Uma polémica sobre circuncisão ameaça agudizar a já tensa relação entre Europa e EUA

CNN , Christian Edwards
21 fev, 19:12
Bill White, embaixador dos Estados Unidos na Bélgica, foi convocado para uma reunião em Bruxelas, na terça-feira, para explicar os seus comentários que acusam a Bélgica de antissemitismo (Marius Burgelman/Belga Mag/AFP/Getty Images)

Bocas entre as administrações europeias e a Casa Branca têm aumentado de tom. Agora, este caso promete abanar ainda mais as coisas

No que diz respeito aos cargos de embaixador, os diplomatas norte-americanos podem ter bem pior do que serem colocados na Europa. As residências são enormes e a vida é pacífica - pelo menos a oeste de Kiev. “Estamos em território amigo”, diz Daniel Fried, um antigo embaixador dos EUA na Polónia. Quando surgem disputas, a maioria é mantida à porta fechada.

Mas as recentes discussões públicas entre três embaixadores dos EUA e os seus respetivos anfitriões deram à Europa uma amostra da abordagem mais firme e menos abafada da administração Trump à diplomacia. Para Washington, as discussões são o tipo de amor exigente de que o continente precisa. Para a Europa, são um antagonismo desnecessário que viola as “normas diplomáticas básicas”.

Esta semana, Bill White, o embaixador dos EUA na Bélgica, criticou o país pela sua abordagem à circuncisão ritual judaica e acusou o país de antissemitismo.

White criticou a forma como a Bélgica lidou com um caso em Antuérpia, onde três homens judeus que efetuam circuncisões rituais - conhecidos como “mohels” - estão a ser investigados judicialmente depois de, alegadamente, terem efetuado procedimentos sem a presença de médicos. Numa longa publicação no X, White exigiu que Frank Vandenbroucke, ministro da Saúde da Bélgica, interviesse no caso.

"PARA A BÉLGICA, ESPECIFICAMENTE, TÊM DE ABANDONAR A RIDÍCULA E ANTISSEMITA ‘ACUSAÇÃO’ CONTRA AS 3 FIGURAS RELIGIOSAS JUDAICAS (MOHELS) EM ANTUÉRPIA! ELES ESTÃO A FAZER O QUE FORAM TREINADOS PARA FAZER DURANTE MILHARES DE ANOS", escreveu White.

Apelidou Vandenbroucke de “muito rude” e afirmou que o ministro se tinha recusado a apertar-lhe a mão ou a ser fotografado com ele. “Ficou claro que não gosta da América, o país que lutou e de onde dezenas de milhares de filhos da nossa nação morreram duas vezes pela liberdade da Bélgica”, disse White.

Maxime Prévot, ministro dos Negócios Estrangeiros da Bélgica, ripostou, afirmando que a sugestão de White era “falsa, ofensiva e inaceitável”. Esclareceu que a Bélgica permite a circuncisão ritual “quando efetuada por um médico qualificado e segundo normas rigorosas de saúde e segurança” e disse que White tinha sido convocado para uma reunião esta terça-feira por causa da sua explosão.

“Um embaixador acreditado na Bélgica tem a responsabilidade de respeitar as nossas instituições, os nossos representantes eleitos e a independência do nosso sistema judicial”, afirmou Prévot. “Os ataques pessoais contra um ministro belga e a interferência em assuntos judiciais violam as normas diplomáticas básicas”.

A CNN solicitou comentários à embaixada dos EUA em Bruxelas e ao Departamento de Estado.

A polémica faz lembrar uma anterior acusação de antissemitismo feita por Charles Kushner, embaixador dos EUA em França, contra o presidente Emmanuel Macron. Numa carta enviada ao Wall Street Journal, Kushner - pai de Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump - acusou Macron de não ter conseguido combater o aumento do antissemitismo. Macron respondeu que a carta brusca de Kushner foi um “erro” e uma “declaração inaceitável para alguém que é suposto ser um diplomata”.

