Noites longas, drogas para ficarem ainda mais longas, “Hitler” no palco e até um amigo morto: os Beatles em Hamburgo foram o fim do mundo em cuecas — e ainda bem

9 ago, 20:30
Pete Best, John Lennon, Paul McCartney e George Harrison no Star-Club, em maio de 1962, quando Hamburgo ainda os obrigava a tocar durante horas e Ringo Starr ainda não tinha ocupado o lugar atrás da bateria.
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Chegaram sem dinheiro, sem hotel para dormir e sem ninguém à sua espera. "Os alemães gostavam, desde que fosse alto", recordaria John Lennon. Entre clubes para marinheiros, comprimidos para não adormecer, provocações nazis, um preservativo incendiado e a morte de Stuart Sutcliffe, cinco rapazes de Liverpool (antes de serem os “Fab Four" de Liverpool) tocaram até deixarem de ser apenas mais uma banda. Hamburgo não lhes deu fama. Deu-lhes aquilo de que precisavam para a conquistar

Chegaram a Hamburgo muito tarde, depois de atravessarem a Holanda numa carrinha apertada entre malas, guitarras, amplificadores e cinco corpos que ainda não sabiam o que fazer com o próprio futuro. Não conheciam a cidade, não falavam alemão e não havia ninguém à espera deles. Procuraram St. Pauli num mapa, depois a Reeperbahn, depois a rua do clube. Quando finalmente encontraram o Indra, as portas estavam fechadas.

"Não estava ninguém à nossa espera", recordaria Paul McCartney em "The Beatles Anthology", livro de história oral no qual os próprios Beatles contam a história do grupo.

Também não havia hotel, nem um empresário alemão de braços abertos, nem sequer a certeza de que aqueles cinco rapazes de Liverpool fossem capazes de tocar durante o tempo que lhes seria exigido. John Lennon tinha 19 anos, Paul McCartney 18, Pete Best também, Stuart Sutcliffe tinha 20 e George Harrison levava 17 — e não tinha idade legal para trabalhar de madrugada num clube noturno. 

Nenhum deles sabia ainda que aquele pormenor acabaria por mandá-lo de volta a Inglaterra. Lá chegaremos. 

Naquela primeira noite, a preocupação era mais simples: encontrar um lugar onde dormir e perceber onde se tinham metido. A resposta estava diante deles. Tinham-se metido em St. Pauli, o bairro que crescia junto ao porto, alimentado pelos navios, pelos marinheiros e pelo dinheiro que precisava de ser gasto depressa. Havia bares, pensões, clubes de striptease, pequenos restaurantes, prostitutas, clientes, traficantes, homens violentos e outros que apenas pareciam violentos, e a noite começava quando o resto de Hamburgo se preparava para dormir. 

Na Große Freiheit, uma rua estreita iluminada por néones vários, Bruno Koschmider, proprietário alemão de vários clubes da zona, dirigia o Indra e o Kaiserkeller e procurava grupos ingleses baratos que tocassem o rock’n’roll americano sem cobrarem como americanos.

Os Beatles não tinham sido a primeira escolha.

Outros grupos de Liverpool receberam a proposta antes deles e recusaram-na ou não puderam aceitá-la. Allan Williams, dono de clubes em Liverpool, primeiro empresário informal dos Beatles e homem que organizou a viagem, acabou por enviar a banda que ainda tinha disponível. Faltava-lhe um baterista e Pete Best foi recrutado poucos dias antes da partida, em parte porque sabia tocar, em parte porque possuía uma bateria. O futuro começou assim, com três recusas, uma vaga por preencher e cinco rapazes que alguém considerou suficientemente dispensáveis para atravessarem o mar até à Alemanha.

