A queda de um ditador é frequentemente celebrada como o início de uma nova era. Contudo, a história alerta-nos: libertar-se de um regime autoritário não significa, necessariamente, que um líder comprometido com os direitos humanos e a pluralidade tomará o seu lugar. Na Síria, a brutalidade de Bashar al-Assad deixou um vazio de poder, e todas as atenções estão agora voltadas para Abu Mohammad al-Golani, o líder mais apontado para assumir as rédeas do país. Mas será ele a figura que finalmente trará estabilidade e justiça aos sírios, ou estarão eles apenas diante de uma nova forma de opressão, disfarçada por promessas de mudança?
É compreensível que a população sinta alívio. Afinal, não se trata apenas de se libertar do ditador Bashar al-Assad, que deixou um rasto de autoritarismo, mas também de um regime cuja brutalidade foi amplamente documentada. De acordo com a organização Syrian Network for Human Rights, desde 2011, ele foi responsável por mais de 157 mil detenções arbitrárias – entre estas, 10 mil mulheres e 5 mil crianças. A violência não ficou por aqui. Sob o comando deste regime, 230 mil civis foram mortos, incluindo 30 mil crianças e 29 mil mulheres. E, como se não bastasse, mais de 1.514 pessoas – 262 mulheres e 214 crianças – literalmente sufocaram até à morte em ataques com armas químicas, um método que deveria envergonhar até os mais desprezíveis déspotas da história.
Entre os agentes químicos utilizados encontra-se o sarin, uma substância que age com precisão cirúrgica na destruição do corpo da vítima. Este invade o sistema nervoso, bloqueando enzimas essenciais que controlam os impulsos nervosos. Em questão de minutos, os músculos do corpo entram em contracção constante, como se fossem constantemente apertados por mãos invisíveis. O peito enrijece, cada respiração torna-se um acto impossível, e a vítima sente os pulmões arderem enquanto tenta desesperadamente puxar ar que nunca chega. O sarin força o corpo a sufocar no próprio muco, enquanto olhos e boca derramam fluidos de forma incontrolável. A vítima permanece consciente durante boa parte do processo, sentindo cada segundo da agonia crescente, até que o coração, em colapso total, para. Não há alívio, apenas um tormento insuportável que termina numa morte rápida, mas de um sofrimento indescritível. Sim, foi isto que o governo de Assad fez contra a sua própria população, que teoricamente deveria proteger.
Estas atrocidades somam-se a uma longa lista de crimes de guerra, como bombardeamentos deliberados contra estruturas civis, incluindo hospitais — acções que violam directamente o direito internacional humanitário.
É absolutamente natural que grande parte dos cerca de 23 milhões de habitantes do país celebre a queda de um regime responsável, segundo a Agência para os Refugiados das Nações Unidas, pelo deslocamento de 13,4 milhões de pessoas – incluindo 6,2 milhões de refugiados e requerentes de asilo no estrangeiro. E quem pode esquecer a imagem de Alan Kurdi, o menino sírio de apenas 3 anos, encontrado morto numa praia na Turquia após a sua família tentar cruzar o Mediterrâneo? A fotografia, que em 2015 fez o mundo chorar, tornou-se rapidamente um emblema de uma dor que, para muitos, durou o tempo de um clique e foi convenientemente esquecida.
Para os sírios, esse sofrimento não é uma excepção nem um momento trágico isolado. É uma realidade esculpida ao longo de décadas de opressão sob a família Assad. O regime não apenas destruiu vidas, mas desmantelou o próprio conceito de lar, tornando-o inatingível para milhões. A guerra civil iniciada em 2011 foi apenas o auge de uma história de repressão e violência estatal que transformou o país num sinónimo de tragédia humanitária.
A comemoração pela queda deste regime não é apenas compreensível; é uma declaração de sobrevivência em meio ao caos. Sob a autocracia da família Assad, a Síria mergulhou num colapso económico e humanitário devastador. De acordo com dados da ONU, mais de 90% da população vive hoje abaixo da linha da pobreza. Trata-se de um regime que sempre priorizou o próprio enriquecimento e segurança em detrimento do sofrimento da sua população. O seu fim traz uma centelha de esperança: a possibilidade de reconstrução e mudança para um povo exausto após décadas de opressão e desespero.
