Este estudo que durou 15 meses tem resultados surpreendentes: usa uma vacina antiga que pode ser a arma contra as próximas pandemias (e mostrou eficácia de 92% contra a covid)

19 ago, 22:55
Vacina BCG (Paul Kane/Getty Images)

Uma vacina do passado para o futuro? Os especialistas estão otimistas. Mas, ainda assim, pedem também cautela. De toda a maneira: "Se soubéssemos disto logo no início da pandemia de covid-19 teríamos conseguido obter um grande efeito protetor da população durante o primeiro ano da pandemia"

Começou por ser um estudo sobre os efeitos da vacina BCG em pessoas com diabetes tipo 1 mas rapidamente abriu caminho para uma outra investigação - será que uma vacina desenvolvida nos anos 90 pode proteger a população contra outras doenças e pandemias? Os resultados são "promissores", de acordo com os médicos contactados pela CNN Portugal. Ainda assim, é preciso interpretar o estudo "com cautela", avisam.

A vacina da BCG (Bacillus-Calmette-Guerin) foi desenvolvida nos anos 90 para proteger contra a tuberculose. "Trata-se de uma das vacinas mais amplamente administradas a nível mundial, apresentando excelente perfil de segurança, bem como baixo custo", diz Ana Sofia Baptista, correspondente médica da CNN Portugal.

Partindo deste princípio, um grupo de investigadores deu início a um estudo, ainda antes da pandemia de covid-19, para perceber se várias doses da vacina BCG podiam ter algum efeito numa população de diabéticos tipo 1 para os proteger de eventuais infeções. O estudo contou com uma amostra de 144 participantes, dois terços dos quais receberam três doses da BCG antes da pandemia, enquanto os restantes receberam doses placebo.

Em janeiro de 2020, quando começaram a ser conhecidos os primeiros casos de covid-19, os investigadores resolveram testar aquilo que há muito se suspeitava - que a vacina da BCG poderia ter algum efeito protetor contra outras doenças infecciosas, nomeadamente respiratórias.

Assim, durante os 15 meses seguintes, os investigadores acompanharam os 144 participantes para observar a resposta do sistema imunológico dos doentes diabéticos, vacinados com pelo menos três doses da vacina BCG, à covid-19. Os 144 participantes no estudo foram distribuídos de modo aleatório entre dois grupos - um grupo composto por 96 participantes que receberam a vacina BGC e um outro grupo de 48 participantes que receberam injeções de placebo. 

Os resultados surpreenderam tudo e todos - no final dos 15 meses de acompanhamento, seis participantes (12,5%) dos doentes que receberam a injeção placebo foram diagnosticados com covid-19. Pelo contrário, apenas um participante (1%) dos 96 que receberam as doses de BCG ficou infetado. Este grupo também apresentou menor frequência e gravidade de outras doenças infecciosas.

"É um resultado muito significativo. A probabilidade de isto ser um acaso é muito baixa. Em princípio, este estudo sugere que a vacina da BCG terá uma eficácia de 92% para proteger a covid-19", afirma Manuel Magalhães, médico pediatra no Centro Materno Infantil do Norte e no Hospital Lusíadas Porto.

Denise Faustman, a principal autora do estudo, confirma, em entrevista ao New York Times, que "os resultados são tão dramáticos quanto os das vacinadas mRNA da Moderna e da Pfizer". "Vimos uma grande diminuição nas infeções urinárias, menos gripe e menos constipações, menos infeções do trato respiratório e menos sinusites, sintomas que estão muito associados à diabetes", acrescenta a também diretora do departamento de imunobiologia do Massachusetts General Hospital. 

Assim, prossegue a investigadora, a vacina da BCG "parece estar a redefinir a resposta imunitária do hospedeiro para que fique mais alerta" ao contacto com o vírus.

Resultados devem ser interpretados com "cautela"

Apesar de partilhar do otimismo dos investigadores, Ana Sofia Baptista, correspondente médica da CNN Portugal, diz que os resultados têm de ser interpretados "com cautela", tendo em conta, desde logo, a amostra pouco representativa. "O estudo foi realizado numa população relativamente reduzida, com um factor de risco específico - diabetes tipo 1 - e que recebeu várias doses de vacina BCG, pelo que estes resultados não se podem generalizar para outras populações, nem para a população em geral. Para investigar melhor estes resultados, necessitamos de um estudo de maior escala e com um tempo de seguimento mais dilatado", sustenta.

Além disso, prossegue, outros estudos que contaram com uma amostra de maior dimensão não tiveram os mesmos resultados. "Em maio de 2022 foi publicado na revista eClinicalMedicine um ensaio clínico aleatorizado em que não ficou demonstrado efeito protector da revacinação com BCG para prevenção contra a doença e hospitalização por covid em profissionais de saúde. O estudo incluiu um total de 1000 participantes", assinalou a médica.

Em declarações ao New York Times, Denise Faustman argumenta que a sua investigação demonstra que é necessário algum tempo para que a vacina da BCG consiga chegar ao seu máximo potencial para que possa realmente chegar ao efeito protetor desejado.

Uma vacina do passado para o futuro?

Agora que têm uma noção dos efeitos da BCG em relação à covid-19, os investigadores querem ir mais longe: procurar perceber até que ponto esta vacina pode ser utilizada para combater uma próxima pandemia, seja provocada pelo coronavírus, por uma estirpe mortal do vírus influenza ou por um outro agente patogénico desconhecido.

Trata-se agora de uma investigação "para o futuro", disse Mihai Netea, médico especializado em doenças infecciosas, imunologia e saúde pública, em declarações ao New York Times. Netea já solicitou a realização de ensaios clínicos mais amplos da BCG e outras vacinas que "treinam o sistema imunológico" com esse mesmo objetivo.

"Se soubéssemos disto logo no início da pandemia de covid-19 teríamos conseguido obter um grande efeito protetor da população durante o primeiro ano da pandemia", sugeriu.

A Open Source Pharma Foundation, uma organização internacional sem fins lucrativos que procura desenvolver novas terapias acessíveis nos países em desenvolvimento, já demonstrou interesse em redirecionar vacinas sem patente para o combate de eventuais pandemias no futuro. 

"Imaginem se pudéssemos utilizar vacinas existentes para conter pandemias. Isso mudaria a história mundial", disse o presidente daquela fundação, Jaykumar Menon.

Devemos continuar a vacinar as crianças com a BCG?

Mas este estudo levanta uma outra questão: será que devemos continuar a vacinar todas as crianças com a BCG? Quem coloca esta questão é o médico pediatra Manuel Magalhães, que lembra que a vacina da BCG deixou de ser administrada a todas as crianças em 2016. Desde então passou a ser apenas recomendada a "crianças menores de 6 anos de idade, desde que pertençam a grupos de risco", isto é, "as crianças provenientes de países com elevada incidência de tuberculose e as que coabitam com pessoas naturais destes países são elegíveis".

A decisão prende-se com o facto de Portugal ter conseguido diminuir a incidência da tuberculose. Em 2016 tinham sido registados menos de 20 casos por 100 mil habitantes; em 2020 foram registados 13 casos por 100 mil habitantes.

O médico pediatra não põe em causa o Programa Nacional de Vacinação, considerando-o mesmo "um bom programa", inclusive para a tuberculose. Agora, se realmente se comprovar a eficácia da BCG na proteção contra outras infeções, Manuel Magalhães considera que é uma questão que pode ser levantada.

"[Para já] não podemos dizer agora que 'se calhar devíamos continuar a vacinar todas as crianças'. Mas fica aqui uma porta aberta para essa possibilidade", sugere.

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