"Kaká" era "extremamente cuidadosa" para as crianças. Funcionária que se esqueceu de menina de 18 meses no carro arrisca cinco anos de prisão

Pedro Ramos Bichardo | Emanuel Monteiro , e Tânia Monteiro
24 jul, 13:56
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Para os familiares deixarem ou irem buscar as crianças ao Mestre Cuco têm de registar as movimentações numa plataforma. Procedimentos rigorosos que não foram suficientes para alertar que em falta estava Sofia. A menina morreu dentro da viatura, à porta do colégio, numa das ruas mais movimentadas de Almada

Ainda está por explicar como Carla, funcionária do Colégio O Mestre Cuco, em Almada, se esqueceu de Sofia, de 18 meses, dentro do carro durante sete horas. “Carinhosamente as crianças chamam-lhe Kaká. É extremamente cuidadosa, dócil...todas elas [funcionárias da creche] são”, revela Fernanda Ramos, que tem dois netos na instituição há três anos.

O espaço funciona com uma aplicação de telemóvel, e para os familiares deixarem ou irem buscar as crianças têm de registar as movimentações nessa mesma plataforma. Procedimentos rigorosos que não foram suficientes para alertar que em falta estava Sofia. A menina morreu dentro da viatura, à porta do colégio, numa das ruas mais movimentadas de Almada.

“Isto só pode ter sido uma falha de processos, não só de uma pessoa. Uma criança estar esquecida sete horas não pode ser só de uma pessoa”, aponta Paulo Borges, morador na mesma rua da instituição.

Certo é que as autoridades já estão a investigar as circunstâncias da trágica morte da bebé. A funcionária deverá mesmo responder em tribunal.

“Isto é um crime manifestamente de homicídio por negligência cuja pena vai até cinco anos”, explica a advogada Suzana Garcia.

Algo que nunca será suficiente para apagar a dor dos pais, familiares e amigos de Sofia. “Quando nós estamos mediante uma situação destas, em que existe uma culpa, independentemente de intencional ou não […] é muitíssimo mais difícil” superar o luto, alerta a psicóloga Melanie Tavares.

O colégio já reagiu em comunicado e afirma que “não existem palavras” capazes de traduzir a dimensão da “perda irreparável” dos pais. Esclarece ainda que “a diretora do colégio encontra-se a acompanhar a situação [...] colaborando com as entidades competentes no apuramento rigoroso de todos os factos”.

Sete horas esquecida numa viatura da creche

Só quando a mãe da menina de 18 meses perguntou pela filha é que soou o alarme. Ninguém sabia onde estava a criança que devia ter entrado na creche pouco depois das 08:00 para sair pelas 15:00.

Só que nada disso chegou a acontecer. Todo esse período de sete horas foi passado num carro num dia em que, de acordo com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), os termómetros chegaram perto dos 30 graus.

Alerta dado, os responsáveis do Colégio Mestre Cuco saíram a correr para o carro de onde a bebé não saiu o dia inteiro.

Encontraram-na já em estado grave e ainda partiram o vidro do carro, para deixar entrar ar. Chamaram socorro, mas os esforços de PSP e INEM não impediram uma paragem cardiorrespiratória fatal para a criança.

O que se passou, sabe a CNN Portugal, é que a funcionária que faz o transporte das crianças que frequentam a creche se esqueceu da menina dentro do veículo.

Apanhou-a no local do costume em Almada e seguiu para o Pragal, no mesmo concelho. Era lá que devia ter ficado a criança, mas não ficou.

De resto, a mãe percebeu isso mesmo quando chegou ao local combinado para ir buscar a filha.

Informada de que a menina não estava no local, ligou à creche do Pragal, que a informou de que a criança nunca tinha chegado à escola, um dos três estabelecimentos do Colégio Mestre Cuco, naquele dia.

Estava, como já sabemos, dentro de um carro parada na Avenida do Cristo Rei, também em Almada, a cerca de cinco minutos de carro do local onde era suposto ter sido deixada.

Assim que a mãe e as funcionárias do estabelecimento de ensino se aperceberam do que podia ter acontecido acorreram de imediato ao carro. Lá dentro estava o ovo ainda com a menina, mas já num estado que se revelou irreversível.

O alerta foi depois dado às 15:53 para uma criança em paragem cardiorrespiratória. Segundo o comandante dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas, o alerta chegou através do Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) e a corporação demorou cerca de cinco minutos a chegar ao local.

À chegada dos bombeiros, encontravam-se já no local elementos da PSP e da Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER). O vidro da viatura estava partido e os operacionais ainda colaboraram nas manobras de reanimação da criança, mas já não foi possível reverter a situação.

Em comunicado, o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) adianta que mobilizou para o local os Bombeiros Voluntários de Cacilhas, uma VMER e a Unidade Móvel de Intervenção Psicológica de Emergência (UMIPE). "À chegada ao local, foram iniciadas de imediato manobras de reanimação. Apesar dos esforços das equipas, não foi possível reverter a situação, tendo o óbito sido verificado no local", refere o INEM.

As circunstâncias da morte da criança motivaram o acionamento da Polícia Judiciária, que está a investigar o caso em coordenação com a PSP.

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