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Como os hotéis britânicos se tornaram um ponto de conflito num furioso debate sobre imigração

CNN , Christian Edwards
6 set 2025, 11:00
Hotel Reino Unido
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O Bell Hotel, em Epping, nos arredores de Londres, não recebe novas reservas, mas está cheio todas as noites. Desde 2020, tem sido utilizado pelo governo britânico para alojar os milhares de requerentes de asilo que chegam todos os anos à costa sul de Inglaterra e ficam presos num limbo administrativo.

Com exceção dos hoteleiros, ninguém está satisfeito com o sistema atual: nem o governo e os municípios, que têm de desembolsar somas avultadas para pagar contratos lucrativos; nem os requerentes de asilo, que podem passar anos a viver num pequeno quarto à espera de saber se podem permanecer no Reino Unido; e, mais recentemente, no caso do hotel de Epping, nem os residentes locais, alguns dos quais dizem sentir-se inseguros com grupos de jovens a viver na cidade.

De tempos a tempos, estas queixas explodem. Em Epping, o ponto de rutura surgiu no mês passado, depois de um requerente de asilo da Etiópia ter sido acusado de agredir sexualmente uma estudante na principal rua da cidade. Foi ainda acusado de outros crimes e aguarda julgamento. Nega todas as acusações.

Muitos residentes ficaram indignados. Alguns realizaram protestos em frente ao hotel - alimentados pela extrema-direita - que se tornaram violentos.

Mas os manifestantes tiveram motivos para festejar na terça-feira, quando o município venceu uma ação judicial histórica que vai impedir os proprietários do Bell Hotel de alojar requerentes de asilo, depois de a câmara ter alegado que o hotel não estava a ser utilizado para o seu propósito original. As 138 pessoas que lá vivem terão de sair no próximo mês.

A decisão do tribunal colocou este hotel de três estrelas no centro de uma tempestade política que poderá causar uma enorme dor de cabeça ao governo trabalhista. O destino destes requerentes de asilo é agora um dos problemas mais espinhosos para o primeiro-ministro Keir Starmer.

Mas para Nigel Farage, o incendiário líder do partido de extrema-direita Reform UK, a decisão foi motivo de celebração.

Farage, outrora a força motriz do movimento do Brexit e agora deputado, aplaudiu o que chamou de “grande vitória”. Pediu protestos semelhantes em frente a hotéis de migrantes por todo o país, para “pressionar os municípios a recorrer aos tribunais” de modo a tentar impedir que outros hotéis sejam utilizados para alojar requerentes de asilo, estando previstas manifestações em várias localidades britânicas.

Se os municípios de todo o Reino Unido decidirem adotar a mesma via judicial, isso poderá criar um grande problema para o governo, que tem a obrigação legal de providenciar alojamento para os requerentes de asilo enquanto os seus pedidos são processados. Atualmente, cerca de 210 hotéis estão a ser utilizados para alojar cerca de 32.000 pessoas. Se outros municípios vencerem casos semelhantes ao de Epping, o governo poderá, em poucos meses, ter de encontrar outras soluções para alojar estas pessoas enquanto os processos continuam a arrastar-se.

Manifestantes reuniram-se em frente ao Bell Hotel em julho. Isabel Infantes/Reuters
Alguns exibiam cartazes com a frase “Salvem as nossas crianças”. Henry Nichols/AFP/Getty Images

Um ponto de viragem

Mohamed Khador demorou três anos a chegar da Somália ao Reino Unido. O período mais longo que passou em algum sítio foi na Áustria, onde trabalhou brevemente como ajudante de cozinha, mas na maior parte do tempo esteve em movimento. Quando chegou a Dunquerque, no norte de França, tinha poupado cerca de mil dólares. Foi o suficiente para comprar um lugar num bote degradado, com cerca de 70 pessoas, na esperança de ver em breve as falésias brancas de Inglaterra. A travessia do Canal foi “assustadora, dolorosa, fria”, conta à CNN.

Quando chegou há quatro meses, foi levado para um centro de processamento. Desde então, tem vivido no Bell Hotel, sem poder trabalhar legalmente - os requerentes de asilo foram privados do direito ao trabalho em 2002, como parte das tentativas do governo britânico de dissuadir a imigração ilegal.

No início, as coisas eram “normais”, afirma. Enquanto os locais jogavam críquete, ele jogava futebol com outros residentes do hotel. “Íamos para a rua. Ninguém ligava”.

Depois veio o que ele chama de “o incidente”, que parece ter-se tornado um ponto de referência na memória coletiva da cidade.

Em julho, Hadush Kebatu, de 38 anos, oriundo da Etiópia, foi acusado de agressão sexual, assédio e de incitar uma rapariga a envolver-se em atividade sexual. Ela tinha 14 anos.

Eddie e Elaine, um casal que vive na zona há 15 anos e que não quis dar o apelido, explicam que as últimas semanas marcaram uma viragem, após anos de relativa calma.

“Este verão foi o pior de todos, com os problemas”, afirma Elaine. “Ninguém acha realmente que seja uma boa ideia ter 150 homens num sítio destes, numa esquina da cidade, mesmo ao lado de uma escola.”

