opinião
Jornalista nascido em Madrid de mãe portuguesa. Comentador da CNN Portugal e correspondente do canal espanhol La Sexta.

Catalunha, 50 anos antes e depois de Franco

23 dez 2025, 19:00

A expansão da Aliança Catalã, partido de extrema-direita independentista que defende a expulsão de "espanhóis e muçulmanos", demonstra que a Catalunha (que surpresa!) não é muito diferente de Espanha, Portugal ou Itália

"Españoles, Franco ha muerto". Estas palavras, pronunciadas fez há pouco 50 anos, foram o princípio do fim do mais brutal regime da Europa ocidental na segunda metade do século XX, um regime que perseguiu e exterminou centenas de milhares de pessoas mesmo depois da Guerra Civil Espanhola, que durou três anos (1936-1939) mas que se prolongou numa desforra interminável de mais de três décadas, até à morte do ditador (a 20 de novembro de 1975).

A repressão franquista, política e económica, foi particularmente sentida nas regiões que tinham obtido algum tipo de autonomia no regime anterior, a Segunda República Espanhola (1931-1936): Catalunha, País Basco e, em menor medida, Navarra e Galiza. E foi assim porque a ideologia franquista tinha, entre os seus pilares, o nacionalismo espanhol, uniformizador y centralista, que considerava "separatista" qualquer ideia ou projeto que pretendesse sair destes moldes unitários.

O ultranacionalismo também foi imposto no sistema educativo, que promoveu o espanhol (ou castelhano) como única língua nacional e proibiu, e perseguiu, as outras línguas peninsulares (sem contar o português, claro): galego, basco e catalão. Contudo, continuaram a ser faladas nas respetivas regiões (e no exílio) e hoje fazem parte do património da Espanha democrática, além de serem oficiais nas respetivas Comunidades Autónomas (e não só: o catalão também é oficial em Andorra e, com nuances, nas Baleares e noutros lugares como a Comunidade Valenciana, embora neste último caso prefiram falar em "valenciano").

A Idade de Prata

A guerra civil e o franquismo também ceifaram a chamada Idade de Prata, um período da cultura espanhola que "coincide com o desenvolvimento tecnológico, industrial e educativo do final do século XIX e início do século XX, caracterizado por uma riqueza e diversidade de manifestações artísticas e culturais que acompanham as tendências da modernidade europeia".

A Idade de Prata costuma designar correntes e vozes literárias, mas basta passear por Barcelona para comprovar que os movimentos surgidos durante e após a Belle Époque, mais concretamente as vanguardas e o modernismo, tiveram um impacto profundo no urbanismo, na arquitetura e na estética da capital catalã. O epicentro estava em Paris e estendeu-se por muitas outras cidades europeias, mas Barcelona beneficiou de uma série de figuras incontornáveis, com destaque para o incomparável Antoni Gaudí.

O maior expoente do modernismo catalão, autor da Sagrada Família, do Parque Güell e de muitos outros ícones da 'catalanidade', beneficiou por sua vez do apoio económico e institucional das elites locais, que financiaram as muitas obras do génio catalão,
profundamente católico (como quase todos os seus clientes). A Sagrada Família, por exemplo, foi ideia de um livreiro inspirado por um sacerdote canonizado em 2004, e o próprio Gaudí está em processo de beatificação desde o início do século. O Parque Güell ostenta o apelido do industrial e mecenas desta outra obra-prima inconclusa, Eusebi Güell, que também encomendou um palácio, uma cripta, adegas e pavilhões ao arquiteto visionário.

Numa das avenidas mais elegantes da cidade condal, o Passeig de Gràcia, encontram-se, a escassos três quarteirões de distância, a Casa Milà (encomendada por um casal de ricos empresários) e a Casa Batlló, cuja remodelação foi paga por Josep Batlló, homem de negócios que, tal como Pere Milà, tinha feito fortuna na indústria têxtil. A Casa Batlló está rodeada de outros emblemas do modernismo catalão: a Casa Amatller, confinante con o prédio de Gaudí e obra de Josep Puig i Cadafalch; a Casa Lleó Morera, obra de Lluís Domènech i Montaner; a Casa Mulleras, de Enric Sagnier; e a Casa Josefina Bonet, de Marceliano Coquillat. Juntos, estes prédios compõem o 'Quarteirão da Discórdia', batizado assim por causa da rivalidade profissional dos diferentes arquitetos envolvidos, nomeadamente Domènech i Montaner, Puig i Cadafalch e Gaudí.

Na altura, os excessos modernistas foram alvo de chacota por parte da imprensa satírica. Hoje formam parte da singularidade de uma cidade única, onde se reivindicam e se misturam o catalão e o castelhano, a tradição e a vanguarda, o separatismo e o espanholismo. Sempre foi assim, ou pelo menos é assim desde o Cerco de Barcelona, que enfrentou os defensores da cidade com o primeiro Bourbon espanhol, Filipe V, e culminou com a capitulação, a 11 de setembro de 1714, dos rebeldes catalães.

