Gerard Piqué, o adeus do futebolista 3.0

8 nov, 09:06
Gerard Piqué

Filho de uma médica e de um advogado, tirou um mestrado em Harvard e criou a primeira empresa com 24 anos. Desde então não parou de apostar na indústria do desporto e do entretenimento. Ressuscitou a Taça Davis, comprou os direitos da Liga Francesa, tornou-se investidor do primeiro jogo de fantasy com tecnologia blockchain, entrou no mundo do gaming e até reformulou a Supertaça de Espanha. Criou muitas polémicas, é verdade, mas nunca deixou ser afetado por elas. E promete continuar por aí.

O anúncio de que vai retirar-se dos relvados colocou o foco da lanterna em cima do outro Gerard Piqué: aquele Piqué que é muito mais do que um simples jogador.

É uma espécie de futebolista 3.0.

Filho de um advogado e de uma médica, cresceu naturalmente num ambiente desafiador: o pai Joan Piqué trabalha com mais de 40 empresas, a mãe Montserrat Bernabéu é diretora do Hospital de Neuro-reabilitação de Badalona e do Instituto de Saúde Cerebral de Barcelona.

Quando começou a jogar nas camadas jovens do Barça, aos dez anos, o pai ia buscá-lo aos treinos de Porsche e a mãe de Mercedes.

O único irmão licenciou-se em Administração de Empresas, no Instituto Químico de Sarrià, e trabalha atualmente com onze sociedades diferentes.

Homem inquieto, culto e criado no seio de uma família com boa formação académica, também Piqué não abandonou os estudos. Depois de frequentar o conceituado Colégio La Salle Bonanova, uma instituição privada com mais de cem anos, o jogador licenciou-se em Ciências Empresariais. Já em 2017, viajou para Boston, nos Estados Unidos, para estudar na prestigiada Harvard e concluir um mestrado em Media, Entretenimento e Desporto.

Onde foi, aliás, colega de turma da atriz Katie Holmes.

Quando toda a gente o queria ouvir, falou através da conta da Twitch

Os negócios estiveram sempre presentes na vida de Piqué, portanto, que muito cedo incorporou uma afirmação de um magnata americano.

«Nunca invistas num negócio que não possas entender», disse o empresário Warren Buffet, numa declaração que se tornou lei e exerceu grande influência sobre o catalão.

Por isso, e ao contrário da esmagadora maioria dos jogadores, que vai aplicando o dinheiro em negócios como o imobiliário e a restauração, Piqué investe sobretudo nas indústrias do desporto e do entretenimento: aquelas que melhor conhece e mais o apaixonam.

«Nós, jogadores, temos cada vez mais peso mediático. Se analisarem as contas de redes sociais dos jogadores importantes da Liga Espanhola, alguns têm muito mais seguidores do que os jornais tradicionais. A Marca, por exemplo, é o jornal mais lido em Espanha. Quantos seguidores tem no twitter? Quatro milhões? Há vários jogadores de futebol que ultrapassam largamente esse número», referiu numa entrevista à espanhola Panenka.

«Nas redes sociais, tu é que defines a tua estratégia comunicativa. Claro que as evoluções tecnológicas, as tendências e perceber o que as pessoas consomem também condiciona, por isso tens de ir evoluindo e adaptando-te ao ambiente. Foi isso que me trouxe até aqui.»

Há aliás um episódio que é revelador da forma como Piqué pensa.

Quando aconteceu a polémica dos audios das conversas do jogador com Luis Rubiales sobre a mudança da Supertaça Espanhola para a Arábia Saudita, Gerard Piqué sentiu que tinha de se explicar. Um jogador qualquer faria uma de duas coisas: ou uma entrevista num jornal de referência ou uma conferência de imprensa numa sala alugada num hotel.

Piqué nem nessa altura deixou de pensar como um empresário. Durante mais de uma hora respondeu a todas as perguntas de cerca de trinta jornalistas, convocados para uma conferência online e transmitida no canal da Twitch do próprio Piqué.

Conclusão: o canal foi nessa noite acedido por mais de 150 mil pessoas. Genial ou não?

Fundação da Kosmos em parceria com um milionário japonês

O mundo empresarial sempre esteve presente na vida de Piqué, que fundou o primeiro projeto em 2012, quando tinha 24 anos: uma empresa de videojogos, que fechou em 2018. Nessa altura já tinha lançado a Kosmos, que veio abrir uma nova era na relação entre jogadores e negócios.

Nascida de uma parceira com o milionário japonês Hiroshi Mikitani, criador da Rakuten, que a partir desse ano começou a patrocinar o próprio Barcelona, a Kosmos tornou-se o fundo através do qual Piqué faz a gestão de todos os interesses desportivos.

