A vodka de Vladimir Putin

23 jul, 10:49

Está a diminuir a esperança de vida média de alguns dos governos europeus, e a guerra na Ucrânia terá alguma responsabilidade nisso. Em França, de forma menos dramática do que alguns gostariam, o apoio parlamentar a Macron encolheu na presente legislatura como a “peau de chagrin” do conto de Balzac. Crescimento das extremas parlamentares, menos espaço para a moderação, vitória política assinalável de Marine le Pen – e esta, para dizer de forma figurada, não desama Vladimir Putin. Um dos navios-almirante europeus continua por isso a navegar, embora com vaga mais alterosa.

O Primeiro-Ministro britânico, pelo menos em parte por convicção, transformou a guerra na Ucrânia no epicentro da política britânica. Copiou de forma descarada o nosso slogan, mas inverteu-o. Aqui, “vá para fora cá dentro”. No Reino Unido de Johnson, “vá para dentro lá fora”. É verdade que, além da convicção e dos princípios, Boris Johnson tinha uma razão fundamental para “ucranizar” a política britânica: mantinha mais facilmente a cabeça à tona de água. Teve pelo menos um mérito: nestes dias em que tanta gente quer ser Churchill, ele ao menos exprimia-se com o sotaque correto.

Johnson sobreviveu a coisas as mais estapafúrdias. No seu brasão, pontifica a divisa “daqui não saio, daqui ninguém me tira”. Mas não chegou a sua resistência fora do comum para enfrentar o embate dos números periclitantes da economia e pujantes da inflação, em parte devidos às sanções aplicadas à Rússia e à disrupção dos mercados que está em curso. Viveu pela Ucrânia, “morreu” pela Rússia e pelo custo da vida, o que não deixa de ser um símbolo sarcástico das circunstâncias únicas da vida política. Mas, mais do que isso, deixou de ser credível no papel de líder de uma recuperação em que já poucos acreditavam.

Foi sacrificado pelo seu próprio partido, mas reconheça-se a ironia de ter vindo das bancadas do Parlamento britânico a fronda que o fez renunciar. Sim, o mesmo Parlamento que ele fechou à bruta em 2019, para impedir que continuasse a discutir os termos do Brexit. Inventou para o efeito vários pretextos, condenados de forma implacável pelo High Court escocês e de forma menos implacável pelo Supreme Court britânico. Brilhante é que nada lhe tenha sucedido nessa altura (porque os ventos eram de bonança) e caia agora com fragor por causa de um assunto sórdido de costumes que, aos costumes, logo desapareceu da ribalta mediática mal Boris Johnson anunciou que se demitia.

O mesmo Johnson escolheu para si, na última sessão no Parlamento em que participou na qualidade de Primeiro-Ministro, um dos epitáfios políticos mais deliciosos: “Hasta la vista, baby”, foi esta a sua despedida. Não é para qualquer um a escolha de uma deixa do Terminator 2, saindo de cena a fazer de Arnold Schwarzenegger. Os que não apreciam Boris Johnson que não esqueçam que, em 2003, ressurgiu o “Terminator 3, Rise of the Machine”, e ainda houve mais duas sequelas, até que a coisa morreu de exaustão. Por alguma razão correm os rumores por terras de Sua Majestade de que Johnson quer estar de volta daqui a um ano. Logo se verá.

Em Itália caiu também Mario Draghi e o seu Governo. Muito mau, ma é a democracia, e a democracia na sua versão italiana especialmente vibrante, sempre são 67 governos em 76 anos. Draghi, sob esta perspetiva, até teve um governo longevo.

O trágico é que o Governo italiano caiu apesar de (ou por) estar a fazer muitas coisas bem, sendo justo realçar a notável seriedade que Draghi deu à ação política e ao ato de governar. Draghi foi, quase de forma unipessoal e sem fazer especialmente por isso, uma espécie de seguro de vida reputacional da Itália e da gestão que se queria serena das reformas exigidas por Bruxelas (desta vez, sensatas). Fica a Itália pior, porque mais expostas as suas debilidades perante os famosos “mercados” que, de forma sempre muito elegante, vão repetindo baixinho o dizer do cangalheiro antigo: “não quero que ninguém morra, só quero que a vida me corra”.

Como é que isto aconteceu?

Há uma semana, faltou à chamada na votação de uma moção de confiança no Senado italiano um dos partidos que o apoiava (o 5 Estrelas). Saio, disse Draghi. O Presidente italiano pediu-lhe que tentasse de novo – foi pior a emenda que o soneto. Aqueles que o queriam derrubar faltaram outra vez à votação da segunda moção de confiança, pelo que o ainda Primeiro-Ministro italiano teve uma vitória pífia e insuficiente. Desta feita, além do 5 Estrelas, faltou a Liga (de Matteo Salvini, o homem que usa t-shirts com a cara de Putin), o pós-fascista Irmãos de Itália, de Giorgia Meloni e, naturalmente, Silvio Berlusconi e o seu Força Itália.

