Comissões disparam e margens recuperam. Como os bancos em Portugal estão a ganhar 7 milhões ao dia em 2022

11 nov, 07:00
Caixa Geral de Depósitos

A Caixa Geral de Depósitos, liderada por Paulo Macedo, foi o banco que apresentou os maiores lucros. Só em comissões, os cinco maiores bancos cobraram quase dois mil milhões de euros

Os cinco maiores bancos a operar em Portugal quase que duplicaram os lucros nos primeiros nove meses deste ano, em comparação com o mesmo período do ano anterior. O dinheiro que é feito com comissões bancárias e a recuperação das margens financeiras – a diferença entre o que se ganha e o que se paga em juros - estão a justificar os números.

Caixa Geral de Depósitos (CGD), BCP, Novo Banco, BPI e Santander. Todos juntos tiveram um resultado conjunto de 1.888 milhões de euros entre janeiro e setembro deste ano, o que significa um lucro de quase 7 milhões de euros por cada dia. A liderar a tabela está o banco público, com lucros de 692 milhões de euros – os maiores em quase duas décadas -, com o BCP na última posição (97 milhões de euros), devido ao impacto negativo da operação na Polónia.

Estes números surgem numa altura de subida de juros por parte do Banco Central Europeu (BCE), que afetam indiretamente aquilo que os clientes pagam pelos empréstimos e ajudam a engordar as contas dos bancos. Estaremos perante lucros extraordinários?

“Os lucros da banca não se comparam com os lucros de outros setores. Não é comparável com aquilo que as empresas de energia ou de distribuição estão a lucrar, por exemplo. No entanto, o ritmo de crescimento dos resultados mostra que estamos num ambiente extraordinário”, diz o economista Vinay Pranjiva, à CNN Portugal.

Quase dois mil milhões de euros só em comissões

As comissões que os bancos cobram por todos os serviços continuam a ser uma das alavancas para os lucros. Este conjunto de bancos arrecadou 1.827 milhões de euros, um valor praticamente equivalente aos resultados líquidos obtidos. É o maior valor desde, pelo menos, 2010.

E neste campeonato da cobrança de comissões, o Millennium BCP é líder isolado: nos primeiros nove meses do ano obteve 574 milhões de euros, justificados pelo aumento das operações e dos clientes. E se é certo que o valor das comissões tem subido nos últimos anos, a tendência deverá manter-se.

“Não vejo nenhum racional para as comissões descerem”, garantiu Miguel Maya, presidente do BCP, numa conferência que juntou os maiores banqueiros em Portugal. A opinião de Maya é acompanhada pelos congéneres que apenas admitem não subir as comissões ao ritmo da inflação. “Temos uma inflação acima de 10% e os preçários dos bancos não vão evoluir no mesmo sentido”, disse Luís Ribeiro, administrador do Novo Banco, no mesmo painel.

A Deco Proteste alerta para um volume abusivo de comissões bancárias em Portugal e, numa carta aberta ao Parlamento, já exigiu o fim das comissões para todos os créditos à habitação.

“Num futuro que se adivinha difícil para muitas famílias, defender o equilíbrio e a igualdade para suportar o lado mais forte da equação é incompreensível”, pode ler-se no site da entidade.

Comissões, margens e depósitos: uma questão de equilíbrio

“Nos últimos anos, e com alguma razão, os bancos justificaram a subida das comissões com a quebra na margem financeira. Mas hoje, quando estamos a assistir a uma recuperação das margens, não estão a equacionar baixar as comissões”, admite à CNN Portugal, Vinay Pranjiva, que conclui dizendo que “o justo agora seria, não só não aumentar as comissões, mas sim baixá-las”.

Até setembro, e à exceção do Santander, todos os bancos viram a margem financeira sair reforçada, face ao mesmo período do ano anterior. A do BCP subiu 32% para os 1.545 milhões de euros. Esta margem é a diferença entre os valores médios das taxas de juro que são cobradas pelos créditos e que são pagas pelos depósitos. 

E neste último ponto, as contas são fáceis de fazer. De acordo com o Banco de Portugal, a taxa de juro média dos depósitos em Portugal está praticamente inalterada face aos últimos anos nos 0,05%, ao contrário do que acontece na Zona Euro, onde os juros dos depósitos saltaram de 0,19% para 0,56% em menos de um ano.

Significa isto que, por cada 1000 euros depositados numa conta a prazo em Portugal, o banco paga um juro de 5 euros. Segundo a média da Zona Euro, essa remuneração é de 56 euros.

“Estamos a perder muito dinheiro com o dinheiro no banco”

Na mesma conferência da banca, João Pedro Oliveira e Costa, líder do BPI, deixou a promessa no ar: “Havemos de remunerar mais os depósitos dos clientes. Temos o dever fiduciário de defender as poupanças das pessoas e muitas vezes essa questão é menosprezada”, disse o banqueiro.

Ao contrário do que acontece nos países do centro e norte da Europa, os portugueses mostram-se ainda muito conservadores na hora de investir o seu dinheiro. E por isso, defende Vinay Pranjiva, optam pela “opção mais fácil”.

”Aquele que é o produto mais escolhido pelos portugueses [depósitos bancários], resulta numa perda real de dinheiro devido à inflação”, atira o economista. “Estamos a perder muito dinheiro se tivermos o dinheiro parado no banco”, remata.

Num cenário de inflação de 7,8%, se a projeção do Banco de Portugal se cumprir, um depósito de 1.000 euros feito no final de 2021, terá perdido 78 euros quando o presente ano terminar. Por outro lado, recebe 5 euros do banco, em forma de juro. Acresce ainda a este facto o imposto de 28% cobrado sobre o juro. Contas feitas, com este depósito de 1.000 euros perdem-se 73,14 euros passado um ano (+5 euros de juros, -0,14 euros do imposto e -78 euros da inflação).

Um novo imposto sobre a banca?

A ideia de lucros inesperados é rejeitada pelos banqueiros, que defendem que passado muitos anos, os seus bancos começam agora a atingir um patamar sustentável. “Não há lucros caídos do céu, há é penalizações caídas do inferno”, disse Miguel Maya, presidente do Millennium BCP, na conferência de imprensa dos resultados do terceiro trimestre.

O Governo anunciou que estaria em estudo um novo imposto sobre os lucros das empresas do ramo do petróleo e também das empresas de distribuição, donas dos supermercados. Para já, a banca fica de fora da equação.

“Novos impostos extraordinários para a banca não se justificam, porque nós andamos a pagar impostos extraordinários desde 2011”, considera Paulo Macedo, presidente da Caixa Geral de Depósitos. 

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