No meio de tubarões e alforrecas. Como três pescadores sobreviveram 28 horas a flutuar no mar

CNN , Por Christina Zdanowicz
23 out, 09:00
Ataques de tubarões, picadas de alforrecas e 28 horas a flutuar no mar. Foi assim que três barqueiros sobreviveram

"O tubarão atingiu o colete salva-vidas e eu tentei empurrá-lo para fora. Ele não ia embora, por isso, bati-lhe nos olhos", contou um dos sobreviventes

Três pescadores agarraram-se a uma jangada improvisada de caixas térmicas e esquivaram-se de ataques de tubarões e picadas de alforrecas nas águas perto de Empire, Louisiana, até serem resgatados 28 horas depois, tudo graças a uma milagrosa mensagem de texto.

Os três amigos de longa data partiram a 8 de outubro para pescar Luciano-do-golfo como já tinham feito muitas vezes. Mas os mares agitados começaram a perturbar o barco de pesca, atirando água para dentro da embarcação.

"Assim que vimos a parte de trás do barco a ficar cheia de água, eu soube logo", disse Phong Le ao programa "Today" da NBC, na quarta-feira. "Era a tempestade perfeita para o acidente perfeito."

A frente do barco estava amarrada a uma plataforma petrolífera, mas as ondas pioraram, rebentando a bordo do barco. Os homens tiveram cerca de dois minutos para reagir antes de o barco afundar por volta das 10 da manhã, de acordo com uma entrevista ao "Good Morning America".

Os homens rapidamente criaram uma jangada improvisada, atando duas caixas térmicas com o lenço de Le.

"Sempre que vou pescar, uso um lenço porque perco sempre um chapéu", disse Le.

Tentaram impulsionar-se em direção à plataforma petrolífera para pedir ajuda.

"Todas as plataformas petrolíferas têm algum tipo de telefone, ou algo assim, por isso, pensámos que podíamos chegar lá e fazer um pedido de socorro", disse Le. Mas nunca conseguiram.

Um tubarão ataca

À medida que o céu escureceu, os três homens agarraram-se aos refrigeradores, e a lua acabou por proporcionar algum conforto.

"Ainda bem que havia lua cheia porque tínhamos luz", disse Luan Nguyen à NBC. "Mal conseguíamos ver, por isso andávamos à deriva à noite."

Até que um visitante indesejado apareceu. Um tubarão bateu em Nguyen e seguiu-se uma luta pela sobrevivência.

"O tubarão atingiu o colete salva-vidas e eu tentei empurrá-lo para fora. Ele não ia embora, por isso, bati-lhe nos olhos", contou Nguyen à NBC. "Pus-lhe os polegares nos olhos e ele foi-se embora. Tenho algumas cicatrizes, mas teve de ser assim.”

Um dos coletes salva-vidas do barqueiro ficou rasgado devido aos ataques de tubarões. Guarda Costeira dos EUA

Outras criaturas marinhas também tornaram a sua presença conhecida, tornando as coisas ainda mais difíceis para os homens à deriva.

"A cada 15 a 20 minutos, estávamos constantemente a ser picados por alforrecas", disse Le à NBC.

"A meio da noite, acordei com uma alforreca deste tamanho no meu colo", acrescentou Le, referindo durante a entrevista que as alforrecas eram tão largas como ele.

Os homens mantiveram-se quase sempre em silêncio, balançando na água.

"Estava muito frio, por isso, tentávamos manter-nos quentes, abraçados uns aos outros para nos mantermos quentes", disse Le.

Eles foram vistos do ar

Le separou-se do grupo na manhã seguinte. Ele queria nadar cerca de 8 km até um barco de pesca de camarão para pedir ajuda, disse ele à NBC. Mas cerca de 1,5 km depois, o barco foi-se embora.

Para tentar saber a sua localização, Le pegou no telemóvel, protegido por uma caixa impermeável. Tinha menos de 5% de bateria e estava em modo avião para poupar bateria.

"Abri o meu telemóvel e foi aí que, de repente, recebi todas as mensagens de texto", disse Le. "Durante todo o tempo não tive rede, mas no meio do Golfo do México, tive rede."

Le não perdeu tempo. Ele disse que fez uma captura de ecrã da localização dele num mapa e que a enviou a um amigo. O telemóvel ficou sem bateria pouco depois.

O amigo recebeu a mensagem e contactou a Guarda Costeira, informando-a da localização dos barqueiros.

Os homens não sabiam, mas antes de a mensagem milagrosa ter sido enviada, a Guarda Costeira já estava a caminho, disse a tenente Katy Caraway, da Estação Aérea de Nova Orleães, na quinta-feira, à CNN. Ela era a copiloto de um helicóptero Jayhawk que ajudou a resgatar os homens.

