Ataque ao Irão pressiona taxas Euribor e já ameaça prestações do crédito à habitação

11 mar, 07:00
Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu - BCE (AP Photo/Michael Probst, File)

Banco Central Europeu terá decisão sobre taxas de juro na próxima semana, mas ainda sem dados sobre a inflação de março. Prestação da casa pode sofrer já em abril consequências do ataque ao Irão, mas efeitos só serão significativos se instabilidade de mantiver

O efeito do ataque dos Estados Unidos da América (EUA) e de Israel ao Irão já se está a fazer sentir nas taxas de juro, fazendo subir as taxas Euribor para valores que num dos prazos já não se registava há um ano.

A Euribor 12 meses registou esta terça-feira um valor de 2,552%, o mais alto desde janeiro do ano passado. E olhando apenas para o início do ataque ao Irão, a subida neste prazo é de 0,33 pontos percentuais. Nos restantes prazos, a Euribor 6 meses, o indexante mais utilizado no crédito à habitação em Portugal, também está a subir e atingiu os 2,295%, um valor que já não se registava desde abril de 2025. Por último, a Euribor 3 meses subiu esta terça-feira para os 2,138%, um valor que não se registava desde maio do ano passado.

A subida das taxas de juro está diretamente ligada às consequências decorrentes do ataque dos EUA e de Israel ao Irão. Após o ataque, o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial, tornou-se intransitável e o preço do petróleo disparou. O barril de Brent, que serve de referência para a Europa, chegou a negociar a um valor próximo dos 120 dólares por barril no início desta semana, estando agora a negociar em torno dos 90 dólares por barril, ainda assim, cerca de 20 dólares acima do valor que se registava antes do início do conflito.

Com a subida do preço do petróleo aumentaram de forma quase imediata os preços de venda ao público dos combustíveis e aumentaram os receios de que este aumento se estenda ao resto da atividade económica, criando uma bolha inflacionista cuja dimensão será tanto maior quanto mais tempo durar a atual situação. Perante este cenário de incerteza também aumentaram os receios de que o Banco Central Europeu (BCE) suba as suas taxas de juro de referência (a taxa de depósitos está nos 2%) para travar uma eventual subida generalizada dos preços.

São estes receios que, na prática, estão a puxar pelas taxas Euribor, um aumento que caso se mantenha, pode vir a ter consequências para a carteira das famílias já em abril, caso seja esse o mês da revisão dos seus contratos.

A título de exemplo, e levando apenas em linha de conta os sete dias úteis do corrente mês, se fosse esse o valor das taxas médias das Euribor do total de março, em abril haveria uma subida, ainda que ligeira, da prestação a pagar ao banco para os detentores dos contratos indexados à Euribor 3 meses e 6 meses. Apenas os contratos indexados à Euribor 12 meses teriam ainda uma ligeira descida.

Mais uma vez, apenas a título de exemplo, e usando as taxas dos primeiros sete dias úteis de março, num contrato de 200 mil euros a 30 anos, indexado à Euribor 6 meses, com um spread (margem do banco) de 1%, a subida da prestação seria de 5,72 euros, passando de 862,62 euros para 868,34 euros. Mas se as taxas continuarem a subir, o cenário trará, naturalmente, subidas mais significativas.

"Estabilidade" transforma-se em "volatilidade"

Neste momento a incerteza é enorme e a única garantia que parece haver é que o período de estabilidade que se vivia em termos de taxas de juro se transformou num período de volatilidade e instabilidade.

O economista Filipe Garcia, da IMF - Informação de Mercados Financeiros, recorda, em declarações à CNN Portugal, que se assistiu “a uma semana de forte volatilidade nas taxas de juro, transversal aos prazos curtos e longos, impulsionada pelo conflito no Médio Oriente e pelo receio de um ressalto sustentado da inflação” e lembra as declarações de vários responsáveis do BCE que revelam, acima de tudo, uma postura de cautela. “Reconhecem o risco real de um agravamento inflacionista caso o conflito se prolongue, mas consideram que a política monetária atual confere margem para aguardar e avaliar se estamos perante um choque transitório ou de efeitos duradouros”, sublinha.

Ainda assim, e mesmo tendo em conta as declarações do presidente norte-americano na segunda-feira em que sinalizou o possível fim da guerra, o economista lembra que, com base na informação desta terça-feira, “o mercado continua a precificar uma probabilidade de 60% de uma subida das taxas do BCE até julho, e de 100% até ao final do ano”.

“O grande catalisador para os próximos meses será o tempo que durar o bloqueio no Estreito de Ormuz. É essa variável que irá ditar se o atual choque no preço do petróleo terá efeitos estruturais na economia e nos preços, ou se será apenas um episódio de curta duração”, conclui Filipe Garcia.

Para João Queiroz, Head of Trading do Banco Carregosa, perante a atual situação “os investidores foram forçados a rever as suas perspetivas sobre a política monetária do BCE - e os contratos de futuros sobre a Euribor refletiram essa mudança de forma abrupta: chegaram a incorporar dois aumentos de 25 pontos base na taxa de depósito ainda neste ano de 2026, uma perspetiva que estava excluída dos cenários dos participantes de mercado no início do ano”. João Queiroz recorda, aliás, que Madis Muller, membro do Conselho do BCE, confirmou que a probabilidade de o próximo movimento de política monetária ser uma subida - e não uma descida - aumentou nas últimas semanas. “Uma admissão com credibilidade atendendo ao histórico de uma instituição avessa a ‘sinalizar’ alterações antes de as decidir”, sublinha o economista.

Mas a prova de que o atual momento é de enorme volatilidade é que depois destas perspetivas dos investidores, e após as declarações de Trump de que a guerra poderia estar perto do fim, as perspetivas mais agressivas foram afastadas, salienta João Queiroz. “Em termos práticos, o que os mercados de futuros estão hoje [ontem] a descontar é que o cenário central permanece suspenso entre dois mundos: nem a retoma da trajetória de cortes de juros prevalecia antes do conflito, nem um ciclo de aperto convicto como o de 2022-2023”, sublinha, concluindo que, “por agora, o mercado está a ganhar tempo e a evitar compromissos que condicionem de modo relevante a formação de expetativas”.

Sem certezas sobre o que irá acontecer nos próximos dias fica uma garantia: o Conselho de Governadores do BCE reúne-se na próxima semana para decidir o que fazer às taxas de juro. A decisão será conhecida quinta-feira, dia 19, mas será tomada sem serem conhecidos os dados preliminares da inflação na zona euro em março, dados que permitiriam compreender melhor os efeitos da subida do preço do petróleo. Esses dados só serão conhecidos a 31 de março quando o Eurostat, o órgão estatístico da União Europeia, os divulgar oficialmente.

Independentemente da decisão que vier a ser tomada na sede do BCE em Frankfurt, na Alemanha, a conferência de imprensa que será dada pela líder do BCE, Christine Lagarde, deverá dar indicações sobre o que se irá passar no futuro em matéria de taxas de juro.

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