Subiram ao palco do Indra a 17 de agosto de 1960. À porta havia um elefante de néon e, lá dentro, quase ninguém prestava atenção. A banda tocava de forma rígida, John e Paul olhavam para as guitarras, George procurava os acordes e Stuart tentava não mostrar que ainda não dominava o baixo. Tinham repertório para pouco mais de uma hora, mas o contrato exigia quatro horas e meia de música durante a semana e seis ao fim de semana, por isso não havia como negociar com o relógio: era preciso inventar tempo. Então, repetiam canções, alongavam solos, aceleravam, abrandavam e voltavam ao princípio, e uma música de três minutos podia durar 10 ou 15, desde que os clientes continuassem a beber e, portanto, nunca reparassem. Quando já não sabiam o que tocar, tocavam outra vez aquilo que tinham tocado uma hora antes, alternando as vozes para não perderem todos a garganta na mesma noite, enquanto Koschmider lhes ordenava, segundo uma recordação de Paul McCartney recuperada pela televisão pública alemã NDR, que fizessem mais:

"Mach Schau". Façam espetáculo.

Querem espetáculo? John começou a cair de joelhos, a berrar e a provocar a sala, Paul levantava a guitarra e puxava pelo público, George tocava até os dedos doerem, Pete batia com mais força e Stuart procurava, por sua vez, a penumbra. 

Não melhoraram porque alguém lhes ensinou, melhoraram porque a alternativa era serem despedidos e voltar a Liverpool. "Foi Hamburgo que fez isso", recordaria Lennon em "The Beatles Anthology". "Foi lá que realmente nos desenvolvemos. Os alemães gostavam, desde que fosse alto."

Ao fim de algumas semanas, os casacos lilases que um vizinho de Paul lhes fizera começaram a desfazer-se, vencidos pelo suor, pelo calor do clube e pelas horas de palco, que dissolviam a roupa — e também alguma coisa da banda que tinha partido de Inglaterra. No Indra tocaram 48 vezes e, quando o clube fechou por causa das queixas de ruído, passaram para o Kaiserkeller, que pertencia ao mesmo homem e tinha uma sala maior, mais clientes e noites ainda mais duras. Saídos do Kaiserkeller, dormiam atrás do ecrã do Bambi Kino, um pequeno cinema também controlado por Koschmider, em duas arrecadações sem janelas a que chamavam quartos, embora um quarto costume ter ar, luz e alguma distância das casas de banho dos homens. Ali, o cheiro atravessava as paredes, não havia duche e, quando a banda finalmente se deitava, começavam as sessões matinais do cinema e chegavam crianças para ver filmes a poucos metros de cinco músicos que tentavam dormir.

O corpo precisava de continuar.

A solução: em Hamburgo circulava o Preludin, nome comercial da fenmetrazina, um estimulante então vendido como medicamento para reduzir o apetite. Os músicos usavam-no para permanecer acordados, tomavam os comprimidos antes ou durante os concertos e depois bebiam para controlar a agitação ou tentar dormir quando o trabalho terminava. Quando o efeito passava, o corpo caía e, algumas horas mais tarde, era preciso regressar ao palco.

John lembrava-se da exploração e lembrava-se da felicidade, porque as duas coisas cabiam na mesma memória. Em "The Beatles Anthology", diria que, naquela altura, lhes parecia injusto tocar seis horas por noite, ganhar quase nada e precisar de comprimidos para se manterem acordados. Visto à distância, porém, tudo lhe parecia melhor do que eles tinham percebido.

A juventude tem esta pequena fraude de fazer o corpo suportar aquilo que a memória acabará por chamar aventura.

As noites obrigaram-nos a procurar canções, porque não podiam preencher tantas horas apenas com o rock’n’roll que conheciam de Liverpool. Tocavam Chuck Berry, Little Richard, Gene Vincent, Carl Perkins, Buddy Holly, Elvis Presley, Eddie Cochran e Ray Charles. Paul recuperava músicas que ouvira em casa com o pai, como "Till There Was You", e cantava "A Taste of Honey", enquanto John podia passar de "Over the Rainbow" para "Ain’t She Sweet" e depois rasgar a voz numa imitação de Little Richard. Também tocavam "Bésame mucho", exagerando o dramatismo e prolongando a canção enquanto a sala respondesse a isso.