No dia seguinte à decisão do tribunal, muitos habitantes fizeram questão de mostrar os seus sentimentos. Dezenas de pessoas passaram de carro em frente ao Bell Hotel, buzinando em sinal de celebração. Outros gritaram “Fora Starmer” e, “Já não era sem tempo, tirem-nos daqui.” Houve também gritos de “Niiigel”, em apoio a Farage, um dos poucos políticos britânicos que o público trata pelo primeiro nome.

Para Khador, “o incidente” também mudou tudo. Disse que já lhe atiraram latas de cerveja quando ia à loja local; outros gritam “escumalha” quando passam de carro.

“Dizem que somos inocentes até prova em contrário. Aqui é o oposto. É como se fôssemos culpados até prova em contrário. Neste momento, és apenas um imigrante. Logo, és culpado.”

Os residentes dizem que o “incidente” em julho desencadeou uma onda de indignação. Henry Nicholls/AFP/Getty Images

"As nossas ruas"

A estrada que liga o centro da cidade ao Bell Hotel tem estado, nas últimas duas semanas, coberta com as cores branca e vermelha da bandeira de São Jorge de Inglaterra.

“Acho ótimo”, afirma um transeunte. “Estas são as nossas ruas.”

No entanto, há quem esteja discretamente preocupado com estas manifestações de nacionalismo, temendo poderem assumir um lado feio. Este homem disse, em declarações à CNN, não querer ser citado porque, se expressasse apoio aos migrantes, receava tornar-se alvo dos manifestantes que, em noites recentes, se concentraram em frente ao hotel.

“É uma cidade pequena. As pessoas falam. Toda a gente sabe onde toda a gente mora”, explica.

Embora Farage tenha apelado a manifestações “pacíficas” por todo o Reino Unido, os protestos recentes nem sempre foram pacíficos.

No verão passado, o Reino Unido assistiu a protestos que descambaram em violência e racismo aberto, quando a desinformação ajudou a alimentar motins anti-imigração em todo o país. O assassinato de três raparigas em Southport, no norte de Inglaterra, durante uma aula de ioga com tema Taylor Swift, em julho, levou a distúrbios generalizados, com dezenas de detenções. Num dos casos, os manifestantes incendiaram um hotel que servia para alojar requerentes de asilo, com pessoas no interior.

Ativistas da extrema-direita foram acusados de utilizar plataformas de redes sociais para espalhar desinformação, nomeadamente alegando falsamente que o atacante de Southport era um imigrante que tinha entrado ilegalmente no Reino Unido. Na realidade, o autor do crime era um adolescente nascido em Cardiff, capital do País de Gales, filho de migrantes do Ruanda.

Desde que o Partido Trabalhista chegou ao poder no verão passado, cerca de 38.000 pessoas chegaram em pequenos barcos; abaixo do pico registado em 2022, mas ainda mais de um terço acima do ano anterior. Muitos destes foram alojados em hotéis.

Políticas recentes, como o acordo “um por um” com França, não conseguem resolver o problema central: milhares de pessoas continuam, todos os anos, dispostas a arriscar a vida para atravessar o Canal.

A frustração com os elevados níveis de imigração, juntamente com o descontentamento pela fraca performance económica do Reino Unido, tem sido terreno fértil para o nativismo.

“Somos um país pequeno”, afirma Eddie. “Só conseguimos absorver até certo ponto antes de isso mudar completamente o nosso ambiente. Mas nós, na verdade, crescemos aqui - pelos nossos pais, depois da Segunda Guerra Mundial.”

Questionado sobre para onde acha que deveriam ser enviados os hóspedes do Bell Hotel, respondeu: “Achamos que deviam provavelmente existir campos preparados para o efeito. Tiveram anos para pensar nisso… Deviam estar a construir alguns campos para absorver o fluxo e lidar com eles.”

Grades de segurança cercam o Bell Hotel, com seguranças de plantão no átrio dia e noite. Carl Court/Getty Images

O Ministério do Interior anunciou na sexta-feira que vai recorrer da decisão do tribunal, dizendo que o governo está empenhado em encerrar todos os hotéis de requerentes de asilo até 2029, mas que quer fazê-lo de forma “gerida e ordeira.” Mais cedo, já tinha avisado que a decisão iria “impactar substancialmente” a sua capacidade de alojar requerentes de asilo em hotéis no Reino Unido.

Esses impactos deverão aumentar ainda mais, à medida que outros municípios avaliam se devem avançar com desafios legais semelhantes. Farage declarou que os dez municípios governados pelo Reform UK farão “tudo ao seu alcance” para obter decisões semelhantes. Até alguns municípios trabalhistas anunciaram planos do mesmo género.

No Bell Hotel, todos os 80 quartos que albergam 138 pessoas terão de ser esvaziados até à noite de 12 de setembro.

Para Khador, o jovem somali, isso significa provavelmente muitos mais meses antes de poder, como vê, recomeçar a vida.

“Só quero provar que não sou criminoso. Provar que consigo contribuir. Não sou um aproveitador”, afirma.

Mas, esteja noutro hotel ou num tipo diferente de alojamento, pouca diferença faz. “Vai ser igual em qualquer lugar”, considera.

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