Ninguém parece ter dúvidas que a presidente do BCE, Christine Lagarde, irá anunciar uma subida de juros. A grande incerteza será o que acontecerá até ao final do ano, mas pelo menos mais uma subida parece inevitável. Independentemente do que vier a acontecer, prestação da casa vai sofrer
O Banco Central Europeu (BCE) deverá voltar a subir taxas de juro esta quinta-feira de forma a tentar controlar a pressão inflacionista que se faz sentir na zona euro. Uma escalada dos preços que em maio acelerou para uma taxa de 3,2% e que resulta do conflito no médio oriente, cuja consequência económica mais visível é um acentuado crescimento do preço dos bens energéticos.
O novo aperto na política monetária que agora é dado como certo dificilmente seria previsível há um ano, precisamente quando o BCE decidiu descer a sua principal taxa de referência, a taxa de depósitos, de 2,25% para 2%. Na altura acreditava-se que a zona euro estaria a entrar num período de estabilidade de preços e de taxas de juro, isto depois de a taxa de inflação ter chegado a ultrapassar os 10% em resultado da invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, o que levou, por seu lado, o BCE a subir a taxa de depósito até aos 4%.
Mas se há um ano a instituição com sede em Frankfurt, na Alemanha, descia juros, esta quinta-feira ninguém parece ter dúvidas de que o movimento será o inverso, com o BCE a passar a sua taxa de depósitos de 2% para 2,25%. “Tendo em conta as declarações das últimas semanas por parte de vários e influentes membros do BCE, a decisão será, muito provavelmente, de uma subida dos juros de referência em 25 pontos base”, salienta Filipe Garcia, economista e presidente da IMF - Informação de Mercados Financeiros.
“O mercado monetário desconta praticamente como certa uma subida de 25 pontos-base, elevando a taxa de depósitos do BCE de 2% para 2,25%”, salienta, por sua vez, Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa. Para este especialista, “a probabilidade implícita dessa decisão é atualmente de 100%, pelo que uma manutenção das taxas seria uma surpresa para os investidores”. E “há mais de uma década que o BCE não desilude os investidores, tendo adotado uma postura idêntica ao banco central dos EUA (Reserva Federal), de diálogo implícito com os mercados”, relembra Paulo Monteiro Rosa.
Uma convicção partilhada pelo departamento de estudos económicos e financeiros do BPI que, numa nota publicada na semana passada, atribuía uma “alta probabilidade” a uma subida de taxas de 0,25 pontos percentuais. Segundo a mesma nota, esta subida é sugerida “por praticamente todas as declarações recentes do BCE e os mercados estão a descontá-lo com uma probabilidade superior a 95%”. Ainda segundo a mesma nota, a subida de juros deve ser encarada como uma medida “preventiva” face à subida dos preços uma vez que “o BCE não pode contrariar o efeito direto que os preços mais elevados da energia têm na inflação”, mas quer evitar “que o impacto se espalhe para os restantes preços do cabaz do consumidor”.
Uma subida certa. E depois?
E havendo uma quase certeza sobre a subida de juros, as dúvidas recaem sobre quais serão as indicações que a líder do BCE, Christine Lagarde, irá dar na habitual conferência de imprensa que se seque à reunião do Conselho de Governadores.
Para Paulo Monteiro Rosa, o mais provável é que o BCE “mantenha a porta aberta a novas subidas”, até porque as expectativas atuais do mercado “apontam para um novo ciclo de aperto monetário ao longo de 2026”. Ainda assim, prossegue o economista, “não é esperado que o BCE fixe uma data quanto a novas subidas, mas que refira que vai esperar para avaliar a evolução do conflito no Médio Oriente e dos preços do petróleo”.
Sem saber quais serão as declarações da líder do BCE, para já, “o mercado antecipa uma subida adicional de 25 pontos base para os 2,50% na taxa de depósitos no final no verão, na reunião de 10 de setembro, e uma terceira subida na última reunião de 2026, mas aqui a incógnita permanece e a probabilidade de uma terceira subida em 2026 é de 70% atualmente”, explica o economista, adiantando que “caso os preços da energia e do petróleo continuem pressionados pelo conflito no Médio Oriente, as taxas poderão subir mais do que o atualmente descontado”.
Já para Filipe Garcia, o mais provável é que o BCE “mantenha a perspetiva de que a sua atuação estará dependente dos dados” e nesse sentido, adianta que a reunião de setembro – quando serão atualizadas as previsões económicas, tal como no dia 11 – “ganhará especial importância”. Ou seja, “o BCE deverá deixar as suas opções em aberto, pelo que não deverá transmitir que a subida da próxima semana será a única”. O economista relembra, no entanto, que “os mercados descontam totalmente a subida da desta quinta-feira feira, uma outra em setembro e parcialmente mais uma subida até ao final do ano. Portanto, duas subidas estão descontadas, com possibilidade de uma terceira”.
Também do lado do BPI, a expetativa é de que a taxa de depósitos do BCE “suba para 2,50% em 2026 e se mantenha nesse nível durante alguns trimestres, até ao final de 2027, quando a queda da inflação permitir ao BCE normalizar as taxas”, ainda assim, segundo a mesma nota, “os mercados financeiros apostam entre dois a três aumentos de taxas em 2026 e uma [taxa] estável de 2,75% ao longo de 2027”.
Perante as dúvidas, prestação do crédito vai subindo
Com a expetativa de que o BCE vai subir taxas de juro, as taxas Euribor têm antecipado este movimento e acompanhado a subida, o que se reflete na prestação a pagar ao banco dos titulares de contrato de crédito à habitação.
A média das taxas Euribor em janeiro era de 2,028%, no caso da Euribor 3 meses, de 2,137% na Euribor 6 meses e de 2,245% na Euribor 12 meses. Em maio, estes valores passaram, respetivamente, para 2,224%, 2,536% e 2,804%. E em junho, com os dados disponíveis é possível verificar que a subida continua, o que levará a que quem tenha o seu contrato a ser revisto no próximo mês venha a sentir uma nova subida na prestação a pagar ao banco.
Por exemplo, num contrato de 200 mil euros com prazo de 30 anos, indexado à Euribor 6 meses, com um spread (margem do banco) de 1%, e tendo apenas em conta os dados da Euribor até dia 9 de junho, o impacto na prestação a pagar ao banco seria de quase 43 euros, passando de uma prestação de 865 euros para uma prestação de cerca de 908 euros.
Já para um contrato igual, mas indexado à Euribor 12 meses, o aumento da prestação seria de quase 76 euros, passando de uma prestação de 861 euros para uma prestação de 937 euros.