O repertório tornou-se vasto porque a noite era longa.

Mas a transformação não aconteceu apenas no número de músicas que aprenderam. Perceberam como uma canção mudava diante de pessoas reais, quando devia ser acelerada, quando precisava de um solo, quando um segundo de silêncio podia chamar mais atenção do que um amplificador e quando era melhor não discutir com o homem bêbado que exigia uma música que eles mal conheciam. Tocavam-na na mesma e inventavam o resto.

Não estavam ainda a criar as canções que os tornariam famosos, estavam a aprender a sobreviver dentro de qualquer canção e, quando começaram a escrever melhor, já tinham mãos e ouvidos capazes de acompanhar aquilo que a imaginação propunha.

A primeira chegada a Hamburgo, a 16 de agosto de 1960, antes das noites intermináveis e da fama: Allan e Beryl Williams, Lord Woodbine, Stuart Sutcliffe, Paul McCartney, George Harrison e Pete Best; John Lennon seguia noutro automóvel. Foto: Barry Chang/Getty Images

O público não era composto por adolescentes que tinham comprado um bilhete para contemplar os ídolos, mas por marinheiros, prostitutas, pequenos criminosos, trabalhadores noturnos e homens que bebiam havia muitas horas. Alguns subiam ao palco e pegavam no microfone, outros gritavam pedidos, e uma atuação podia terminar numa gargalhada ou numa à bordoada.

Lennon percebeu cedo que o perigo também servia para conquistar uma sala.

Fazia o gesto do bigode de Hitler com um dedo debaixo do nariz, erguia o braço numa saudação nazi e insultava os alemães, lembrando-lhes que tinham perdido a guerra. 

Não era uma reflexão séria sobre o nazismo, era um rapaz de 19 anos a descobrir até onde podia provocar uma sala sem ser atingido por uma garrafa. O escritor Eugenio Rivera Claudio, um estudioso dos Beatles e participante no documentário "No Hamburg, No Beatles" — "Sem Hamburgo, não haveria Beatles" —, resume, em declarações à revista ICON, do jornal espanhol "El País", a provocação: "Insultava os clientes, chamando-lhes 'nazis de merda’". 

Os jovens alemães que se aproximaram da banda vinham de famílias marcadas pela guerra e pelo silêncio dos pais, muitos sentiam vergonha daquela herança e, por isso, as provocações de Lennon não eram recebidas como uma celebração do nazismo, mas como uma profanação. Estamos em 1960. A guerra terminara em 1945.  Ele pegava no símbolo que aterrorizara uma geração de alemães e transformava-o durante alguns segundos numa caricatura, grotesca, mas uma caricatura.

Só haviam passado 15 anos, não deixava de ser arriscado. Talvez fosse por isso que continuava.

Mas falemos de sentimentos, outros. A educação sentimental dos rapazes de Liverpool também foi rápida. George Harrison contou em "The Beatles Anthology" que teve em Hamburgo a primeira relação sexual enquanto os restantes permaneciam no mesmo quarto. "Não viam realmente nada, porque eu estava debaixo dos cobertores", recordaria. "Mas, quando acabei, aplaudiram e festejaram." George tinha 17 anos então.

É possível que a memória tenha aperfeiçoado a cena, como aperfeiçoou tantas outras depois de cada história ter sido repetida durante décadas. Ainda assim, o episódio diz alguma coisa sobre a falta de intimidade daqueles meses: dormiam juntos, trabalhavam juntos, adoeciam juntos e conheciam pessoas que não existiam no mundo protegido das casas onde tinham crescido. 

Hamburgo não lhes permitiu uma passagem gradual para a idade adulta. Empurrou-os para ela.

