Uma nova Azovstal? Centenas de ucranianos abrigados numa fábrica de produtos químicos em Severodonetsk

3 jun, 14:23

Severodonetsk é agora o epicentro da guerra na Ucrânia, com intensos combates que já levaram as forças ucranianas a perder o controlo da maior parte da cidade. Enquanto isso, cerca de 800 pessoas, incluindo crianças, refugiam-se na fábrica Azot, em circunstâncias semelhantes às que ocorreram antes em Mariupol

Cerca de 800 ucranianos, entre eles crianças, estão abrigados sob uma fábrica de produtos químicos na cidade de Severodonetsk, no leste da Ucrânia, muito perto de estar completamente controlada pelas forças russas.

O governador da região de Lugansk, Serhiy Gaidai, disse na quinta-feira que as ruas da cidade continuam a ser palco de violentos combates, mas garantiu que as forças ucranianas se comprometeram a lutar "até ao fim".

Numa altura em que a invasão russa da Ucrânia chega ao 100º dia, o governador avançou que 800 pessoas estavam escondidas em abrigos antiaéreos da era soviética sob a fábrica Azot. “Há moradores lá, que foram aconselhados a deixar a cidade, mas recusaram”, indicou, acrescentando: "Também crianças, embora não muitas."

O que se sabe sobre a Azot

A Azot é uma das maiores fábricas de produtos químicos da Ucrânia e empregava cerca de 7.000 pessoas. Atualmente, serve como refúgio para os habitantes que recusam abandonar Severodonetsk.

Há civis abrigados ali [na fábrica de produtos químicos], ainda são bastantes", afirmou o governador, citado pela Reuters.

Mas o governador assumiu também que é possível que na fábrica Azot ainda existam vestígios de produtos químicos perigosos. Isto porque um ataque aéreo das tropas de Moscovo atingiu na terça-feira esta mesma fábrica: “Atingiram um tanque com ácido nítrico numa fábrica de produtos químicos”, anunciou Serhiy Haidai.

Os moradores foram instruídos a permanecer em abrigos antiaéreos depois deste ataque ter criado uma nuvem tóxica. As imagens mostram uma gigantesca nuvem alaranjada de gás na atmosfera depois da explosão.

Apesar das circunstâncias semelhantes, Gaidai disse que a infraestrutura provavelmente não se tornará alvo de um cerco de semanas semelhante ao do complexo siderúrgico Azovstal, na cidade de Mariupol, no sul. "Os militares ucranianos não construíram fortificações na infraestrutura por causa do risco químico", justificou.

"Não será uma segunda Azovstal, pois esta tinha uma enorme cidade subterrânea... que não existe na Azot", reiterou.

A especialista Sónia Sénica analisou a situação atual na Azot. Em declarações à CNN Portugal, considera que "não há dúvida que o playbook russo tem sido praticamente o mesmo: um bombardeamento muito intenso, sem olhar ao perigo de algumas instalações, como é o caso da Azot". 

"Mais uma vez estamos a ver replicar a violação clara daquilo que pode ser entendido como as leis da guerra", indicou, acrescentando: "Parece que estamos a ver um replicar daquele reduto de resistência ucraniana em Mariupol".

Sónia Sénica adverte, contudo, que de acordo com as informações disponíveis, não há o foco no Batalhão Azov (como aconteceu em Mariupol), mas há, sim, indícios de "uma clara urgência por parte de Moscovo de arrasar o teatro de operações que tenta dominar e avançar com a ocupação por meios híbridos".

O interesse estratégico

Um relatório do Ministério da Defesa britânico indica que, embora a estrada principal para Severodonetsk permaneça sob controlo ucraniano, a Rússia já tomou a maior parte da cidade e "continua a obter ganhos locais estáveis, possibilitados por uma forte concentração de artilharia". Paralelamente, o Estado-Maior das Forças Armadas da Ucrânia disse que as forças invasoras estavam a "conduzir operações de assalto dentro de Severodonetsk" e também a atacar outras partes no leste e nordeste da cidade.

Mas porquê Severodonetsk? A queda desta cidade facilitaria a entrada das forças russas na vizinha Donetsk. O governador regional, Pavlo Kyrylenko, adiantou na quinta-feira que as forças russas estavam a tentar avançar para o sul através de Lyman e Izyum, em direção às principais cidades de Sloviansk e Kramatorsk.

Capturar Severodonetsk daria ao presidente russo, Vladimir Putin, o controlo de toda a região de Lugansk – a região que, com Donetsk, compõe o coração industrial do Donbass – consolidando uma mudança do campo de batalha depois das forças russas terem sido afastadas da capital, Kiev, e do norte da Ucrânia.

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