"Fora espanhóis e muçulmanos"

Desde então, o Dia Nacional da Catalunha (a 'Diada') é comemorado nessa data, e o 11 de setembro de 2025 não foi exceção. A novidade este ano é que o único partido com tarja própria na comemoração (isto é, não dissolvido na manifestação principal) foi a Aliança Catalã, formação de extrema-direita independentista comandada por Sílvia Orriols, presidente da câmara de Ripoll (uma vila pré-pirenaica na província de Girona).
Orriols participou na 'Diada' a contragosto. Os coorganizadores — a Assembleia Nacional Catalã (ANC) e Òmnium Cultural — tinham rejeitado a participação do "VOX catalão", mas a presença de Orriols acabou por ser a mais relevante na grande marcha independentista anual. "Tinha preguiça de ir", declarou Orriols, mas afinal foi "para dizer à cara" aos dirigentes da ANC e da Òmnium que são "sectários e medíocres".

No protesto deste outono participaram 28 mil pessoas, cerca de metade do número registado no ano anterior (ainda assim, muito longe dos mais de 600 mil registados em 2012 pelo Governo espanhol, ou 1,5 milhões de acordo com a câmara de Barcelona). Quando se juntaram à cauda do protesto, os manifestantes da Aliança ouviram gritos de "fascistas fora de aqui", mas foram bem mais persistentes e audíveis as reivindicações dos partidários de Orriols: "Fora espanhóis e muçulmanos", "Puta TV3" [a televisão pública catalã], "Não é imigração, é invasão", além de insultos contra Salvador Illa [o presidente catalão, do Partido Socialista] e até Carles Puigdemont, a quem chamaram "traidor".

Em Girona, cidade em tempos governada por Puigdemont (ex-presidente catalão, em fuga desde 2017), a Aliança Catalã marcou presença também nas Festas de Sant Narcís (padroeiro local) deste outono. Foi, de facto, a única barraca com logo partidário, todo um sinal de normalização do novo, e ascendente, partido xenófobo. Nos jardins da cidade, as bebidas eram servidas em copos de plástico com a legenda "Canya contra Espanya", uma rima trocista que convida a agir contra o inimigo do costume. Durante os concertos, não faltaram diatribes menos elaboradas como "Puta Espanya".
Homenagem a Barcelona

De regresso a Barcelona, fui jantar uma noite a um dos estilosos restaurantes do Eixample, bairro nobre com livrarias onde é difícil não entrar. Numa mesa ao meu lado, a conversa confirmou as minhas suspeitas: a Aliança é mesmo o partido da moda, tão banal quanto o Chega em Lisboa ou o Vox na Extremadura (onde acaba de conseguir um resultado histórico: onze deputados, mais do dobro dos obtidos em 2023). Na livraria La Central, um labirinto de vários andares com pátio e jardim nas traseiras, os meus olhos fugiram para 'Revolución', do meu amigo Hugo Gonçalves, e 'Homenaje a Barcelona', de Colm Tóibín.

Tóibín — um dos escritores mais respeitados das letras inglesas — chegou à capital catalã com 20 anos, dois meses antes da morte de Franco. Viveu lá três anos e regressou nos anos 80 para escrever uma homenagem à cidade que o tinha cativado com vinho barato, liberdade sexual, temperaturas altas e desfiles com demónios e dragões de fogo. O título pisca o olho a Orwell (autor de 'Homenagem à Catalunha', escrito em plena Guerra Civil) e tenta explicar Gaudí, ou pelo menos o fascínio que sobre ele exerceram os edifícios modernistas.

O escritor irlandês não se limita a descrever a fantasia das formas orgânicas, também explora a ligação entre arquitetura e poder, a forma como a burguesia catalã usou o modernismo (ou 'art nouveau') como emblema político para a cidade que estava a criar, enquanto a classe trabalhadora lutava para sobreviver a pobreza extrema e abraçava o anarquismo.

No auge da arquitetura modernista, portanto, surgiram as sementes da guerra fraticida. As duas Espanhas do confronto tinham, logicamente, um reflexo nas duas Catalunhas: a alma cristã, monárquica, camponesa e tradicionalista versus a alma laica, republicana, urbana e sindicalista. Estas duas almas, tão difíceis de misturar como a água e o azeite, estão na origem dos dois grandes partidos que protagonizaram o 'Procés', a golpada separatista em 2017: a Esquerda Republicana da Catalunha e o partido de Puigdemont (neste momento, Juntos pela Catalunha).

Esquerda e direita, campo e cidade, ricos e pobres. Mas não só as duas almas: o fracasso do independentismo catalão é explicado por outros fatores, como a resistência da União Europeia (comunidade de Estados, criada precisamente para combater os nacionalismos) e, acima de tudo, a muralha intransponível da economia global (7.743 empresas retiraram a sua sede social da Catalunha entre outubro de 2017 e julho de 2023).

Apesar do evidente insucesso e do banho de realidade, milhares de independentistas e apoiantes da causa em todo o mundo continuaram a martelar as consciências com as velhas palavras de ordem: a Espanha rouba e oprime a Catalunha. Agora, com o auge da Aliança
Catalã, cai por terra a máscara ou fachada que contrapunha uma Catalunha idealizada, virtuosa e democrática, a uma Espanha alegadamente fascista.

A expansão da extrema-direita neste canto do mundo demonstra que a Catalunha (que surpresa!) não é muito diferente de Espanha, Portugal, França ou Itália. E o discurso de uma certa Catalunha, que ainda olha para o resto de Espanha — em particular, para as regiões mais pobres, como a Andaluzia e a Extremadura — com desprezo e sobranceria, deixou de fazer sentido, se é que alguma vez o fez.

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