Foi no Kaiserkeller que Klaus Voormann, um jovem artista alemão que mais tarde se tornaria músico e designer, ouviu a música a subir pelas escadas. Entrou no clube e regressou depois com Astrid Kirchherr, fotógrafa recém-formada, e Jürgen Vollmer, também fotógrafo. Os três faziam parte de um pequeno círculo influenciado pelo existencialismo francês, pelo cinema, pela fotografia e pela moda. Vestiam sobretudo preto, usavam o cabelo de maneira diferente e viam-se como estrangeiros dentro da própria cidade. 

Os Beatles (que ainda não eram Beatles) chamaram-lhes "Exis", abreviatura de "existencialistas". 

A distância entre os dois grupos era grande: os alemães tinham uma sofisticação estética que os rapazes de Liverpool não conheciam, os rapazes de Liverpool tinham uma energia que os alemães não encontravam nos clubes respeitáveis — e reconheceram-se precisamente porque não se pareciam.

Astrid Kirchherr entre dois homens que ajudariam a ligar Hamburgo à história dos Beatles: Klaus Voormann, à esquerda, e Stuart Sutcliffe, à direita. Em 1961, eram também parte de um pequeno círculo de artistas e estudantes alemães que lhes deu amizade, roupas, fotografias e até uma nova maneira de pentear o cabelo. Foto: K & K Ulf Kruger OHG/Redferns

Astrid tinha 22 anos e começava a trabalhar como fotógrafa. Assim, convidou a banda para uma sessão fotográfica numa feira de Hamburgo e, em vez de os colocar diante das diversões e das luzes e das pessoas, levou-os para junto de estruturas metálicas, camiões e maquinaria. "Fiquei espantada com a beleza deles", diria em 2008, numa entrevista ao programa "Fresh Air", da rádio pública norte-americana NPR. "Era o sonho de uma fotógrafa, o meu sonho." Vestiu-os de preto, usou a luz dura da cidade e fotografou-os como se fossem já alguma coisa que o público ainda não conseguia ver. 

Nas imagens, Pete, George, John, Paul e Stuart aparecem magros e sérios, não são ainda os Beatles conhecidos pelo mundo, mas também já não são apenas os rapazes que tinham chegado numa carrinha sem lugar onde dormir. 

Stuart Sutcliffe parecia pertencer àquele universo com mais naturalidade. Era pintor antes de ser baixista e continuava a ser pintor enquanto tocava: é que tinha comprado o baixo com o dinheiro obtido pela venda de um quadro. Mas o instrumento nunca foi o centro da sua vida. Em palco virava-se por vezes de costas para esconder as limitações. 

Paul irritava-se. John protegia-o.

Astrid apaixonou-se por Stuart.

Cortou-lhe o cabelo, penteando-o para a frente em vez de manter o topete usado pelos jovens ligados ao rock’n’roll. George adotou o corte, depois Paul e depois John. Jürgen Vollmer também participou nessa mudança. E a história do penteado, como quase todas as histórias dos Beatles, acabaria por ser simplificada até caber numa única frase. Astrid sempre resistiu a ser lembrada apenas como a mulher que lhes cortou o cabelo: "Pegava-lhes na cabeça e colocava-os como queria", recordou na mesma entrevista à NPR, devolvendo a si própria o papel de autora e não de simples cabeleireira da lenda.

Tinha razão, Astrid.

O que lhes ofereceu foi maior. Mostrou-lhes uma imagem possível.

Vieram os casacos de couro, os botins, a roupa escura e a consciência de que uma banda não era apenas aquilo que tocava, era também a forma como entrava num lugar, como se alinhava diante de uma máquina fotográfica e como fazia cinco corpos parecerem parte da mesma ideia. 

Pete Best, George Harrison, John Lennon, Paul McCartney e Stuart Sutcliffe, fotografados por Astrid em 1960, ainda antes de Ringo Starr se juntar à banda. Foto: Astrid Kirchherr

Brian Epstein transformaria depois essa intuição de Astrid e Jürgen numa disciplina de fatos, gravatas finas e gestos ensaiados. Já falaremos de Epstein. Porque antes de Epstein houve Astrid Kirchherr.

