Michel Claise, o juiz belga do Catargate que escreve thrillers e gosta de perseguir os poderosos: "Isto é muito divertido"

CNN Portugal , MJC
22 dez 2022, 08:00
Juiz Michel Claise (DR)

“O crime de colarinho branco é o cancro da democracia” diz o juiz de 66 anos, que é conhecido por ser implacável e não temer ninguém. Também por não ter "pingo de modéstia"

"Em 2022 nenhum super-herói tem capa, mas alguns usam toga", escreveu Pablo R. Suanzes, correspondente do El Mundo em Bruxelas, referindo-se a Michel Claise, o juiz belga especialista em crimes económicos e que neste momento é o responsável pela investigação do caso de suborno e corrupção que envolve eurodeputados, já apelidado de "Catargate".

Claise tem 66 anos e é juiz do Tribunal de Primeira Instância de Bruxelas. Corajoso e eloquente, "sem pingo de modéstia", apaixonado por cenografia e saraus, autor de ensaios e de romances de sucesso, presença regular na comunicação, Michel Claise, cujo papel na Bélgica é semelhante ao de um promotor público dos Estados Unidos, tem fama de implacável e justiceiro, tendo passado grande parte da sua carreira a denunciar "a corrupção insuportável" na Bélgica e a falta de recursos da administração.

Nos longos corredores do Palácio da Justiça, em Bruxelas, Claise é conhecido como “O Xerife”, por gostar de fazer frente aos "poderosos", usando por vezes métodos controversos. "Não me sinto como um xerife. Estou simplesmente a fazer o meu trabalho, (...) dentro da lei. Estou encarregado de casos que envolvem pessoas influentes que pensamos que não se pode tocar. Mas faço-o porque é o meu trabalho. Nada mais", afirmou Michel Claise ao jornal Le Soir, em 2020. "Não sinto de todo que tenha uma luta contra pessoas ou contra a riqueza", mas "o crime financeiro está a corroer-nos", acrescentou.

Também é conhecido pelo prazer que tem em investigar e prender criminosos. “Isto é muito divertido”, chegou a dizer numa entrevista. De outra vez, após uma investigação bem sucedida, comentou, sorridente: "Bingo!" 

É essa “exuberância” que o torna diferente, disse ao Politico John Crombez, que foi secretário de Estado da Bélgica para combate à fraude entre 2011 e 2014. “Muitos outros, nesta área, são reservados e modestos, ele não é. Nunca entendi isso como arrogância”, afirmou. “Ele é como um juiz de investigação. Isso é fantástico. Vem tudo das suas preocupações sociais profundamente enraizadas. É isso que o torna tão excecional.”

Há uma coisa que temos de saber sobre o juiz Michel Claise, escreve o Politico: "Ele não vai desistir"

Mas há outras coisas a saber. Em bebé, os pais deixaram-no numa cesta na padaria dos avós no subúrbio de Anderlecht, contou Michel Claise ao Le Soir em 2020. Sem televisão em casa, cresceu cortando pão antes de ir para a escola e tentando ler o máximo de livros que podia. A partir dos 14 anos, os professores do Institut Notre-Dame d'Anderlecht também lhe notaram o gosto pela escrita. O pai nunca quis fazer parte da sua vida e a relação com a mãe, já falecida, era “extremamente difícil”.

Licenciado pela Universidade Livre de Bruxelas diz não estar filiado em nenhum partido. Mas não exclui, uma vez reformado, tentar ser eleito para um conselho local para "comunicar a sua abordagem à cultura". Claise cita os valores humanistas revolucionários franceses como os seus princípios orientadores. Para ele, o crime financeiro destruiu aspectos fundamentais da sociedade. “O crime de colarinho branco é o cancro da democracia”, escreveu Claise num de seus livros, “Le Forain”.

Por vezes rotulado de "anarquista", o juiz de espírito independente admite ser um maçon desde os anos 80, "para a reflexão interior e enriquecimento através do encontro". Não esquecendo o princípio essencial de "questionar sempre tudo".

A lista de acusados por Michel Claise inclui os bancos Fortis e Belgolaise e a seguradora AGF, mas também multinacionais e a nobreza belga.

"Claise, o juiz que assusta os banqueiros", foi a manchete do semanário belga Le Vif em 2014, na altura de uma investigação sobre fraude fiscal e branqueamento de dinheiro que tinha como alvo o banco britânico HSBC. Alguns anos depois, Claise forçou o HSBC a pagar uma multa recorde na Bélgica de 295 milhões de euros por evasão fiscal, lavagem de dinheiro e outros crimes. Outro apelido para Claise é "O Sr. Cem milhões", por causa de todo o dinheiro que conseguiu trazer de volta para o Estado.

“Ele não se importa nem um pouco com a importância dos seus oponentes”, observou Crombez, garantindo que Claise "não se assusta facilmente".

Por exemplo, foi ele o responsável pela investigação a cartéis de lavagem de dinheiro em clubes de futebol belgas, apelidada de “Operação Zero”, que abalou o mundo do futebol. Também foi ele que emitiu um mandado de prisão internacional para o presidente da Autoridade de Investimentos da Líbia por causa dos seus alegados vínculos com a Euroclear, uma instituição financeira com sede em Bruxelas.

Uma da suas maiores operações foi supervisionar o desmantelamento do serviço criptografado SKY ECC, o que levou à prisão de dezenas de traficantes de droga e suspeitos de outros crimes. A apreensão foi a maior já realizada contra cartéis de drogas no país, que é um importante ponto de tráfico de cocaína na Europa.

Claise diz que se inspira na sua atividade profissional para escrever "thrillers" e romances históricos (publicou uma dúzia de livros em 15 anos) que lhe valeram prémios e contribuíram para a sua fama.

Em outubro, Claise reclamou que a polícia da Bélgica tem poucos recursos e que trava uma guerra contra a corrupção moderna e de alta tecnologia usando “catapultas”. Mas mesmo com poucas armas, o juiz não desiste da luta.

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