No entanto, essa nova esperança está longe de ser isenta de preocupações. Ela encontra-se, em grande parte, na figura de Abu Mohammad Al-Golani, líder do Hayat Tahrir al-Sham (HTS) – o mais poderoso grupo armado de oposição da Síria e responsável pela queda do regime de Assad. Este cenário levanta uma questão importante: a Síria está realmente a libertar-se ou apenas a trocar um tirano por outro? Al-Golani, líder do HTS, é menos perigoso que o regime deposto, ou o futuro reserva apenas outra forma de opressão?
Nascido como Ahmed Hussein al-Sharaa, em 1982, em Riade, na Arábia Saudita, al-Golani mudou-se para o Iraque em 2003, onde se juntou à Al-Qaeda para combater as forças dos Estados Unidos. Em 2006, foi capturado pelas tropas norte-americanas e permaneceu preso durante cinco anos. Após a sua libertação, em 2011, regressou à Síria no início da Guerra Civil. Lá, fundou a Jabhat al-Nusra, concebida inicialmente como uma ramificação da Al-Qaeda no Iraque, que mais tarde evoluiu para o Estado Islâmico (ISIS).
A Jabhat al-Nusra rapidamente tornou-se um dos grupos jihadistas mais influentes na Síria. Em 2013, apenas 11 anos atrás, o grupo de al-Golani entrou em conflito com o Estado Islâmico, liderado por Abu Bakr al-Baghdadi, que tentava absorver a al-Nusra sob o controlo do ISIS. Mas al-Golani, não exatamente um entusiasta de ser comandado, rejeitou a ideia e jurou lealdade diretamente à Al-Qaeda central. O resultado? Uma rutura definitiva e uma rivalidade implacável entre dois grupos cuja disputa não era de princípios, mas de poder num cenário já devastado pela violência.
Al-Golani rompeu com a Al-Qaeda em 2016, há apenas 8 anos, mas não devido a uma epifania moral ou por discordar do extremismo violento que sempre definiu o grupo. A decisão foi puramente pragmática: reformular a Jabhat al-Nusra como Jabhat Fatah al-Sham foi uma jogada para tentar ganhar legitimidade local, conquistar o apoio da oposição síria e escapar do rótulo que tornava o grupo um alvo óbvio das potências ocidentais. Ele percebeu que continuar ligado à Al-Qaeda apenas aceleraria o isolamento internacional, ameaçando as suas ambições de controlo territorial na Síria. A rutura, portanto, não foi um passo em direção à moderação, mas um movimento calculado para camuflar a mesma agenda extremista sob uma fachada mais aceitável.
Em 2017, no ano seguinte, al-Golani deu mais um passo calculado, fundindo o grupo recém-reformulado com outras facções para criar a Hayat Tahrir al-Sham (HTS). A manobra procurava reposicionar o HTS como uma força síria local e independente. A partir de 2018, o HTS tornou-se a força dominante na província de Idlib. Desde 2021, o grupo intensificou os esforços para se projetar como uma oposição local ao regime de Assad, em vez de um movimento extremista.
Esse reposicionamento ficou evidente até na aparência de al-Golani, que passou por uma transformação digna de um reality show de makeover. As tradicionais vestes militares e islâmicas deram lugar a fatos e camisas sociais, num visual mais ocidentalizado. Nem a barba escapou: aparada e ajustada, agora reflete menos a imagem de um líder extremista e mais a de um aspirante a político respeitável. A mensagem era clara: não era apenas a narrativa que estava a ser reformulada, mas também a persona pública do seu líder. Em outras palavras, se não pode mudar a essência, pelo menos mude o figurino.
Por mais que al-Golani tente repaginar a sua imagem, as suas raízes ideológicas permanecem manchadas de sangue e violência. Ele começou a sua militância na mesma Al-Qaeda que, a 11 de setembro de 2001, transformou aviões comerciais em projéteis de terror, despedaçando edifícios, vidas e famílias, deixando 3 mil mortos e uma cidade envolta em cinzas. A mesma Al-Qaeda que, em 2004, reduziu vagões de comboio a pilhas de corpos mutilados em Madrid, matando quase 200 pessoas e ferindo mais de 2.000. E, mesmo após se distanciar, as suas conexões ideológicas ecoam no Estado Islâmico, o grupo que escravizou mulheres, executou prisioneiros em estádios como se fossem espetáculos e que, em 2015, transmitiu ao mundo a imagem macabra de 21 cristãos egípcios ajoelhados, vestidos de laranja, antes de serem decapitados numa praia.