Stuart aproximava-se da pintura e de Astrid enquanto se afastava dos Beatles. E isto é importante. Porque em 1961 deixou a banda e entrou na Escola Superior de Belas-Artes de Hamburgo e Paul passou para o baixo, o instrumento que nenhum dos guitarristas desejava assumir. 

A mudança resolveu um problema musical, mas não apagou o conflito. Paul considerava Stuart um músico fraco e não disfarçava a impaciência, enquanto John mantinha com ele uma amizade profunda, construída antes de Hamburgo — e essa proximidade fazia Paul sentir-se excluído. 

Em declarações à ICON, Eugenio Rivera Claudio descreve a relação como uma disputa pela atenção de Lennon: Paul atacava a incapacidade de Stuart com o baixo, ao mesmo tempo que desejava ocupar o espaço que ele tinha junto de John. Nem todos os ciúmes são amorosos. Alguns nascem da disputa por um lugar ao lado de alguém. Talvez sejam todos amorosos.

Quando Stuart saiu, os Beatles ficaram melhores. 

Ele, porém, não pareceu perder: continuou a pintar, estudou e foi reconhecido pelos professores da Escola Superior de Belas-Artes como um artista de grande talento. Naquele momento não existia razão para pensar que abandonara uma futura lenda, porque os Beatles eram ainda um grupo de clubes. E Stuart escolhera a arte.

Voltando aos clubes. Bruno Koschmider tinha-lhes dado trabalho e alojamento, mas tratava-os como mão de obra substituível. Era descrito como um homem amargo, com uma perna perdida na guerra e um bastão que usaria para ameaçar ou atingir quem lhe desagradava. Segundo Eugenio Rivera Claudio, à ICON, Koschmider maltratou a banda. Os Beatles responderam como putos que eram: num mercado compraram um pequeno porco e chamaram-lhe Bruno.

Bruno Koschmider, empresário de clubes e antigo proprietário do Kaiserkeller, foi um dos homens que percebeu que aqueles jovens músicos ingleses podiam ajudar a encher as noites de Hamburgo — mesmo antes de alguém imaginar até onde chegariam. Foto: Schaffrath/ullstein bild via Getty Images

A vingança mais conhecida viria depois.

A banda começara a tocar no Top Ten Club, apesar do compromisso com Koschmider, porque o novo espaço oferecia melhores condições, melhor pagamento e um alojamento menos degradante. Koschmider percebeu que estava a perdê-los e informou as autoridades de que George Harrison era menor, e George foi deportado em novembro de 1960. Paul e Pete preparavam-se também para deixar o Bambi Kino e, antes de saírem, pegaram num preservativo, prenderam-no a uma parede de cimento e incendiaram-no. A chama foi pequena, mas Koschmider apresentou o caso como uma tentativa de fogo posto, e os dois foram detidos e expulsos da Alemanha.

Mais de 65 anos depois, Paul ainda é “interrogado” sobre o assunto. Numa entrevista ao programa britânico "Chicken Shop Date", apresentado por Amelia Dimoldenberg em formato de encontro numa churrasqueira, voltou a contar a história: "Era um lugar lúgubre, com paredes de cimento. Aquilo foi um ato de rebeldia”. Depois garantiu que os preservativos "ardem muito bem" e concluiu: "Não se viveu verdadeiramente até se incendiar um preservativo”. 

Talvez seja uma conclusão exagerada. Foi, em todo o caso, suficiente para acabar com a primeira temporada dos Beatles em Hamburgo.

Resumindo: John regressou sozinho pouco depois, Stuart ficou com Astrid, Pete e Paul foram enviados para Inglaterra e George já lá estava. A banda desfez-se durante alguns dias e voltou a reunir-se em Liverpool com uma diferença difícil de explicar a quem não os tivesse visto antes: tinham tocado mais horas em poucos meses do que muitos grupos tocariam em vários anos, vestiam couro, moviam-se de outra forma e faziam barulho como se cada público tivesse de ser vencido antes de a porta fechar.