A discussão desta semana na Bélgica ocorreu pouco depois de o embaixador dos EUA na Polónia, Tom Rose, ter anunciado, a 5 de fevereiro, que os EUA iriam cortar relações com Włodzimierz Czarzasty, o presidente do parlamento inferior da Polónia, o Sejm. Três dias antes, Czarzasty tinha dito numa conferência de imprensa que Trump “não merece” o Prémio Nobel da Paz que há muito cobiça.

Rose disse que os “insultos ultrajantes e não provocados” de Czarzasty contra Trump “tornaram-se um sério impedimento” às “excelentes relações” de Washington com o governo polaco. “Não permitiremos que ninguém prejudique as relações entre os EUA e a Polónia, nem desrespeite [Trump]”, afirmou.

Tom Rose, embaixador dos EUA na Polónia, assiste à cerimónia de inauguração da campanha Freedom250 no Kosciuszko Mound em Cracóvia, Polónia, a 12 de fevereiro, antes do 250º aniversário da Declaração de Independência dos EUA (Beata Zawrzel/NurPhoto/Getty Images)
Tom Rose, embaixador dos EUA na Polónia, assiste à cerimónia de inauguração da campanha Freedom250 no Kosciuszko Mound em Cracóvia, Polónia, a 12 de fevereiro, antes do 250º aniversário da Declaração de Independência dos EUA (Beata Zawrzel/NurPhoto/Getty Images)

O primeiro-ministro Donald Tusk, que lidera uma maioria de centro-esquerda no Sejm, disse a Rose que "os aliados devem respeitar-se, não dar lições uns aos outros. Pelo menos é assim que nós, aqui na Polónia, entendemos a parceria". Rose respondeu que “defenderá sempre o presidente sem hesitações, exceções ou desculpas”.

Fried, que foi embaixador na Polónia de 1997 a 2000, refere que os incidentes marcaram um afastamento da forma como a diplomacia é tradicionalmente conduzida. O trabalho de um diplomata, nota à CNN, “é fazer avançar a agenda do presidente”.

"Mas isso não significa necessariamente que se defenda o presidente de todos os ataques. Descobre-se (...) como trabalhar dentro da política do país em que se está, para fazer avançar a agenda do presidente. Isso significa, às vezes, ignorar os ataques e concentrar-se na agenda", reitera.

Fried elogia o trabalho de Rose até agora em Varsóvia, mas adverte: "Raramente se ganha uma luta pública no terreno de outra pessoa. ... Se formos pelo caminho de lutar no território de outra pessoa, vamos perder".

A administração Trump parece, no entanto, gostar de provocar brigas no território europeu, desde a desfeita do vice-presidente JD Vance com os aliados europeus em Munique até às frequentes explosões de Trump na Internet. Fried, que também foi secretário de Estado adjunto para os assuntos europeus e euro-asiáticos durante a presidência de George W. Bush, disse que os embaixadores na Europa podem estar a seguir este exemplo mais beligerante.

"Estão a responder ao que pensam que se espera deles. Infelizmente, essa é uma expetativa razoável", sublinha. "Estão a lidar com uma Casa Branca de pele muito fina. Podem pensar que, se não responderem com força, podem ser atacados por outra pessoa no mundo de Trump".

Mas escolher quais os “ataques” a ignorar pode trazer recompensas, reforça, recordando como José Luis Rodriguez Zapatero chegou ao poder em Espanha, em 2004, depois de ter feito uma forte campanha contra a invasão americana do Iraque e de ter acusado o primeiro-ministro José María Aznar de ser um fantoche do presidente Bush.

Fried lembra quem, após as eleições, Bush telefonou a Zapatero para o felicitar pela sua vitória. "Ele basicamente disse: 'Ei, foi uma campanha - eu percebo. Mas mesmo que não estejamos de acordo, temos de trabalhar juntos numa série de coisas, e tenho todo o gosto em fazê-lo'. Zapatero ficou estupefacto. Foi ouvido a dizer: ‘O quê? Ele estende-me a mão depois de tudo o que eu disse?’"

Bush “sabia o que estava a fazer”, conclui Fried. "Evitou-se uma série de problemas porque encolheu os ombros. Não levava isto a peito. Tinha os olhos postos em prémios maiores".

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