estado da Turíngia, ex-Alemanha de Leste. Apesar dos bons resultados, Sidny Cabral confessa que foi ali que passou os piores tempos.
«Não havia nada no clube. Era calções, uma camisola térmica e uma capa para a chuva. Mais nada. Treinávamos num pequeno campo de relva artificial, muito dura. Era uma verdadeira batalha. Não fui convocado para o primeiro jogo e fiquei no banco no segundo. Estava com muitas saudades de casa, a morar num quartinho minúsculo. Então liguei ao meu irmão mais velho. 'Rodny, quero sair daqui. Isto não é para mim’. Quando o meu irmão fala, eu escuto-o sempre. Ele tem um grande impacto na minha vida, é muito crítico comigo e às vezes preferiria não o ouvir, mas sei que é o que preciso naquele momento. Ele disse-me que aquela experiência ia tornar-me mais forte e eu respondi que os meus companheiros não gostavam de mim e que não falavam comigo. Gritei: 'Olha só o quarto minúsculo em que estou!'»
O irmão disse-lhe que precisava de insistir e de continuar a trabalhar. Foi o que Sidny Cabral fez. Acabou por ganhar um lugar no onze e tornar-se um jogador importante na subida de divisão. No ano seguinte, na quarta divisão, voltou a ficar no banco durante uma fase, mas respondeu com mais trabalho. No final dos treinos ficava sempre a treinar livres, bolas paradas, finalização ou cruzamentos.
Ganhou a titularidade, fez golos e assistências, até que deu o salto para o Viktoria Colónia, da terceira divisão. Onde tudo já era diferente: melhores condições, uma equipa técnica mais bem preparada e estádios lotados em jogos contra o Arminia Bielfeld, o 1860 Munique ou o Dínamo Dresden.
«Joguei contra gigantes, verdadeiros ursos», recorda o jovem.
«Amadora é praticamente uma cidade cabo-verdiana»
Depois disso surge a seleção de Cabo Verde. Sidny Cabral foi chamado para os particulares contra a Malásia e Geórgia e fez o meu primeiro golo com a camisola dos Tubarões Azuis.
«Foi aí que começou a surgir o interesse de Portugal e as coisas ficaram realmente sérias.»
Entre vários clubes, Sidny Cabral escolheu o Estrela da Amadora e diz que há uma razão bem simples para isso.
«Amadora é praticamente uma cidade cabo-verdiana», atirou.
«Eu sabia que ali, estando feliz e a jogar bem, rapidamente daria um salto na carreira.»
Foi por isso que, quando foi arrendar uma casa, pediu ao senhorio para fazer só contrato de seis meses, porque não ia ficar ali mais tempo do que isso. «O presidente do Estrela riu-se, mas a verdade é que me saí muito bem.»
Tão bem que seis meses depois surgiu o Benfica. Para tornar esta história num conto de fadas.