Nos cartazes começaram a surgir as palavras "Direct from Hamburg", diretamente de Hamburgo. A cidade funcionava como um certificado de rock: não provava que fossem famosos, provava que tinham sobrevivido.

Voltaram em abril de 1961 para tocar no Top Ten. Foram 92 noites consecutivas, sete horas por noite e oito ao fim de semana. Não havia dias livres, havia música, comprimidos, sono retardatário e a aprendizagem contínua de como manter uma sala acordada — mesmo quando se precisa de dormir. 

Foi ali que acompanharam Tony Sheridan, cantor e guitarrista inglês mais velho que eles e já instalado no circuito de Hamburgo, com a segurança profissional que procuravam. Em junho, depois de mais uma noite de trabalho, seguiram para a Friedrich-Ebert-Halle, uma sala de espetáculos instalada numa escola, e fizeram as primeiras gravações comerciais. Registaram "My Bonnie" e outros temas como banda de Sheridan. No disco, o nome Beatles nem sequer apareceu: foram apresentados como Beat Brothers, algo como "irmãos do ritmo” — uma designação considerada “mais fácil” para o mercado alemão.

O anonimato, porém, não impediu que uma cópia de "My Bonnie" chegasse a Liverpool.

Vamos agora conhecer Epstein, Brian Epstein. Segundo a história repetida por décadas, os clientes começaram a pedir o disco na loja de Brian Epstein, diretor da cadeia de música NEMS, em Liverpool. Epstein viria a tornar-se o empresário dos Beatles. Mas antes, Epstein quis saber quem seriam aqueles músicos locais que gravavam na Alemanha e que ele ainda não conhecia e foi vê-los tocar no Cavern Club. O disco que ocultava o nome dos Beatles ajudou o futuro empresário a encontrá-los. 

Ainda não eram os Beatles que o mundo conheceria. Na primavera de 1961, no Top Ten Club, em Hamburgo, Paul McCartney sentava-se ao piano, Pete Best estava na bateria e Stuart Sutcliffe ainda segurava o baixo entre George Harrison e John Lennon: as noites alemãs, longas e repetidas até à exaustão, haveriam de fazer deles uma banda. Foto: Jürgen Vollmer

No Kaiserkeller, os Beatles tinham partilhado as noites com Rory Storm and the Hurricanes, uma das bandas mais populares de Liverpool. 

O baterista chamava-se Richard Starkey, embora todos lhe chamassem Ringo Starr. Também era de Liverpool, mas foi em Hamburgo que se aproximou verdadeiramente deles. Quando Pete Best, o baterista, faltava ou adoecia, Ringo sentava-se à bateria e George Harrison recordaria que, sempre que isso acontecia, a banda “parecia finalmente encaixar”. Ringo tinha experiência, estabilidade e um ritmo que permitia aos restantes tocar sem terem de vigiar aquilo que acontecia atrás deles.

Ainda demoraram até agosto de 1962 a tomar a decisão. Quando se preparavam para gravar "Love Me Do", despediram Pete Best e chamaram Ringo. Brian Epstein foi encarregado de lhe transmitir a notícia — e John, Paul e George não apareceram.

Fernando Silva Salas, escritor e investigador espanhol que passou 25 anos a estudar os Beatles em Hamburgo, não encontra, em declarações à revista ICON, grande mistério musical no afastamento. Pete, sustenta, não era “um baterista suficientemente bom” para a banda que eles começavam a perceber que poderiam tornar-se. Tinha sido contratado à pressa porque a viagem exigia alguém com bateria e, quando o sucesso deixou de parecer impossível, os outros concluíram que não chegariam lá com ele. 

Pete era popular entre os fãs de Liverpool, Ringo foi recebido com gritos de protesto, mas Hamburgo já fizera o ensaio. Os Beatles tinham ouvido a diferença.