Entregar o controlo sobre a vida de milhões a alguém que, em algum momento, foi conivente, aliado ou diretamente envolvido com grupos que perpetraram atrocidades inimagináveis é um risco que a Síria – ou qualquer nação – não pode correr. Al-Golani pode agora falar em pluralidade e governança representativa, mas as suas acções e relações passadas contam uma história muito diferente. Ele pertenceu a organizações que usaram o terror como método, massacraram civis sem piedade e trataram a violência como um idioma político. Essas marcas não se apagam com fatos bem cortados ou discursos cuidadosamente calculados. Por mais que agora ele prometa uma nova Síria multiétnica, as suas palavras são fracas diante do peso das suas alianças passadas.
Por mais que al-Golani tente distanciar-se das suas raízes na Al-Qaeda, as práticas do HTS permanecem um testemunho aterrador do seu desprezo pelos direitos humanos e pela pluralidade que agora afirma defender. Um relatório da Human Rights Watch, de 2019, revelou as táticas brutais do grupo, classificado como organização terrorista pela ONU, União Europeia e Estados Unidos. Entre os métodos descritos encontram-se detenções arbitrárias, tortura sádica e uma repressão implacável à dissidência.
Os relatos são de puro horror. Um homem foi pendurado de cabeça para baixo num poste, o seu corpo a lutar contra a gravidade, enquanto os interrogadores o pressionavam durante horas intermináveis. Outro foi enjaulado numa cela metálica tão minúscula e sufocante que lembrava um caixão. Um terceiro descreveu sessões de tortura nocturnas em que era torcido dentro de um pneu, como uma ferramenta descartável, enquanto recebia golpes incessantes – uma prática conhecida como dulab, desenhada para maximizar a dor e a humilhação.
E a crueldade não se limita aos prisioneiros. Jornalistas, que ousam reportar a verdade, são perseguidos, intimidados e silenciados. Com um histórico tão marcado por brutalidade, é possível realmente acreditar que a HTS representa mudança, ou os sírios estão apenas diante de uma nova face da opressão, pronta para esmagar qualquer oposição sob o peso das suas próprias sombras?
Há motivos de sobra para desconfiar das intenções de al-Golani, especialmente quando consideramos os precedentes históricos da região. Na Líbia, Gaddafi chegou ao poder nos anos 1960 prometendo eliminar a corrupção e trazer igualdade e justiça social. O que os líbios realmente receberam foram execuções públicas, algumas exibidas na televisão estatal como espectáculo de terror, repressão brutal e milhares de mortes. A história é familiar: Ben Ali, na Tunísia; Bouteflika, na Argélia; Nasser, no Egipto; Saddam Hussein, no Iraque – todos chegaram ao poder vendendo a promessa de libertação e reforma, mas os seus governos tornaram-se sinónimos de opressão, abusos e autoritarismo.
E agora, com um líder como al-Golani, que já traz na bagagem alianças com grupos extremistas, métodos brutais e um passado encharcado de violência, seria diferente? Ou estamos, mais uma vez, diante de alguém que veste um manto de mudança apenas para perpetuar o mesmo ciclo de tirania que a região conhece tão bem?
Independentemente do desfecho, uma coisa é certa: a Síria de hoje é um país profundamente fragmentado e plural. Qualquer governo liderado por al-Golani só poderia ser minimamente considerado legítimo se garantisse verdadeira representatividade a outros grupos, não apenas num eventual governo, mas também durante o processo de transição, que precisaria ser o mais inclusivo e participativo possível.
Para isso, o líder do HTS enfrentará desafios enormes. Não apenas terá de convencer as lideranças de outros grupos rebeldes a apoiá-lo, mas também precisará, inevitavelmente, enviar sinais de abertura à comunidade internacional – um gesto indispensável para conquistar qualquer tipo de aceitação fora das fronteiras sírias. Sem esses passos, a sua liderança estará condenada a ser vista como mais uma imposição autoritária, incapaz de refletir a complexidade e a diversidade de um país em ruínas.
A transição de poder na Síria traz um paradoxo inquietante: a celebração pela queda de um ditador é rapidamente ofuscada pelo espectro de outro, vestido com uma retórica de mudança que não resiste à análise. Abu Mohammad al-Golani, com o seu passado enredado em extremismo e brutalidade, infelizmente não oferece garantias de pluralidade ou respeito pelos direitos humanos – apenas a mesma violência reciclada num novo discurso. Se o HTS de facto liderar este novo capítulo, os sírios poderão descobrir que trocaram o carrasco, mas não a forca. Sem gestos concretos que sinalizem uma ruptura genuína com o passado, o futuro da Síria corre o risco de ser apenas um eco perverso da sua história mais sombria.