Perante os ataques ao Irão, o Governo português disse que impôs aos EUA um conjunto de condições, mas, no entender de Pacheco Pereira, "os EUA não estão a cumprir nenhuma dessas condições" e o ministro dos Negócios Estrangeiros está a "tomar-nos por parvos"
José Pacheco Pereira criticou a postura do Governo português em relação à utilização do Base das Lajes por parte dos EUA, afirmando que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, fez os portugueses de "parvos".
"Nós temos uma base militar relevante, quer se queria quer não, neste esforço de guerra. E o que aconteceu é que o ministro dos Negócios Estrangeiros veio tomar-nos por parvos", disse Pacheco Pereira, no programa O Princípio da Incerteza desta semana.
Apontando que "o Governo tem toda a legitimidade para tomar a posição que entender" no que diz respeito ao uso, por parte dos norte-americanos, da Base das Lajes, nos Açores, o comentador acusou o Executivo de tentar "enganar" os portugueses ao afirmar que, até aos ataques conjuntos dos EUA e Israel contra o Irão, a autorização da Base das Lajes não implicava qualquer pedido de autorização especial.
"Mesmo que fosse mais do que óbvio que o movimento na base - particularmente o movimento de um conjunto de aviões que são fundamentais para o reabastecimento - era extraordinário", notou o comentador.
"Dizer que não se sabia que os EUA iam atacar em função daquilo que já era evidente, pelo menos no que diz respeito à Base das Lajes, e depois dizer que no dia do ataque - já o ataque se tinha anunciado - é que os EUA fizeram aquilo que tinham de fazer na base do Acordo, é evidentemente enganar-nos, porque o Governo português não podia ter assistido àquele movimento militar sem pelo menos se perguntar o que é se que estava a passar", considerou José Pacheco Pereira.
Perante os ataques ao Irão, o Governo português disse que impôs aos EUA um conjunto de condições. "A primeira é que seja uma resposta, a tal ideia defensiva, aquilo que se chama retaliação. Depois, necessário, isto é, tem de responder ao princípio da necessidade e da proporcionalidade. Só pode visar alvos de natureza militar. Fomos ao direito internacional buscar estes três critérios. Tem de ser defensiva, não pode ser algo que está a começar, tem de ser necessária e proporcional e só pode visar alvos de natureza militar”, concretizou Paulo Rangel, em entrevista à CNN Portugal na segunda-feira passada.
No entender de Pacheco Pereira, "os EUA não estão a cumprir nenhuma dessas condições", sublinhando, desde logo, que "os ataques [contra o Irão] não são exclusivamente feitos a bases militares", apontando como exemplo o ataque contra uma escola que matou 150 meninas Irão.
"Os EUA não estão a cumprir aquilo que o Governo português lhe pediu para poder utilizar a Base das Lajes e, nesse sentido, o Governo português tem de dizer alguma coisa", argumentou Pacheco Pereira.
Caso contrário, acrescentou o comentador, "passa considerar-se que a Base das Lajes não é de soberania portuguesa, que os EUA podem fazer o que quiserem, que as condições que o Governo colocou aos EUA podem ser incumpridas de forma gritante".
"Era preferível dizer ‘tudo o que os EUA façam com a Base das Lajes, o Governo português assina por baixo’", complementou.