Silva Salas publicou em 2026 "Die Not Hat Ein Ende! Los Beatles, Hamburgo y el Star-Club" — "Acabaram-se as dificuldades! Os Beatles, Hamburgo e o Star-Club" —, um volume de mais de 600 páginas dedicado à cidade, aos clubes e às histórias que durante décadas foram sendo repetidas, corrigidas e ornamentadas. O título recupera a frase do cartaz de inauguração do Star-Club. "Foram muitos anos de trabalho e investigação", explica Silva Salas na mesma entrevista à ICON. A ideia começou a formar-se depois da sua primeira viagem a Hamburgo, em 2000. Nas duas décadas e meia seguintes, consultou arquivos alemães, entrevistou testemunhas e estudou os edifícios onde a história aconteceu.

À ICON, explica que lhe interessa aquilo a que os romanos chamavam "genius loci", o espírito protetor de um lugar. Não apenas o que aconteceu numa sala, mas o que a sala permitiu que acontecesse. 

Silva Salas explicou à ICON que quis contar a história dos lugares dos Beatles em Hamburgo e revelar o espírito que conservaram. Essa atenção aos espaços ajuda a perceber por que razão a cidade não pode ser reduzida a uma coleção de excessos juvenis. O preservativo incendiado, o sexo, as drogas, o rock, mesmo as saudações nazis, ou quartos junto às casas de banho, todos são episódios memoráveis, mas não explicam sozinhos a transformação. 

Hamburgo deu-lhes um palco e tempo suficiente para aprenderem a ocupá-lo, e deu-lhes também pessoas que viram alguma coisa neles antes de a indústria musical ter começado a olhar.

A 10 de abril de 1962, Stuart Sutcliffe morreu em Hamburgo. Tinha 21 anos, sofria havia meses de dores de cabeça intensas e morreu devido a uma hemorragia cerebral. Ao longo dos anos, a morte foi associada a agressões sofridas anteriormente e até a uma luta com Lennon, mas nenhuma ligação foi demonstrada, e a explicação mais aceite aponta para um aneurisma ou uma malformação congénita. Astrid acompanhou-o na ambulância.

Dois dias mais tarde, os Beatles chegaram a Hamburgo para uma nova temporada.

Foi ela quem lhes contou que Stuart estava morto. John perdera o amigo mais próximo daqueles anos, Astrid perdera o homem com quem pretendia casar e Paul perdera alguém com quem competira, mas que também fazia parte da pequena história comum que os unia desde Liverpool. 

Numa carta enviada a Astrid em outubro de 1962, seis meses depois da morte de Stuart, Lennon escreveria: "Serás sempre a Astrid do Stuart para nós”.

A 13 de abril, os Beatles subiram ao palco do recém-inaugurado Star-Club. A vida de uma banda tem esta brutalidade administrativa: morre alguém e à noite há espetáculo. O Star-Club era maior do que os espaços onde tinham começado e queria transformar Hamburgo numa paragem obrigatória para os grandes nomes do rock’n’roll: pelo palco passariam Little Richard, Jerry Lee Lewis, Chuck Berry, Ray Charles, Fats Domino e muitos dos músicos que os Beatles tinham aprendido a imitar. Eles já não eram a banda de emergência enviada por Allan Williams, tinham público próprio, um empresário, uma gravação feita na Alemanha e uma oportunidade prometida em Londres. Ainda tocavam durante horas, mas começavam a perceber que Hamburgo já não era apenas o lugar onde trabalhavam. Era o lugar de onde podiam sair.

Em novembro regressaram ao Star-Club já com Ringo.

Voltaram outra vez em dezembro.

A 31 de dezembro de 1962 fizeram a última atuação na cidade.

Algumas dessas noites foram gravadas num aparelho doméstico. O som é imperfeito, ouvem-se conversas, copos, guitarras ásperas e vozes já cansadas, e não há o rigor dos discos que viriam depois. Há uma banda que toca depressa e com força porque aprendeu que uma sala pode perder-se em segundos ou ganha-se em segundos. 

