“Enquanto não houver sinais óbvios de subida de desemprego, o BCE deve concentrar-se no combate à inflação”: João Borges Assunção

27 out, 08:00
João Borges Assunção

Economista considera inevitável e necessária a subida de taxas de juro pelo BCE. “Caso a economia da zona euro entre numa situação de estagflação, a componente de preços dessa situação resulta em parte da inação do BCE”

O economista João Borges Assunção considera que o BCE foi muito lento “a reagir” à inflação. Para o coordenador do Católica-Lisbon Forecasting Lab, pareceu mesmo que, numa primeira fase, a instituição liderada por Christine Lagarde “até gostava dos efeitos positivos da inflação”.

Em entrevista por escrito, o economista sublinha que se o BCE está satisfeito com a elevada inflação atual “deve assumir isso publicamente”.

Os dados da inflação aparentam que ainda não estamos no pico da subida dos preços e todos esperam que o Banco Central Europeu (BCE) volte a subir as taxas de juro esta quinta-feira. Este é um caminho inevitável? Não há outras alternativas para travar a subida de preços?
Uma subida das taxas de juro por parte do BCE é inevitável, e mesmo necessária. As taxas de juro negativas são anormais e mesmo um sinal de elevado stress no sistema financeiro. Mesmo taxas de juro inferiores a 2% são historicamente muito baixas e retiram margem de manobra à política monetária. A ideia de que a zona euro está numa crise desde 2008, catorze anos, portanto, é inconsistente com o conceito de crise, que por definição são fenómenos temporários.

As soluções administrativas de controlo de preços são desadequadas no momento atual. Se vier a haver necessidade de racionamento de alguns bens e serviços na zona euro pode ser necessário introduzir, em simultâneo, preços administrativos para os bens racionados durante um período relativamente curto. Penso que ainda estamos longe desse cenário.

Em rigor o BCE só deveria combater a componente da subida de preços que considera persistente, o que significa que pode tolerar pontualmente, e explicando, algumas subidas de preços superior à casa dos 2%.

Sendo a inflação na Zona Euro explicada essencialmente pelos efeitos económicos da guerra na Ucrânia não corremos o risco de o BCE estar a levar a economia para uma situação de estagflação, com uma recessão, desemprego e a inflação, ainda assim, fora de controlo?
A inflação acima do normal já se vinha a observar antes da invasão da Ucrânia pela Rússia. Na Alemanha a inflação chegou aos 3,1% em julho de 2021, oito meses antes da agressão militar russa. E no caso da zona euro chegou a 3,0% em agosto, no mês seguinte.

A guerra agravou, e muito, o problema da inflação, pelo menos temporariamente. O regime de sanções imposto à Rússia pela comunidade internacional também teve consequências de curto prazo nos preços.

O combate à inflação é o principal mandato do BCE. E neste momento está a falhar no cumprimento da sua missão. Caso a economia da zona euro entre numa situação de estagflação a componente de preços dessa situação resulta em parte da inação do BCE.

Enquanto não houver sinais óbvios de subida de desemprego o BCE deve concentrar-se no combate à inflação. Acima de tudo o BCE deve explicar bem a sua estratégia aos mercados, governos e cidadãos. O problema de credibilidade resulta também da sua estratégia de comunicação.

O BCE foi muito lento a reagir parecendo, numa primeira fase, que até gostava dos efeitos positivos da inflação. Como por exemplo a desvalorização real da dívida dos países mais endividados ou a redução dos custos estruturais dos países com défices de competitividade. Se o BCE está satisfeito com a elevada inflação atual deve assumir isso publicamente.

Em alternativa o BCE pode considerar que a inflação atual se deve a fenómenos temporários ou efeitos nas cadeias de abastecimento perturbados pelas políticas de combate à pandemia. Neste último caso deve clarificar qual a fração da inflação atual que se deve aos excessos da política monetária nos últimos anos. E combater apenas essa parte da inflação.

Finalmente o BCE pode considerar que não precisa de fazer nada para não agravar as finanças públicas dos países mais débeis da zona euro. Se for essa a razão para a escolha do nível de taxa de juro também o deve explicar desse modo.

A ausência de um discurso consistente sugere ausência de liderança na condução da política monetária. O que faz com que pareça que o BCE se limita a seguir a liderança de política monetária da Fed (Reserva Federal norte-americana) com um atraso de seis meses. Isso fere a sua credibilidade institucional.

Há cada vez mais líderes políticos a criticarem a atuação do BCE ou a pedirem que a subida de taxas de juro seja menos agressiva. Este tipo de intervenções são uma ameaça à independência do BCE?
Sim. O BCE parece ser hoje menos independente do poder político do que foi no passado. Em particular parece ter medo das consequências políticas das decisões de política monetária. Por exemplo evitando políticas que poderiam prejudicar governos reformistas e abrir caminho a partidos mais extremistas. 

O papel do BCE não deve ser a tentativa de condicionamento dos resultados eleitorais em cada país. Pelo contrário, a independência política do BCE estaria ao serviço da boa gestão monetária da zona euro liberta dos ciclos eleitorais e das crises políticas.

Claro que as políticas adotadas durante a pandemia obrigaram a uma maior coordenação entre a política orçamental conduzida pelos governos e a monetária conduzida pelo BCE. Essa coordenação foi positiva e útil já que no contexto da crise pandémica os desafios financeiros das políticas de confinamento foram totalmente inusitados o que, por si só, justificou um grau de coordenação superior ao normal.

Agora estamos num tempo diferente. A inflação tornou-se um problema na zona euro e o BCE tem de assumir as suas responsabilidades. No quadro da governação europeia é aliás a única entidade que o pode fazer.

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