Sobreviventes e testemunhas descrevem o "horror" vivido na noite da passagem de ano no bar de uma luxuosa estância de ski em Crans-Montana, nos Alpes Suíços. ALERTA: este artigo contém conteúdo que pode chocar os leitores mais sensíveis
A passagem de ano na Suíça ficou marcada por uma das maiores tragédias já vividas no país, depois de um incêndio num bar em Crans-Montana causar 40 mortes e 119 feridos.
Aquilo que começou como uma festa numa das mais luxuosas estâncias de ski da Suíça, no cantão de Valais, rapidamente se tornou num pesadelo. Emma e Albane estavam dentro do Le Constelllation quando se deram conta do desenrolar da tragédia. “Numa questão de segundos, todo o teto estava em chamas, era tudo feito de madeira”, relataram à emissora francesa BFMTV.
Ambas as testemunhas acreditam que o fogo terá começado quando uma empregada colocou sparklers (velas pirotécnicas) em algumas garrafas de champanhe - uma suspeita já confirmada pelas autoridades. Em declarações aos jornalistas, a procuradora-geral Beatrice Pilloud confirmou que “tudo aponta para que o incêndio tenha começado com as faíscas das garrafas de champanhe que se aproximaram demasiado do teto, o que levou a um incêndio instantâneo”, disse aos jornalistas.
Depois de as chamas subirem “muito rapidamente”, a evacuação foi “muito difícil”, descreveram Emma e Albane, dado que a rota de fuga da sala era “estreita” e as escadas que levavam até ao exterior “mais estreitas ainda”.
“Eram cerca de 200 pessoas a tentar sair em 30 segundos por umas escadas muito estreitas”, descreveram.
Oscar, de 19 anos, tentou entrar três vezes no Le Constellation, um bar popular entre os jovens, mas sem sucesso, precisamente por estar lotado. “Era o pânico total”, contou o jovem, que ficou à porta. “Muitas pessoas tentavam correr de lá e batiam nas janelas, a gritar. Era como um filme de terror”, acrescentou.
A testemunha relatou que algumas das pessoas que viu sair do estabelecimento estavam com o rosto totalmente queimado e “completamente destruído”.
“As pessoas perguntavam-me: ‘Estou queimado? O meu rosto está queimado?’”, contou, acrescentando que a adrenalina deve tê-los impedido de sentir alguma coisa, “porque ficaram completamente queimados e não sentiram nada”.
As tentativas de partir as janelas foram, na sua maior parte, em vão, e só havia uma escada para a cave, descreveu Oscar. “É muito apertado, então as pessoas caíam umas sobre as outras ao sair. Eu nem quero imaginar o que as pessoas que estavam lá em baixo sentiram.”
Já Axel Clavier, um dos sobreviventes da tragédia, conseguiu escapar do edifício depois de partir uma das janelas com uma mesa. Antes disso, admitiu que pensou que todos iam sufocar por causa do fumo. “Não conseguíamos ver nada por causa do fumo”, descreveu aos jornalistas. “Estávamos presos, não sabíamos por onde sair, a multidão era imensa e eu estava sozinho. Disse a mim mesmo que não ia conseguir”, continuou.
Para evitar ser atingido pelas chamas, Axel deitou uma mesa e escondeu-se atrás dela até conseguir, com ela, partir uma janela e sair. “Perdi metade das minhas roupas. Foi o caos. Havia um instinto de sobrevivência, mas as pessoas estavam presas”, afirmou.
Quando escapou, encontrou os amigos à sua espera lá fora: “Ajoelhei-me à frente deles porque estava feliz por ter saído.”
Natan também sobreviveu ao incidente e recorda a dificuldade com que saiu do edifício. “Era realmente uma batalha para conseguir sair. Foi cada um por si”, assumiu o jovem de 19 anos. Uma vez lá fora, observou as escadas “cheias” por onde tentavam passar as vítimas.
Não imaginando a tragédia que viria a acontecer, o sobrevivente reconheceu que é habitual prender-se aquele tipo de velas às garrafas e acredita que nada “foi feito de propósito”.
Uma das sobreviventes descreveu, emocionada, o momento em que se salvou das chamas e ao mesmo tempo se apercebeu de que perdera um amigo. “Descemos as escadas, vi um dos meus amigos e depois vimos o fogo. Subimos imediatamente as escadas e segurei no braço do meu amigo, mas depois larguei-o, já não me respondia.”
Testemunhas viram pessoas "quase desmembradas no chão"
O cenário de horror ecoa nos relatos dos sobreviventes, mas também no das testemunhas. À chegada ao local, Ilan Achour deparou-se com o que descreveu como “um filme de terror”. “Nunca vi nada assim na minha vida”, disse à Reuters o funcionário de um restaurante perto do Le Constellation.
“Todos estavam queimados, todos gritavam”, sublinhou.
Entre as vítimas mortais está a melhor amiga de Ilan: “Perdi a minha melhor amiga que estava nos meus braços. Tentámos reanimá-la”, sem sucesso, contou.
“Não desejo isto a ninguém”, acrescentou. “É por isso que digo a todos que agora é o momento de estarmos juntos, de todos se amarem uns aos outros, isso é que é importante.”
Um jovem de 18 anos, que não quis revelar o nome, contou à BBC que entrou no bar já em chamas para procurar o irmão mais novo, enquanto outros tentavam escapar.
“Pensei que o meu irmão mais novo estivesse lá dentro, por isso vim e tentei partir a janela para ajudar as pessoas a sair e, depois disso, entrei”, relatou.
Uma vez lá dentro, viu “pessoas a arder da cabeça aos pés, sem roupa”, mas o seu irmão saiu ileso.
A popularidade da discoteca entre os mais novos fez com que a maior parte das vítimas fossem jovens. Laetitia Brodard procura pelo filho, Arthur, “há 30 horas” e continua sem saber “se está vivo ou morto”.
“Insuportável”, é assim que descreve a espera por novidades do filho, que tem procurado sem parar em conjunto com o pai, Christophe. “Estamos tão vazios. Achamos que ele pode estar vivo, por isso ainda temos esperança de encontrá-lo”, disse, acrescentando que geralmente Crans-Montana é um lugar “muito, muito seguro”.
“Se ele está no hospital, não sei em que hospital está. Se ele está no necrotério, não sei em que necrotério está. Se o meu filho está vivo, está sozinho no hospital e eu não posso estar ao seu lado”, lamentou a mãe.
Daniella, outra testemunha, estava a voltar para a sua casa de férias na rua paralela ao bar, quando se deparou com o cenário.
“As pessoas corriam em todas as direções, a gritar e a chorar. Vi várias pessoas a serem carregadas em macas”, contou à BBC.
“Um jovem veio até mim e disse que tinha visto o inferno - coisas que nunca esqueceria”, acrescentou, realçando que ouviu os gritos durante “toda a noite”.
Também Gianni Campolo, de 19 anos, viu o “horror” quando correu para o bar em auxílio das vítimas. “À medida que nos aproximamos, vemos pessoas quase desmembradas deitadas no chão, em paragem cardíaca. Também havia pessoas presas lá dentro, deitadas no chão. Eu vi o horror e não sei o que poderia ser pior do que isto”, afirmou.
O processo de identificação das vítimas está em curso e, à medida que avança, os familiares e amigos enfrentam uma espera difícil enquanto as embaixadas estrangeiras se esforçam para descobrir se algum dos seus estava entre os mortos.
As autoridades suíças que conduzem os trabalhos no local adiantaram que todos os corpos foram removidos do bar.