Os clubes de corrida estão a transformar-se em espaços de conexão social, oferecendo saúde mental, segurança e até oportunidades de romance
A viagem até à sede do clube London City Runners é um teste à força de vontade em muitos aspetos.
Se a ideia de fazer uma corrida de 10 quilómetros não for suficiente para o desencorajar, a sua localização na famosa Bermondsey Beer Mile, com os aromas das padarias e microcervejarias a espalharem-se pela rua, pode seduzi-lo.
Mas para aqueles que têm a coragem de continuar, existe algo mais no local. Apesar do foco principal do clube ser a corrida, com as suas paredes decoradas com fotografias e medalhas de corridas já realizadas, o clube é um verdadeiro centro de romance.
Houve pelo menos 20 casamentos entre casais que se conheceram no clube, de acordo com o fundador Tim Navin-Jones.
A possibilidade de romance não passou despercebida aos novos membros que faziam tentativas incipientes de namoriscar à porta do clube na noite cinzenta e chuvosa de Londres.
À medida que a interminável procura nas aplicações de encontros se tornou uma prova de resistência, os clubes de corrida, como este, ganharam fama de serem lugares propícios ao romance. Os corredores que passam algum tempo nas redes sociais provavelmente já conhecem a tendência "os clubes de corrida são as novas aplicações de encontros".
E quando a corrida noturna começou, levando o grupo a passar pela Torre de Londres, um corredor da Guatemala revelou que esta tendência foi exatamente a razão pela qual se juntou ao clube.
Três amigos que recuperavam o fôlego à sombra da Catedral de S. Paulo disseram que estavam à procura de uma forma de socializar e conhecer pessoas que não envolvesse grandes quantidades de álcool.
Quando a corrida chegou ao fim, surgiu um mar de telemóveis para trocar números.
O que é que a corrida tem de bom?
Quando se pensa em correr, a ideia de romance pode ser a coisa mais distante da nossa mente. A corrida, quilómetro após quilómetro, há muito que provoca em muitos uma sensação de terror.
“Quando comecei em 2003, não havia nada de giro na corrida”, diz Mike Saes, fundador da NYC Bridge Runners, uma popular equipa de corrida em Nova Iorque com cerca de 27.000 seguidores no Instagram. A cultura de uma equipa baseia-se na construção de uma comunidade, de acordo com Saes. "Tornou-se um estilo de vida. Correr sempre foi um castigo - agora chamo-lhe 'divertimento'."
Recentemente, porém, a popularidade da corrida explodiu.
A aplicação de acompanhamento de treino Strava tornou-se uma das mais populares entre os corredores. De acordo com uma porta-voz, a sua base de utilizadores aumentou em 80 milhões desde 2019. Os dados da aplicação mostram que correr em grupos, ou clubes, também disparou.
“Mais de 20% das corridas ao fim de semana são feitas com pelo menos mais uma pessoa”, diz a porta-voz da Strava, Chloe Thompson à CNN, apontando que houve um aumento anual de 12% no número de corridas ao fim de semana feitas em grupos de pelo menos seis pessoas.
"As pessoas são seres sociais e gostam de fazer coisas em conjunto”, afirma Hidde Bekhuis, professor assistente no Instituto de Ciências Comportamentais da Universidade de Radboud, nos Países Baixos. Enquanto os clubes desportivos tradicionais estão a ver os seus números diminuir, os “grupos informais”, como os clubes de corrida, estão a ver os seus números crescer, refere Bekhuis.
Para as mulheres, a segurança está nos números
Os homens e as mulheres podem ter uma experiência muito diferente quando correm sozinhos.
Quase 70% das mulheres já "sofreram alguma forma de abuso (comportamento abusivo)" enquanto corriam, de acordo com um estudo realizado pela Universidade de Manchester, no Reino Unido. O estudo inquiriu 498 mulheres que corriam nas zonas da Grande Manchester e Merseyside, no Noroeste de Inglaterra.
No entanto, a corrida está a disparar entre as mulheres jovens. O crescimento do Strava entre as mulheres da Geração Z é o dobro do registado no ano passado, de acordo com Thompson. A porta-voz do Strava afirma que "as mulheres têm 16% mais probabilidades de participar em corridas de grupo ao fim de semana do que os homens, com mais de metade das mulheres a terem participado numa corrida com pelo menos mais uma pessoa em 2024".
A criação de um “espaço seguro” para as corredoras foi uma das principais preocupações de Molly Slater-Davison quando fundou o clube de corrida exclusivamente feminino These Girls Run em York, Inglaterra.
O clube triplicou o número de eventos que organiza no último ano, e Slater-Davison aponta que a segurança tem sido um fator determinante para a adesão das mulheres.
Sentir-se insegura ao correr sozinha é "uma conversa que temos frequentemente", diz à CNN.
Uma comunidade de atletas e de apoio
Stephen, membro do clube LGBT+ London Frontrunners, afirma que, embora "provavelmente haja muitos engates," muitas pessoas que aderem são novas na cidade e procuram formar uma comunidade.
"Conheci os meus melhores amigos aqui", diz Wojciech Pankow, copresidente do clube, à CNN. "Nunca tinha criado este tipo de relações na comunidade gay."
Joe, um dos membros mais recentes do clube, explica que namorar não foi uma motivação para ele e que foi a mãe quem o incentivou a aderir.
"Queria ter mais amigos gays", conta. "Toda a minha ligação à cultura gay era de uma forma muito sexualizada. Uma das vezes que vim aqui, senti-me um pouco eufórico. O clube quebra muitos estereótipos em relação ao que é ser gay."
Benefícios da comunidade para a saúde mental
Os corredores destacam os benefícios para a saúde mental de encontrar uma rede de apoio através dos seus grupos.
Phil, um dos membros do London City Runners, diz que o clube se tornou a sua família e que estava "pronto para desistir da vida" antes de aderir.
"Estava numa fase muito má do ponto de vista mental. Um amigo disse-me para vir aqui e desde então tem sido ótimo. Trouxe-me novos amigos e um novo fôlego para a vida."
"É tudo uma questão de camaradagem"
Embora o elemento namoro tenha sido o que atraiu algumas pessoas para a corrida no início, não foi o que as manteve no desporto.
"Temos casamentos, temos filhos, mas o romance é um efeito secundário", afirma Saes, fundador dos NYC Bridge Runners. "O que está realmente em causa é a camaradagem e a união das pessoas, e não a ideia de ‘vou correr esta noite para conhecer a minha próxima mulher’."
