Uma nova análise de manuscritos traz revelações importantes
O conto trágico de Haroldo, o rei que perdeu a Inglaterra para Guilherme, o Conquistador, numa batalha infame, continua a ter grande destaque na cultura popular britânica. Mas essa história pode precisar de um "reset", de acordo com uma nova investigação.
A Batalha de Hastings, em 1066, pôs fim ao curto reinado de Haroldo, o último rei anglo-saxónico, e deu início ao reinado de Guilherme, Duque da Normandia, como líder da Inglaterra, mudando para sempre o país, tal como a história é contada na televisão, em podcasts e nas salas de aula. Uma nova análise de manuscritos, no entanto, lança uma nova luz sobre a natureza da derrota devastadora de Haroldo.
A árdua marcha de 322 quilómetros que o Rei Haroldo e os seus homens fizeram antes de enfrentarem Guilherme — que supostamente deixou as suas tropas esgotadas e mal preparadas para lutar — nunca aconteceu na realidade, diz Tom Licence, professor de história e literatura medieval na Universidade de East Anglia, no Reino Unido. Em vez disso, Licence argumenta que as tropas fizeram essa viagem para sul por navio.
"1066 continua a ser uma das poucas datas que praticamente toda a gente conhece", diz Rory Naismith, professor de história inglesa medieval na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, que não esteve envolvido na investigação. "É um ponto de viragem na história inglesa, em que um regime político foi derrotado e rapidamente substituído por outro, com enormes consequências para a identidade cultural e institucional do reino. Os desenvolvimentos de 1066 são, portanto, cruciais para compreender tudo o que veio depois."
Reexaminando o registo
A ideia de que os homens de Haroldo percorreram 322 quilómetros em 10 dias após uma batalha duramente vencida em Stamford Bridge, perto de York, contra o líder viking Harald Hardrada — outro rival pelo trono — há muito que parecia improvável a Licence e a outros historiadores, dadas as distâncias envolvidas.
A história da dramática marcha por terra foi, em grande parte, uma interpretação vitoriana que se manteve, explica Licence. As suas origens remontam a uma referência mal compreendida ao envio da frota de Haroldo "para casa" na "Crónica Anglo-Saxónica", um relato de acontecimentos importantes escrito em inglês antigo pelo clero da época. Na interpretação anterior, "enviado para casa" significava dissolvido, com os navios enviados para os seus portos de origem. Ao rever a crónica, Licence encontrou repetidas referências a "casa" significando Londres, onde o Rei Haroldo estava sediado.
"Apercebi-me de que quando ele diz 'a frota regressou a casa', não quer dizer que a frota foi enviada para os seus vários portos. A frota foi enviada para a sua casa, Londres", diz, referindo-se a um dos autores das crónicas.
Para recapitular: Haroldo começou por navegar a sua frota para norte, onde enfrentou com sucesso o líder viking Harald Hardrada e a sua força norueguesa a 26 de setembro de 1066. Em seguida, regressou com ela para Londres. "Em vez de esgotar os seus homens naquela marcha para sul, que, evidentemente, foi responsabilizada pela derrota inglesa, ele teve a oportunidade de os descansar", acrescenta Licence.
Depois, Haroldo e alguns dos seus homens viajaram por terra para sul, em direção a Hastings, para enfrentar o Duque da Normandia. Entretanto, segundo Licence, Haroldo também enviou navios para Hastings para tentar um movimento de pinça para encurralar Guilherme a partir do sul, mas a frota chegou demasiado tarde para alterar o curso da devastadora batalha, que decorreu a 14 de outubro.
CNN // Universidade de East Anglia // Ilustrador - Beth Spencer
Naismith diz que concorda com a nova interpretação. "Os ingleses tinham uma grande frota de navios de mar e há provas abundantes de navegação para cima e para baixo na costa leste na época da Conquista Normanda", afirma. "Um papel mais importante destes navios nos acontecimentos de 1066 faz todo o sentido e demonstra a capacidade de Haroldo para utilizar os recursos de que dispunha."
A marcha do exército inglês para sul sempre fez parte da identidade romântica de Haroldo, diz Duncan Wright, professor catedrático de arqueologia medieval na Universidade de Newcastle, em Inglaterra. Haroldo é conhecido como o último rei anglo-saxónico que lutou corajosamente contra as ameaças de invasão, mas cujos esforços acabaram por ser inúteis, acrescenta Wright. A marcha inspirou encenações em grande escala, incluindo uma em 2016 para o 950.º aniversário que envolveu 1.066 pessoas.
"De facto, hoje em dia, os ingleses continuam a gostar muito de um 'bravo perdedor'", afirma Duncan Wright, numa mensagem por e-mail.
"Esta nova leitura também mostra o legado duradouro da compreensão vitoriana do passado e a forma como os factóides se podem transformar em cânones históricos; quando questionamos essas tradições, isso pode resultar em novas e valiosas compreensões do passado, como vemos aqui", acrescenta.
A nova interpretação mostra que o Rei Haroldo era um comandante competente, diz Licence, e não imprudente e impulsivo: "Penso que foi mesmo uma questão de sorte. Podia ter sido o Guilherme naquele dia. Podia ter sido o Haroldo".
Os historiadores desmascararam também outra história de longa data associada à Batalha de Hastings. Uma cena famosa na Tapeçaria de Bayeux, que retrata a batalha na perspetiva normanda, mostra Haroldo atingido por uma seta no olho. De facto, as fontes mais antigas descrevem Haroldo a ser cortado até à morte às mãos de quatro cavaleiros normandos.
A Tapeçaria de Bayeux viajará de França e será exposta na Grã-Bretanha pela primeira vez no final deste ano, no Museu Britânico, em Londres.
Licence apresentou recentemente o seu trabalho numa conferência na Universidade de Oxford e a investigação será também incluída numa futura biografia do Rei Haroldo escrita por ele.