Há felicidade — e depois há o verdadeiro bem-estar. E, como revelam estudos recentes, ter uma não significa necessariamente ter o outro.
Estar verdadeiramente bem significa que estás a viver uma vida plena — e isso vai além da felicidade individual. Segundo um novo estudo, esse bem-estar é avaliado em várias dimensões, incluindo a saúde, a segurança financeira, o sentido de propósito e as relações pessoais.
A Indonésia liderou a classificação dos países onde as pessoas mais prosperam, seguida do México e das Filipinas, de acordo com o Global Flourishing Study, publicado no final do mês de abril.
Muitos dos lugares que obtiveram as pontuações mais elevadas em termos de bem-estar pleno não surgiram entre os países mais felizes do mundo, segundo o novo relatório desenvolvido pelo Instituto para os Estudos da Religião da Universidade de Baylor e pelo Programa de Bem-Estar Humano da Universidade de Harvard, em parceria com a Gallup e o Centro para a Ciência Aberta. O estudo abrange 22 países e Hong Kong, uma região administrativa especial da China.
A investigação foi concebida para captar um olhar sobre grande parte do mundo, diz o coordenador do estudo e colaborador do relatório, Byron Johnson, distinto professor de ciências sociais da Baylor, em Waco, Texas.
“A singularidade do Global Flourishing Study é a sua dimensão: Estamos a acompanhar 207 000 participantes em todo o mundo, em mais de 40 línguas diferentes, nos seis continentes habitados”, afirma Johnson. “Isto dá voz a cerca de 64% da população mundial”.
Embora tenha algumas limitações, o estudo é um recurso ambicioso e bem-vindo quando se analisa o bem-estar global, diz Felix Cheung, Felix Cheung, professor assistente de psicologia na Universidade de Toronto e titular da Cátedra de Investigação em Bem-Estar da População do Canadá. Felix Cheung é coautor de um capítulo do recente Relatório sobre a Felicidade Mundial, que não faz parte do Global Flourishing Study.
O relatório de finais de abril é apenas o início, afirmam os investigadores, que irão acompanhar as pessoas inquiridas todos os anos durante cinco anos, para ver como se alteram os níveis de bem-estar e para investigar mais aprofundadamente os fatores que contribuem para uma vida boa.
Os mais jovens enfrentam desafios
Um resultado que se destaca nesta nova investigação e noutros relatórios sobre o bem-estar é que os jovens tendem a não estar bem em comparação com outros grupos etários.
“Talvez uma das caraterísticas mais preocupantes destes dados seja o facto de, quando agregamos os dados dos 22 países, constatarmos que o bem-estar pleno tende a aumentar com a idade, de modo que os indivíduos mais jovens registam os níveis mais baixos de crescimento”, afirma Tyler VanderWeele, líder do estudo e colaborador do relatório.
Este não é o caso em todo o lado: na Polónia e na Tanzânia, por exemplo, o bem-estar pleno tende a ser mais elevado para os mais jovens. Mas em grande parte do mundo, os padrões de prosperidade ao longo da vida parecem estar a mudar, afirma VanderWeele, professor do instituto John L. Loeb e Frances Lehman Loeb de Epidemiologia, na Escola de Saúde Pública T.H. Chan de Harvard, em Boston, nos Estados Unidos.
“Os jovens estão a dizer-nos que algo está errado”, afirma Felix Cheung.
Existem algumas teorias sobre as razões pelas quais os jovens estão a ter dificuldades. Um estudo especula que os países desenvolvidos tendem a ter ambientes mais competitivos nos sistemas de ensino para conseguir melhores empregos, o que pode levar a mais stress para os jovens, considera o especialista.
Um dos estudos anteriores de Felix Cheung revelou que os americanos não veem muitas oportunidades de mobilidade social, o que significa que as pessoas sentem que o seu trabalho árduo não é necessariamente compensador.
“É possível que esta perceção de falta de mobilidade social prejudique sobretudo os jovens, porque estão a tentar fazer a transição da universidade ou da escola para a sua carreira”, afirma Felix Cheung.
Surpresas nos dados
O bem-estar foi avaliado através de duas perguntas para cada um dos seis domínios: felicidade, saúde, propósito de vida, carácter, relações e segurança financeira.