Poucos meses mais tarde, tudo começaria a mudar. Brian Epstein tratou da apresentação e o produtor George Martin do estúdio, os blusões de couro deram lugar aos fatos e às finas gravatas e as atuações tornaram-se mais curtas. O público deixou de ser composto por marinheiros bêbedos e passou a ser uma massa de adolescentes que gritava antes da primeira nota.

Mas Hamburgo permanecia debaixo da roupa nova e limpinha.

Estava na capacidade de continuarem quando o equipamento falhava, na forma como John e Paul dividiam as vozes, na variedade de um repertório que juntava Little Richard, baladas antigas, canções de musicais e "Bésame mucho" e, sobretudo, na confiança de quatro músicos que já tinham enfrentado uma sala hostil e sabiam que era possível conquistá-la.

Quando gravaram "Please Please Me", o primeiro álbum, tentaram conservar alguma coisa dessa energia. Em "The Beatles Anthology", Lennon diria que o disco era o mais próximo possível do som que tinham diante dos públicos de Hamburgo e Liverpool, mas faltava apenas aquilo que nenhum estúdio podia reproduzir, o ruído das pessoas a bater o pé juntamente com a banda.

Os Beatles no Star-Club, em Hamburgo, em 1962, já endurecidos por meses de concertos intermináveis e a poucos passos de deixarem de ser apenas uma banda de clubes. Foto: Photo 12/Universal Images Group via Getty Images

Voltaram à cidade em junho de 1966.

Já não dormiam atrás de um cinema, nem tocavam sete horas. Deram dois concertos com pouco mais de meia hora cada um e seguiram viagem, enquanto a cidade que os recebera como trabalhadores baratos os recebia agora como a banda mais famosa do planeta. E, mais cedo que tarde, de sempre. 

O Star-Club encerrou na passagem de ano de 1969.

O edifício foi mais tarde destruído por um incêndio. No seu lugar existe uma placa e a memória de uma sala que quase ninguém teria razão para recordar se aqueles rapazes não tivessem passado por lá. O Indra continua aberto e, na Große Freiheit, a história tornou-se roteiro turístico, exposição e negócio. 

Hamburgo chama a si uma parte do nascimento dos Beatles. Não é uma apropriação totalmente injusta ou injustificada.

Ainda hoje se procura separar aquilo que aconteceu daquilo que os Beatles disseram que aconteceu, sim. E sim, as versões mudam, os números divergem e as pequenas histórias tornam-se mais engraçadas cada vez que são contadas. Lennon, por exemplo, compreendia o valor de uma boa lenda e nunca demonstrou grande obrigação de a estragar com exatidão, talvez por isso os anos de Hamburgo tenham sido tantas vezes reduzidos ao pitoresco.

As pastilhas. O fogo. As prostitutas. 

Ou Hitler imitado em palco. 

Um porco chamado Bruno. 

O amigo morto.

Tudo isso pertence à história hoje, mas a história principal é mais simples. Quando chegaram, não sabiam tocar durante uma noite inteira e, quando partiram, sabiam tocar como se a noite não fosse acabar. John Lennon resumiria aqueles anos numa frase que lhe é atribuída no livro "The Beatles in Hamburg" — "Os Beatles em Hamburgo" —, do jornalista britânico Spencer Leigh: "Nasci em Liverpool, mas cresci em Hamburgo”. 

Lennon não queria dizer-nos que a cidade o tornara mais maduro, mais sensato, mais honrado — Hamburgo não tinha esse género de delicadeza. Tornou-o, isso sim, mais resistente, mais rápido e mais perigoso. Em palco, claro. E fez o mesmo aos outros.

Eles deram entrada na cidade sem hotel, sem dinheiro no bolso e sem ninguém que os esperasse. E saíram de lá como os Beatles.


Na capa: Pete Best, John Lennon, Paul McCartney e George Harrison no Star-Club, em maio de 1962, quando Hamburgo ainda os obrigava a tocar durante horas e Ringo Starr ainda não tinha ocupado o lugar atrás da bateria. Foto: Sammlung Horst Fascher – K & K/Redferns

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