Qualquer operação militar do Irão terá Portugal como centro nevrálgico da estratégia e planeamento. O Governo já deu a sua autorização e, na verdade, "a margem da reação portuguesa" seria sempre "limitada"
A preparar todas as opções para uma grande operação militar contra o Irão, os Estados Unidos fazem da base das Lajes, na ilha Terceira, um dos pontos nevrálgicos de qualquer ação futura. Foi assim no ano passado, com a mítica operação que envolveu bombardeiros B-2, e voltará a ser assim caso Donald Trump dê mesmo a ordem que as negociações vão tentando evitar.
E se Portugal é ponto de passagem, então deve mesmo permiti-lo. A ideia é do major-general Agostinho Costa, que lembra à CNN Portugal que os Estados Unidos "são o nosso principal aliado militar", já que “os outros são uma fantasia”, pelo que “não devemos criar um irritante diplomático”.
"Não vale a pena alimentarmos um caso diplomático por um assunto que não é fundamental. Nós não somos obrigados a saber, nem nos interessa minimamente saber, para onde os aviões norte-americanos vão”, afirma o militar, já depois de o ministro dos Negócios Estrangeiros ter falado numa "autorização tácita" para a utilização da base açoriana.
A reação acontece numa altura em que 15 aviões reabastecedores KC-46 Pegasus da Força Aérea norte-americana continuam estacionados na Base das Lajes. Esta quarta-feira de manhã, segundo apurou a CNN Portugal, além dos 15 aparelhos - na mesma posição há quase uma semana - encontrava-se apenas na pista um C-130 da Marinha norte-americana, uma aeronave normalmente utilizada para transporte de tropas e carga.
“O que interessa saber a Portugal é que aterram aviões americanos no local e que tenham informado as autoridades portuguesas que estão em trânsito pela base nos Açores”, defende Agostinho Costa, sublinhando que “não nos interessa se são aviões que vão participar em exercícios da NATO, se vão fazer rotação com as forças posicionadas na Polónia - têm lá uma unidade aérea -, se são aviões que vão para o Médio Oriente, ou se estão a passar com maior intensidade”.
Na mesma linha, o tenente-general Rafael Martins confirma que existe um dever de notificação por parte dos Estados Unidos sempre que utilizam a Base das Lajes, mas rejeita a ideia de que tal implique revelar intenções estratégicas.
“Os americanos devem notificar o movimento”, explica, detalhando que deve ser comunicado “o tipo de aeronave, quantas pessoas leva, a que horas é que passa, e se precisa de assistência ou não”, ou seja, um procedimento técnico, enquadrado no controlo do espaço aéreo e na gestão operacional da base.
Cenário muda caso as Lajes venham a receber bombardeiros
Para Agostinho Costa, é essencial não misturar planos. “Não devemos confundir uma base de trânsito com uma base que se destina a fazer um ataque”, explica. A Base das Lajes, sustenta, não está a ser usada como plataforma ofensiva, e “não será naturalmente utilizada pelos norte-americanos para atacar diretamente o Irão.”
Para o especialista, a base situada na Ilha Terceira serve, “na prática, como posto de abastecimento de combustível”. Para explicar, Agostinho Costa traça uma metáfora: “Tal como quem viaja para o Algarve pára na A2 para abastecer, também muitos meios norte-americanos utilizam os Açores como ponto intermédio nas ligações entre os Estados Unidos e outros teatros de operações”.
O cenário seria diferente se Washington decidisse posicionar nos Açores uma esquadra de bombardeiros estratégicos, como B-52, B-2 ou B-1. Nesse caso, explica, “antes de pousar, já são obrigados a dizer” ao que vêm. “Se entendessem fazer os ataques a partir dali, naturalmente teriam de pedir autorização a Portugal”, assumindo a base açoriana como “base de partida” ou “base de apoio para a operação aérea”. Ainda assim, considera essa hipótese pouco plausível, até porque existem alternativas mais próximas, como Rota, em Espanha.
Além disso, o último ataque em que estiveram envolvidos os B-2, que aconteceu precisamente no Irão, viu os bombardeiros descolarem dos Estados Unidos diretamente para o Irão, num espetacular voo de 18 horas que culminou na destruição de grande parte do programa nuclear iraniano.
Quanto à possibilidade de os atuais reabastecedores estacionados nos Açores participarem indiretamente numa operação, por exemplo abastecendo em voo bombardeiros estratégicos, o major-general desvaloriza, “desde logo porque um ataque desta natureza envolve secretismo e os americanos não são obrigados a dizer quem é que reabastece no ar”.
Além disso, o reabastecimento decorre em espaço internacional e “isso não nos responsabiliza”.
Portugal pode "censurar, mas não pode protestar" um ataque ao Irão
Esses mesmos abastecedores em território português poderão vir a servir numa futura missão ao Médio Oriente. Nesse cenário em que as Lajes tenham servido de suporte para o ataque, o tenente-general avisa que a margem de reação portuguesa seria, ainda assim, limitada. “Acredito que Portugal possa censurar, mas não pode protestar”, afirma. Essa censura traduzir-se-ia numa posição política, “a verbalizar um estado de alma que condenasse as ações militares dos Estados Unidos”, mas “a consequência seria nula”.
Rafael Martins sublinha ainda que qualquer análise não pode ignorar o contexto do regime iraniano, recordando que se trata de “um regime que nós sabemos o que fez”, bem como as suas atitudes face a outros países da região, alguns deles “mais moderados” ou com “uma outra visão do mundo e outro regime político”. Por isso, defende que deve existir prudência na forma como Portugal se posiciona, evitando reações automáticas apenas por alinhamento político.
Na sua perspetiva, defender os interesses nacionais implica coerência estratégica. Se Portugal quer “estar bem com os nossos aliados”, então tem de, em determinados momentos, não ir “em busca do politicamente correto”, mas antes “assumir plenamente a decisão política e a responsabilidade” que essas escolhas acarretam.
A mesma opinião é partilhada por Agostinho Costa, que considera que Portugal deve manter-se “positivamente à margem”. “Se uma operação militar pode ou não ser feita, é um problema entre os Estados Unidos e o Irão. Não podemos ter um contencioso ou um irritante com os Estados Unidos, mas também não nos deve interessar ter com o Irão”.
Rangel esteve bem "do ponto de vista político" (mas há um plano técnico)
Mas a polémica e as dúvidas intensificaram-se quando, esta semana, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, afirmou que qualquer operação fora do acordo com os EUA “não tem de ser autorizada, nem conhecida, nem comunicada por Portugal” e que “nunca foi e não era agora que ia ser”.
Mesmo que a declaração possa gerar dúvidas inicialmente, os especialistas ouvidos pela CNN Portugal avisam que a mesma faz sentido “no plano político”.
“Em termos políticos, o senhor ministro tem razão”, começa por explicar Agostinho Costa. “Politicamente, o Governo português não tem que saber, nem deve saber. Não lhe interessa”, afirma, sublinhando que “não está em causa soberania nem a criação de um precedente” para o país.
Ainda assim, lembra que existe um outro plano: o técnico. "O nível político é uma coisa, o nível técnico é outro”, realça, lembrando que, neste último caso, não deve haver opacidade. “Não há nenhum avião norte-americano que aterre ou descole da base das Lajes que a autoridade aeronáutica portuguesa não saiba”, afirma, salientando que o ministro “deveria ter sido mais claro”, mas que, por ser advogado, “nem deve dominar estas questões”.