Embora as pessoas dos países mais ricos e desenvolvidos tenham declarado sentir-se mais seguras financeiramente e mais satisfeitas com a sua vida, esses países desenvolvidos não tendem a obter uma classificação tão elevada noutras categorias, como propósito de vida, relações ou carácter pró-social, que é o comportamento que promove a bondade e a coesão social.
“Isto levanta questões importantes no que diz respeito à forma como podemos levar a cabo o desenvolvimento económico sem comprometer o propósito de vida, os objetivos, as relações e o carácter”, considera Tyler VanderWeele.
Alguns países que registaram os níveis mais elevados de prosperidade foram inesperados, confessou.
A Indonésia teve o nível mais alto de prosperidade, com as Filipinas em terceiro lugar e a Nigéria em quinto - todos países que não estavam entre os 20 primeiros do Relatório sobre a Felicidade Mundial.
Por outro lado, a Suécia ficou em quarto lugar na lista dos países mais felizes, mas ficou a meio no relatório sobre prosperidade. Os Estados Unidos também ficaram a meio da lista de países no relatório sobre prosperidade.
“Porque é que isto acontece? Bem, isto é um pouco do que temos de fazer nos próximos anos para tentar compreender e desvendar estes resultados”, adianta Tyler VanderWeele.
Partes da prosperidade estão sob o seu controlo
Embora outros estudos continuem a investigar os fatores que mais afetam o florescimento, há formas de as pessoas começarem a avaliar as suas vidas a partir desta investigação.
“Uma abordagem para refletir sobre a própria prosperidade é simplesmente passar pelas nossas 12 perguntas fundamentais sobre prosperidade”, indica VanderWeele. “Uma inquirida disse que estava a pensar em dedicar-se a uma atividade de voluntariado há alguns meses e, depois de ter analisado e percebido que lhe faltava um sentido mais profundo de objetivo de vida, decidiu dedicar-se a essa atividade de voluntariado.”
Pode encontrar as 12 perguntas fundamentais sobre a prosperidade aqui.
Os dados também mostram que há formas de encontrar o bem-estar em várias circunstâncias e não apenas nos países desenvolvidos com um produto interno bruto elevado, sublinha Felix Cheung.
Uma conclusão consistente do estudo e de outras investigações sobre o bem-estar é que a ligação humana é crucial para uma vida boa, acrescenta.
As pessoas que participam na vida religiosa ou cívica tendem a apresentar um maior bem-estar, bem como as que vivem com outras pessoas ou partilham regularmente refeições, exemplifica Feliz Cheung.
Há aspetos da prosperidade que estão sob o controlo de uma pessoa, mas outros não, acrescentou. Os conflitos, as catástrofes naturais e as dificuldades económicas podem afetar o bem-estar das pessoas, o que é natural, diz Felix Cheung.
“Quando uma pessoa é infeliz, isso é uma questão individual”, afirma. “Mas quando a população não está feliz, isso é um problema estrutural, e um problema estrutural requer soluções estruturais”.
Se quiser refletir sobre as perguntas para avaliar o florescimento, estas incluem o seguinte (consulte a ligação para avaliar as medidas de prosperidade numa escala de 0 a 10):
1. De um modo geral, até que ponto está satisfeito com a vida como um todo atualmente?
2. Em geral, até que ponto se sente feliz ou infeliz?
3. De um modo geral, como classificaria a sua saúde física?
4. Como classificaria a sua saúde mental em geral?
5. Em geral, até que ponto acha que as coisas que faz na sua vida valem a pena?
6. Compreendo o meu propósito de vida.
7. Ajo sempre para promover o bem em todas as circunstâncias, mesmo em situações difíceis e desafiantes.
8. Sou sempre capaz de abdicar de alguma felicidade agora para uma felicidade maior mais tarde.
9. Estou satisfeito com as minhas amizades e relacionamentos.
10. As minhas relações são tão satisfatórias como eu gostaria que fossem.
11. Com que frequência se preocupa com a possibilidade de fazer face às despesas mensais normais?
12. Com que frequência se preocupa com a segurança, a alimentação ou a habitação?