Não se sabe ainda o que fará Mario Draghi. Irá a jogo nas eleições de setembro (e, se for, como)? As sondagens em Itália revelam que uma grande maioria dos italianos não queria eleições agora. Mas todas mostram um mais do que provável fortalecimento da direita ultra embora, no que se refere à questão russa ou até à formação de um Governo estável, as coisas piem mais fino. Por enquanto, vai à frente o Irmãos de Itália, fortemente atlantista apesar de politicamente execrável quanto ao resto, seguido de perto pelo Partido Democrático (esquerda moderada). Esta cacofonia de direitas e extremas-direitas não é toda a favor da Rússia e do seu ato de agressão em curso. Mas muita dela é, e terá (a ser possível fazer nesta altura previsões) mais protagonismo depois das eleições.

Do ponto de vista exclusivamente político, Vladimir Putin bebeu com certeza uma excelente vodka (russa) para celebrar a queda de Draghi, como já deve ter bebido quando caiu o governo britânico (neste caso, era uma questão já pessoal).

Convinha é que não déssemos pretexto para o líder russo beber em excesso.

O cansaço em relação ao conflito é algo que todos sabiam ser inevitável. Desse cansaço não tem, no entanto, de resultar uma quebra significativa na unidade dos Estados europeus e na sua determinação em enfrentarem a agressão russa.

Os governos estão a cair por duas razões fundamentais. Uma é uma evidência, do tipo daquilo que se cantou sobre o Senhor de la Palice quando tombou na batalha de Pavia, em 1525: “se não tivesse morrido/ainda estava vivo”.

A verdade de la Palice que agora nos importa é a seguinte: os governos caem porque nas democracias essa é uma coisa que lhes pode acontecer. Mas isto não significa que tenham de cair, mesmo em democracia, por causa da guerra e dos seus custos. Não pode é julgar-se que aplicam aos povos – passe o exagero – aquilo que o escocês tentou com o seu burro: quis ensiná-lo a não comer, e estava a pobre alimária quase a aprender quando, desgraçadamente, morreu de fome.

Talvez alguns dos governos europeus se tenham distraído com a emoção destes tempos, esquecendo que o exercício do poder obriga sempre a olhar intramuros, quaisquer que sejam os factos importantes que acontecem noutras paragens – de Bruxelas a Kiev.

Temos tanta mais eficácia na frente externa quanto mais serena estiver a frente interna, é dos livros. E não é possível dizer sem prazo aos cidadãos, e aos partidos, que aguentem o que está e o que possa aí vir, porque o que se passa na Ucrânia é mais importante.

Quando se pressente (é uma imagem) o rugido surdo das pessoas (dos cidadãos) quando passam pela caixa no supermercado, ou na bomba de gasolina, ou quando o seu dinheiro está cada vez mais curto, ou quando lhes é dito que no Inverno pode ser pior…é crucial ouvir, e aceitar humildemente que não há dois mundos separados, cá dentro e lá fora. E fazer por isso, por ser sempre melhor evitar a invocação de princípios superiores para justificar desleixos internos e a “irrelevância” daquilo se passa na nossa casa, quando comparado com a emergência ucraniana.

Um pouco de medida e de racionalidade nunca fez mal a ninguém. Não estamos na terceira Guerra Mundial, e ainda bem – embora o Papa Francisco diga que sim (mas é uma Guerra Mundial às fatias). Não estamos em combate direto com a Rússia, mas garantimos que a Ucrânia possa defender-se da agressão de que é vítima, e de forma cada vez mais efetiva.

Estar em guerra ou apoiar quem está em guerras são coisas diferentes, mas, ouvindo algumas declarações mais inflamadas, dir-se-ia que não. Diga-se outra vez: um pouco de medida é sageza, não é defeito.

Note-se, porém, que por vezes se adotam comportamentos peculiares nas relações externas por razões de puro impacto político interno. Assim creio poder explicar-se, apenas para dar outro exemplo, a decisão lituana de bloquear (parcialmente) o trânsito de mercadorias do território russo para o enclave (russo!) de Kaliningrado. Como ninguém exporta para si mesmo, dificilmente se encontraria justificação para esta medida contra a Rússia em quaisquer dos pacotes de sanções decididos pela União Europeia. Mau exemplo, bom exemplo. Porque a Comissão lá explicou que talvez fosse boa ideia não dar pretextos à Rússia para se fazer de vítima.