Entre outros investimentos, comprou, por exemplo, os direitos da Taça Davis: a partir de então reformulou o torneio de ténis, tornou-o muito mais comercial e interessante para os operadores televisivos. Também foi a Kosmos que comprou os direitos da liga francesa para Espanha, vendendo posteriormente a transmissão da estreia de Messi no PSG à Mediaset.

Comprou os direitos da Copa América que transmitiu através da Twitch de Ibai Llanos, o famoso influenciador espanhol, que tem a quarta conta com mais seguidores no mundo.

Foi também através da Kosmos que negociou a transferência da Supertaça de Espanha para a Arábia Saudita, criando um novo formato, novos patrocinadores e novas receitas. Neste projeto a empresa de Piqué funcionou como uma espécie de intermediária, o que lhe valeu muitas críticas (o jogador ia estar na competição) e uma investigação das autoridades tributárias.

Os negócios ligados ao desporto, de resto, nunca estiveram isentos de polémica.

Foi muito controversa, aliás, a chegada da Rakuten a patrocinador principal do Barcelona no mesmo ano em que o fundador da empresa se tornou parceiro de Piqué. Ou a ligação do central a Luis Rubiales, presidente da Federação Espanhola, com quem abriu um restaurante no PortAventura, o maior parque temático da Europa.

O campeonato do mundo de balões que foi visto por milhões

Indiferente a isso, Piqué continuou a fazer negócios e a traçar novos rumos. Durante a pandemia, por exemplo, lançou um campeonato do mundo de balões de ar.

Balões de ar?, perguntar-se-á o leitor.

Sim, exatamente: o ceticismo foi geral. O central, porém, criou uma competição entre 16 seleções nacionais, apostou no patriotismo dos espectadores e tornou o campeonato atraente.

Fez a produção do evento, angariou patrocinadores, garantiu a transmissão do evento e teve milhões de pessoas a ver o conteúdo. O que lhe permitiu ficar com uma enorme base de dados de consumidores, que pode no futuro servir para quase tudo o que o jogador quiser.

A inovação associada ao desporto e ao entretenimento sempre foi uma prioridade para Piqué, que não hesitou em ser o primeiro a dar um passo como investidor da Sorare: uma empresa de web 3.0, que lançou o primeiro jogo fantasy com tecnologia blockchain.

Depois dele, também estrelas como Mbappé, Griezmann e Serena Williams se juntaram à marca que está também no mundo dos fan tokens e dos NFT’s. A Sorare, refira-se, está avaliada em quatro mil milhões de euros e é um dos principais patrocinadores da Liga Espanhola.

As parcerias com Griezmann, com quem Piqué teve uma zanga pública no aeroporto após um jogo, recorde-se, não ficaram pela Sorare.

O central tem também uma agência audiovisual de produção de conteúdos, que se estreou com um documentário sobre os passos que levaram Griezmann a decidir não voltar ao Barcelona.

O FC Andorra dos regionais à II Liga Espanhola

Outro parceiro privilegiado de Piqué é precisamente Ibai Llanos, o influenciador famoso em todo o mundo, com quem criou uma equipa de gaming: a KOI, que disputa atualmente o campeonato de League of Legends e que tem audiências médias de 300 mil espectadores.

Pelo meio, a Kosmos comprou o FC Andorra, que em três anos e meio subiu quatro divisões na pirâmide do futebol espanhol. Atualmente está sem dívidas e disputa a II Liga, acreditando-se que no futuro vai servir para Piqué expandir os interesses audiovisuais.

É verdade que o jogador também tem uma empresa que investe em imobiliário, em bebidas isotónicas e em óculos de sol, mas a atenção dele está sobretudo nas indústrias do futebol e do entretenimento, no gaming, nas novas tecnologias e na web 3.0

«Para me atualizar sobre tudo só utilizo o twitter, a maioria dos jornalistas e a maior parte dos jornais estão lá. Através da timeline tenho uma ideia de tudo», confessou um dia. 

«É a única coisa que eu consumo, embora às vezes consulte na internet a imprensa especializada, meios que se dedicam exclusivamente à informação online. Basicamente só leio através do telemóvel e do tablet. Não vou a um quiosque há muitos anos.»

Talvez por isso tenha anunciado que se retirava com um vídeo nas redes sociais.

Retira-se dos relvados, sim, mas vamos continuar seguramente a ouvir falar muito dele. Ou antes, do outro Piqué, daquele que sempre foi mais do que um simples jogador.

Do ex-futebolista 3.0.

 

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