Rússia avança e domina Kherson, cidade estratégica no sul da Ucrânia. Guerra já fez um milhão de refugiados

3 mar, 06:47
Mulher chora frente a casas destruídas por um bombardeamento russo em Gorenka, nos arredores de Kiev

Tropas russas invadiram a sede do governo de Kherson, o maior centro urbano capturado pelas forças russas desde que a invasão começou, a 24 de fevereiro. Em apenas uma semana, mais de um milhão de refugiados fugiu da Ucrânia. Eis o que aconteceu esta madrugada

Na noite em que se assinala uma semana desde o início da invasão, algumas das cidades mais estratégicas, como Kiev, Kharkiv, Kherson ou Mariupol, foram cercadas ou alvo de bombardeamentos das tropas russas. Ao início da madrugada, voltaram a tocar as sirenes em Kiev, e, logo depois, quatro explosões foram ouvidas na capital ucraniana. Também esta madrugada, soaram as sirenes em Lviv.

Durante o dia foram surgindo relatos de intensos bombardeamentos em Mariupol e Kharkiv: aqui as explosões danificaram fortemente três escolas e igrejas ortodoxas no centro da cidade.

"Simplesmente pedi para não disparar contra as pessoas"

A primeira grande cidade ucraniana caiu às mãos das forças russas: Kherson está agora sob controlo do exército de Moscovo. As autoridades ucranianas confirmaram a tomada da cidade portuária no sul do país, por parte de tropas russas, uma captura que a Rússia tinha anunciado na manhã de quarta-feira.

Kherson, com cerca de 290 mil habitantes, é o maior centro urbano capturado pelas forças russas desde que a invasão começou, em 24 de fevereiro. O chefe da administração regional de Kherson, Gennadi Lakhouta, pediu aos moradores, através da plataforma Telegram, que fiquem em casa, indicando que "os ocupantes estão em todas as partes da cidade e são muito perigosos". Já o presidente da câmara municipal da cidade, Igor Kolykhaiev, anunciou que se havia reunido com tropas russas num prédio da administração de Kherson.

"Não tínhamos armas e não fomos agressivos. Mostramos que estamos a trabalhar para proteger a cidade e a tentar lidar com as consequências da invasão", disse, numa publicação na rede social Facebook, acrescentando: "Estamos a ter enormes dificuldades com recolha de corpos e enterros, entrega de alimentos e remédios, recolha de lixo, gestão de acidentes, etc."

O responsável assegurou que "não fez promessas" aos russos e "simplesmente pediu para não disparar contra as pessoas" e para que seja permitido a recolha dos corpos que se encontram nas ruas de Kherson.

Apesar disso, o Pentágono norte-americano garante que a gigantesca coluna militar russa, posicionada nos arredores da cidade, se mantém paralisada. Aliás, as autoridades dos Estados Unidos deixaram esta noite um alerta de que a Rússia poderá estar a mudar a estratégia de ataque. Os oficiais dizem que as tropas atingirão cada vez mais alvos civis, procurando uma "aniquilação lenta".

Um milhão de refugiados

As estimativas mais recentes das Nações Unidas indicam que mais de um milhão de refugiados já fugiu da Ucrânia. É esse o número indicado por Filippo Grandi, chefe da agência da ONU para os refugiados, num tweet publicado na madrugada desta quinta-feira:

"Em apenas sete dias, assistimos ao êxodo de um milhão de refugiados da Ucrânia para os países vizinhos."

"Para muitos milhões mais, dentro da Ucrânia, é tempo de as armas se calarem, para que possa ser prestada assistência humanitária que salve vidas", acrescenta o responsável das Nações Unidas.

Zelensky diz que moral das tropas russas está a desmoronar-se

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou esta noite, num vídeo publicado no Facebook, que a moral das forças russas está a desmoronar-se. "Os nossos militares, os nossos guardas de fronteira, a nossa defesa territorial, mesmo os agricultores comuns capturam os militares russos todos os dias. E todos os prisioneiros dizem apenas uma coisa: não sabem porque estão aqui. Apesar de serem dezenas de vezes mais, a moral do inimigo está constantemente a deteriorar-se". 

"Estes não são guerreiros, são apenas crianças perdidas", afirmou o presidente ucraniano, que louvou também a resistência dos ucranianos comuns às forças invasoras. "Bloqueando estradas, as pessoas saem à frente dos veículos inimigos - é extremamente perigoso, mas quão corajoso. É também a salvação".

"Cada vez mais ocupantes estão a fugir para a Rússia, de nós, de si, de todos aqueles que expulsam o inimigo com dardos, armas, tanques, helicópteros - com tudo o que dispara. Desejo-vos saúde, ucranianos nativos, fortes e bondosos, mas não ao inimigo"!  Segundo o vídeo de Zelensky, a Ucrânia “quebrou os planos do inimigo numa semana”. “Planos que foram construídos durante anos, vis, calculados, com ódio pelo nosso país, pelo nosso povo, por qualquer povo que tenha duas coisas: liberdade e coração. Mas nós impedimo-los e vencemo-los".

 

Rússia aumenta atividade militar perto do Japão

Um helicóptero militar da Rússia violou o espaço aéreo do Japão na quarta-feira, e o Ministério da Defesa japonês está a seguir com preocupação o aparente aumento de atividade militar russa na costa do Pacífico. O helicóptero russo entrou no espaço aéreo nipónico perto de Hokkaido, no extremo norte do Japão, o que levou ao envio imediato de dois caças.  

O incidente aconteceu ao largo da Península de Nemuro, na costa oriental da prefeitura de Hokkaido. Trata-se da península japonesa mais próxima de território russo - no ponto mais aproximado, a distância entre os dois países é inferior a 50 quilómetros. Os dois vizinhos têm uma disputa territorial por causa de quatro ilhas a nordeste de Hokkaido que a Rússia ocupou após a II Guerra Mundial - uma dessas ilhas fica a menos de 4 quilómetros da costa do Japão.

"Nas atuais circunstâncias, a crescente atividade da Rússia no mar e no espaço aéreo em redor do Japão é motivo de preocupação, e tomaremos todas as medidas possíveis para a monitorizar de forma vigilante", afirmou o Ministério da Defesa numa declaração à imprensa. Tóquio protestou junto da Embaixada da Rússia por este incidente "extremamente lamentável".

Na mesma noite, o primeiro-ministro japonês disse que o país irá aceitar ucranianos que fogem da guerra, contrariando a tradicional política nipónica de fechar fronteiras a imigrantes em geral, e a refugiados em particular

A Rússia lançou na madrugada de 24 de fevereiro uma ofensiva militar com três frentes na Ucrânia, com forças terrestres e bombardeamentos em várias cidades.

O Presidente russo, Vladimir Putin, justificou a “operação militar especial” na Ucrânia com a necessidade de desmilitarizar o país vizinho, afirmando ser a única maneira de a Rússia se defender e garantindo que a ofensiva durará o tempo necessário.

O ataque foi condenado pela generalidade da comunidade internacional, e a União Europeia e os Estados Unidos, entre outros, responderam com o envio de armas e munições para a Ucrânia e o reforço de sanções económicas para isolar ainda mais Moscovo.

Relacionados

Europa

Mais Europa

Patrocinados