Cinco minutos depois do início do voo, Caraway disse que receberam novas informações via transmissão de rádio, que poderiam usar na busca. Levaram 25 minutos a chegar ao local enviado na mensagem de texto.

Após 15 a 20 minutos de buscas nas águas, um piloto de um avião da Guarda Costeira, a navegar a uma altitude de 300 metros, viu um dos homens a acenar da água, disse Caraway.

Uma tripulação de um Jayhawk da Guarda Costeira trata os ferimentos dos barqueiros resgatados. Guarda Costeira dos EUA

"O Le foi o primeiro sobrevivente que resgatámos e foi ele que se separou do resto do grupo porque tinha tentado nadar até um barco de pesca de camarão para pedir ajuda", disse Caraway à CNN.

Um nadador de resgate saltou do helicóptero e nadou até junto de Le para ver como estava, disse Caraway.

"Ele não falava muito", disse ela. "Ele estava completamente exausto."

Caraway pôs-se em posição, lançou a cesta de resgate e içou Le para o helicóptero.

Foi nessa altura que a tripulação do helicóptero soube que os outros dois barqueiros tinham sido encontrados a cerca de 1,5 km de distância, disse Caraway. Eles voaram para o barco de resgate para ajudar.

Dois barqueiros foram salvos de tubarões

A tripulação de um barco da Estação da Guarda Costeira de Venice trata dois barqueiros que tinham mordeduras de tubarão e sofriam de hipotermia. Guarda Costeira dos EUA

O marinheiro da Guarda Costeira, Andrew Stone, estava num barco de resgaste de 12 metros quando recebeu a chamada relativa aos outros dois homens, disse ele.

"Eles estavam a ser importunados por tubarões quando chegámos", disse Stone.

Nguyen estava a sangrar para a água, tinha as mãos cobertas de mordeduras de tubarões-galha-preta, que têm cerca de 1,80m de comprimento, disse Stone à CNN na terça-feira.

"O seu colete salva-vidas laranja fora rasgado ao meio pelos tubarões", disse Stone.

Stone levou primeiro Nguyen para o barco.

"Lembro-me de ele me ter agarrado, de me ter tirado da água, foi do género 'ena, consegui',” disse Nguyen ao "Today" com lágrimas nos olhos.

Os suboficiais, Joshua Mcanally e Cooper Butcher, retiraram o segundo homem da água, disse Stone.

"Estes tipos sofreram uma exposição muito severa. Estavam muito desidratados e famintos, claro", disse Stone.

Os barqueiros também ficaram queimados pelo sol e sofriam de hipotermia quando foram resgatados no domingo, disse ele.

"A temperatura da água do Golfo, onde se encontravam, estava a 78 graus, o que pode parecer quente, mas tudo o que seja abaixo da temperatura do nosso corpo começa a ‘roubar’ calor", disse Stone.

As equipas da Guarda Costeira reuniram os homens retirados da água com Le, que já estava no helicóptero, disse ele.

O resgate bem-sucedido

A tenente Katy Caraway da Guarda Costeira reúne-se com os sobreviventes Phong Le, à esquerda, e Luan Nguyen. Cortesia da tenente Katy Caraway

Os membros da Guarda Costeira treinam para este tipo de situações, mas este resgate foi tudo menos comum, disse Caraway.

"Pessoas como estas que ficaram muito tempo na água e que tiveram de sair da sua embarcação sem qualquer forma de comunicação, é quase impossível encontrá-las e recuperá-las", disse Caraway. "Este resgate foi um sucesso."

"As probabilidades de encontrar estes indivíduos antes da mensagem de texto", acrescentou Caraway, "eram escassas ou praticamente inexistentes. Depois da mensagem de texto, ainda eram muito escassas."

Ao todo, cerca de 30 membros da Guarda Costeira estiveram envolvidos nas buscas.

"Trazer estas pessoas para casa… é algo que treinamos todas as semanas e termos conseguido salvar três sobreviventes... foi provavelmente a melhor sensação que se pode ter como oficial da Guarda Costeira", disse Caraway.

A Guarda Costeira de Nova Orleães está a planear um encontro para os sobreviventes e para todas as unidades de resgaste que fizeram parte do resgate.

"Limitei-me a fazer o meu trabalho", disse Caraway. "Estou feliz por eles poderem passar o resto das suas vidas com as famílias."

Jamiel Lynch, Jennifer Henderson e Melissa Alonso, da CNN, contribuíram para esta notícia

E.U.A.

Mais E.U.A.

Patrocinados