Porque ninguém quer que Vladimir Putin abra mais uma garrafa de vodka (russa), deveria ter-se presente uma regra muito simples. Seremos mais eficazes a ajudar a Ucrânia no seu esforço se não começarem a cair como tordos os Governos que a apoiam, em benefício de outros com muito menos estima por Kiev (ou bastante mais estima por Moscovo).

Naquela dicotomia entre o 8 e o 80, o 80 costuma ser apresentado como ótimo. Porém, passa a péssimo e é desgraduado a 8 se tiver custos como aqueles que se sentem agora em Itália. Não foi isso que aconteceu com o Governo de Draghi: mas a política do tudo ou nada tem quase sempre um travo amargo no fim da linha.

Seria também bom que, agora em maré de exemplos, na defesa de um princípio fundamental de proibição do uso da força, não sacrificássemos, ainda que “provisoriamente”, outro caminho não menos fundamental, de combate às alterações climáticas. A forma como em 150 e tal dias, aqueles que temos de guerra na Ucrânia, abandonámos a importância que dizíamos coletivamente atribuir à transição energética; como aceitamos e até nos dispomos a financiar o regresso ao carvão; como validámos por muitos anos o nuclear e o gás (veja-se o documento taxonomia, de fevereiro de 2022, adotado pela Comissão e mais tarde confirmado pelo Parlamento Europeu); e como já sabemos desde 2021, pelas Nações Unidas, que a subida de temperatura global em 1,5°C pode acontecer já em 2030 (e não em 2040, como ainda se supunha em 2018), causa surpresa e preocupação. A sensação é ainda mais vívida numa altura em que temos perante nós, todos os dias, aquilo que está a vir, com fenómenos climáticos extremos, as temperaturas a dispararem para níveis nunca vistos. Afinal, tudo aquilo que António Guterres descreveu como o risco do nosso suicídio coletivo. Também nestes pontos, mais tarde ou mais cedo, os cidadãos cobram e fazem bem em cobrar.

Por muito grave que seja o conflito na Ucrânia (é), por muito decisivo que seja o nosso empenhamento (é), nem a realpolitik consegue explicar decisões que contendem, em sentido literal, com a sobrevivência da Humanidade.

Da mesma maneira, oxalá alguns tenham sentido um pouco de incómodo ao perceberem que não eram só os cereais ou o óleo de girassol ucranianos que estavam bloqueados pelos russos; era também a exportação dos cereais e fertilizantes russos, bloqueada por nós.

É importante, pela positiva, o impacto de mais de 80 mil milhões de euros das “sanções” europeias sobre o agressor russo, e os mais de 50% das exportações russas que deixaram de se fazer, pelo menos para cá. Porém, estas “sanções” sobre os cereais e fertilizantes russos matam grande parte da nossa argumentação apaixonada em defesa dos povos que sofrem a fome por causa da guerra.

Podemos ser simples, ou demagógicos, e retorquir que só há sanções porque a Rússia invadiu a Ucrânia. No entanto, o argumento é insensato, imoral e violador de direitos humanos. Nunca é legítimo castigar um infrator, por grave que seja a sua infração, se não pudermos ignorar que, inevitavelmente, com aquele “castigo” vão sofrer muito gravemente povos inteiros com a penúria resultante daquilo a que eles deixam de aceder. “Não vão poder comer, mas é por causa da Rússia. Compreendam, não podemos permitir que ela exporte cereais e fertilizantes por aquilo que está a fazer à Ucrânia”. Alguém se atreverá a dizer esta “verdade”, com esta crueza?

É por estas e por outras que António Guterres já é um dos grandes Secretários-Gerais da história das Nações Unidas. Já foi testado várias vezes nesta guerra, passou sempre com distinção. É um artífice decisivo do acordo para desbloquear a crise alimentar global (com o contributo da Turquia), mostrou, mais uma vez sem espavento, como se pode e deve negociar, mesmo com o inimigo. Sem perder a face, sem lhe dar ganho de causa e, sobretudo, reforçando a coerência na aplicação de princípios fundamentais, pilares das democracias e da decência.

As democracias são melhores, muito melhores do que qualquer alternativa. O custo desta infinita vantagem é serem mais exigentes. Mas, cumpridas as suas exigências, aceites os limites daquilo que se pode “exigir” aos cidadãos (porque estes, na volta do correio, nos mandam passear), e os limites que se impõem em quaisquer circunstâncias (mesmo contra a Rússia, mesmo a favor da Ucrânia), não há motivo para temer a “fragilidade” do apoio das opiniões públicas. Mas, também é uma lei de bronze destas coisas, as tais opiniões públicas costumam ter as costas largas.

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