O "super ano" dos bancos: mais de 2.000 milhões de lucros em 2022

ECO - Parceiro CNN Portugal , Alberto Teixeira
3 mar 2023, 09:58
Caixa Geral de Depósitos (Teixeira Duarte)

Caixa, BCP, Santander e BPI tiveram lucros acima de dois mil milhões de euros no ano passado. Foram 5,5 milhões por dia. Receitas com juros renderam cinco mil milhões com a ajuda do banco central

É um pássaro? É um avião? Não, são os lucros da banca a voarem. As principais instituições portuguesas tiveram um “super ano” em 2022, com resultados líquidos acima dos 2.000 milhões de euros, o que representa uma subida expressiva de 52% em relação ao ano transato. Muitos fatores ajudaram a construir aquele que foi o melhor ano para o setor em muito tempo. Mas há um ponto em comum em todos eles: a subida das taxas de juro, que fez a margem financeira disparar 30%.

Isto significa que quatro dos cinco principais bancos portugueses – o Novobanco só apresenta contas no dia 9, mas já se sabe que vão ser lucros recorde, possivelmente os melhores da banca privada – lucraram mais 5,5 milhões de euros por dia. Porém, nem todos estão, ainda assim, no mesmo patamar de rentabilidade.

Enquanto Caixa Geral de Depósitos (CGD) e Santander Totta já apresentam ROE (rentabilidade dos capitais próprios) na casa dos 10%, um indicador de referência para atrair investidores para um setor particularmente intensivo em capital, o BCP tem um longo caminho das pedras a percorrer, sobretudo por causa dos problemas com o seu banco na Polónia. O banco liderado por Miguel Maya teve o lucro mais baixo em relação aos pares, ligeiramente acima dos 200 milhões de euros, subindo 50% em relação a 2021, e não abre o jogo se vai distribuir dividendos.

No banco público, os lucros (quase recorde) de 843 milhões permitem a Paulo Macedo entregar ao Estado o maior dividendo da sua história: 352 milhões de euros em cash mais o edifício-sede, avaliado em mais de 300 milhões, a título de dividendo em espécie. “É um dividendo fantástico”, destacou o líder da instituição esta quinta-feira.

Quanto ao Santander Totta, o resultado duplicou no ano passado para mais de 600 milhões de euros e Pedro Castro e Almeida também não quis adiantar que parte irá para a casa-mãe em Espanha. No BPI, essas contas estão feitas e já foram divulgadas: do lucro de 365 milhões obtido em 2022, 285 milhões seguem para o também espanhol CaixaBank.

Resultados e ROE em 2022

Fonte: Bancos • *ROTE do BPI

Margem financeira dispara 30%

O que ajudou nos resultados? Há muitos fatores. Por exemplo, o negócio internacional (sobretudo Angola) alavancou os resultados do BPI e da Caixa – no banco do Estado, a atividade internacional teve mesmo um ano recorde. No Santander e no BCP, a subida dos resultados também deve ser entendida à luz dos processos de reestruturação que fizeram em 2021 e cujos efeitos extraordinários deixaram de se fazer sentir este ano.

Há, contudo, um ponto em comum aos quatro bancos: a subida das receitas com juros, que é o core do negócio da banca. A margem financeira disparou 30% para perto de 4,9 mil milhões de euros, num ano marcado pela inversão abrupta das taxas de juro dos bancos centrais para controlar a escalada da inflação. Isto é o resultado dos juros mais altos que receberam pelos empréstimos concedidos a famílias e empresas, enquanto os juros pagos nos depósitos se mantiveram perto de 0%, comportamento este que mereceu a reprovação do governador do Banco de Portugal.

Caixa e BCP tiveram as maiores subidas da margem financeira. No banco público aumentou 40%, tirando partido da maior carteira de crédito no mercado português. No banco liderado por Miguel Maya subiu 35%, mas devido sobretudo ao negócio que tem na Polónia, onde o banco central foi mais expedito a normalizar a política monetária.

A expectativa é que a margem se reforce ao longo deste ano, à medida que as taxas de juro continuam a subir e esses se vão refletindo por toda a carteira de crédito dos bancos.

Ainda do lado das receitas, há muito que os bancos descobriram outra fonte de ganhar dinheiro: as comissões. Subiram 7% para 2,1 mil milhões de euros à boleia de mais transações na economia (2021 ainda foi afetado pela pandemia) e também do aumento do preçário que os bancos fizeram nos últimos anos – há várias iniciativas legislativas em curso para travar algumas comissões.

Margem financeira dispara

Fonte: Bancos

Depósitos aumentam em 2022, mas já perdem em 2023

O crescimento das receitas também se deveu ao aumento do volume de ativos, mas os bancos sentiram já um abrandamento do crescimento do crédito no ano passado. A carteira de empréstimos aumentou apenas 1,4% para perto de 180 mil milhões de euros. No BCP e Santander até encolheu, já sentindo os efeitos da incerteza da guerra, inflação e alta dos juros.

Em relação aos depósitos, é verdade que terminaram o ano a gerirem poupanças recorde das famílias, com um total de 228 mil milhões de euros, um crescimento de 6% face a 2021.

Fonte: Bancos

Contudo, arrancaram o novo ano com uma fuga de 2,5 mil milhões de euros, com as famílias a tirarem o dinheiro do banco para investirem nos atrativos Certificados de Aforro e também para amortizarem o crédito da casa (e, com isso, atenuar a subida da prestação da casa).

A perda de poupanças estará na base da recente mudança de comportamento dos bancos em relação aos juros dos depósitos a prazo que, em alguns casos, já rendem até 3%, mas há muitas condições no acesso.

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