Os malandros dos gatos russos

20 jun, 14:46

Os tempos do tempo longo

Se dúvidas pudessem ainda subsistir, estão dissipadas: a guerra na Ucrânia pode durar anos (Secretário-Geral da NATO), ou durar o tempo que quiser, porque cá estaremos (Estados Unidos) e, apesar do efeito de cansaço que começa a sentir-se, a Ucrânia vai precisar de apoio durante anos, e é nosso dever assegurar que a Ucrânia “tenha a resiliência estratégica para sobreviver” (Boris Johnson). O sinal, repetido uma e outra vez ao longo da semana, não podia ser mais claro. Vai ser um conflito de resistência, de braços de ferro sucessivos, de paciência e determinação.

Mais do que confirmado: a guerra vai muito para além dos dois contendores e não depende de nenhum deles, tomado isoladamente. A Rússia, mantendo-se o apoio dos aliados da Ucrânia, não conseguirá dar a estocada final e não se lhe veem por enquanto portas de saída airosas. A Ucrânia, ela, só poderá continuar a lutar mantendo-se, em linha constante e não interrompida, o apoio financeiro e militar dado pelos seus aliados. É bom que se tenha presente este dado, até para cuidarmos do que se vai passando no interior dos apoiantes da Ucrânia. Mudam-se os ventos dentro, podem mudar os ventos fora.

E sobre os aliados? Os Estados Unidos são o menos dependente. Já sabem o custo a pagar e já o assumiram, com a superior vantagem de não precisarem do gás ou petróleo russos para nada. Por outro lado, sabem que o que agora estão a pôr à conta de dispêndio alimenta e reforça a respetiva indústria de defesa e conforta de maneira perene as suas exportações noutras áreas (em particular, de gás). Simplesmente, os Estados Unidos não são uma abstração, porque hoje são estes, mas pode acontecer que só estes (só esta liderança ou “similar”) estejam com a vontade necessária de afrontar o tempo com a tal paciência bastante pouco comum na política em geral e nas relações internacionais em particular. Lembram-se da retirada a galope da Síria em 2019?

Os tempos fora e as mudanças do tempo dentro

O abalo das eleições legislativas francesas chama mais uma vez a atenção para algo que temos tendência a esquecer. Somos democracias, e, por o sermos, os resultados eleitorais às vezes complicam a governação (é o caso francês) e podem ou não manter ou enfraquecer o apoio à causa ucraniana. Não deverá ser o caso, mas há dois tópicos a tomar em consideração. Por um lado, para haver governação sem especiais sobressaltos, vai voltar-se à negociação parlamentar, com mais abertura aqui e ali e mais ação política interna. Para além disso, o resultado do “Rassemblement National” de Marine le Pen é, a par da perda da maioria absoluta da coligação “presidencial” e, vá lá, do NUPES de Mélenchon, o mais impressionante que sai destas eleições.

Os oitenta e nove deputados lepenistas chegam com um sistema eleitoral muito desfavorável (maioritário a duas voltas). É um salto tremendo, se nos lembrarmos que já há 36 anos que a Frente Nacional (agora rebatizada RN) não tinha grupo parlamentar. Trinta e seis anos. Mesmo na altura, isso só aconteceu porque, a título excecional e por cálculo político de Mitterrand, o sistema eleitoral foi mudado para o proporcional (mitigado, dito proporcional departamental). Em 1986, a FN teve trinta e tal deputados: agora, muito mais do que duplica este número, em condições de muito maior dificuldade. Branco é, galinha o põe: muitos eleitores deixaram de ter problemas em escolher um candidato RN, mesmo que não seja do seu “partido”. Não é dramático, mas é relevante: a “normalização” de le Pen está alcançada.

Para os tempos ucranianos, longos como são, convirá não esquecer: Marine le Pen é tendencialmente pró-Putin (esta é uma afirmação delicada) e, em 2014, apoiou a anexação da Crimeia.

Tempos feios

Os tempos na guerra são feios, por definição. Tempos de exceção, de menos direitos, de uma sociedade entre parênteses para enfrentar o agressor. Tempos que o próprio direito regula, com regras próprias.

Só que, quando a guerra continua e está para durar, e, depois, se concentra numa determinada parcela do País, e quando, além disso, é nessas parcelas que reside a grande maioria de uma minoria linguística e cultural, é incompreensível e censurável a vários títulos a série de proibições em que se lançou o regime ucraniano. A proibição legislativa agora decidida de publicações ou música em língua russa, a proibição de autores da nacionalidade do “Estado agressor”, os comités de desrussificação, o recurso a conceitos sinistros como o de colonialismo cultural, anunciam o sonho de um país culturalmente puro, monolinguístico, mono várias outras coisas.

Oxalá não seja como parece estar a desenhar-se, porque do que se trata é de sabermos como é que a Ucrânia de agora vê a Ucrânia de amanhã, depois desta guerra de agressão.

Só com cidadãos que não falem russo? Com cidadãos russófonos ou que só falam o russo, mas proibidos de ler na língua que conhecem ou de ouvirem música na sua língua-“mãe”? Sem esses seus cidadãos, dando-se-lhes o sinal de que devem abandonar o País e desandarem para a Rússia, porque já não são parte possível num País que proscreve aquilo que é a sua matriz identitária principal? Se um cidadão ucraniano só souber falar russo, é infrator ou suspeito de algo? Se alguma coisa estiver escrita em russo, deve ser afastada ou interdita? Mesmo que se trate de um poema de Pushkin?

Será esta uma altura inconveniente para colocar este tipo de perguntas, porque ajuda o agressor russo? É esta a nossa posição? Os direitos humanos valem universalmente, mas com exceções nacionais?

Não se argumente alegando que esta é uma resposta à agressão russa ou àquilo que a Rússia fez e faz aos ucranianos. Esse tipo de razões abaixa-nos ao standard russo, e muito mau sinal é que os que se dizem democratas adotam a bitola do autocrata.

Estas perguntas são aborrecidas? Talvez. Pense-se, no entanto, que a lei que proíbe o russo chega na mesma altura em que festejamos a mais do que provável aceitação da Ucrânia como candidata à União Europeia, e àquilo que nos define, na trilogia bem conhecida: Estado de Direito, direitos humanos e direitos das minorias. Desculpe, pode repetir?

É de aguardar, com expectativa, os avanços no processo de adesão da Ucrânia. De facto, a Carta dos Direitos Fundamentais da UE estabelece, no art. 21, n.º 1, que “é proibida a discriminação em razão, designadamente, do sexo, raça, cor ou origem étnica ou social, características genéticas, língua, religião ou convicções, opiniões políticas ou outras, pertença a uma minoria nacional, riqueza, nascimento, deficiência, idade ou orientação sexual”. E o art. 22, por seu turno, afirma que “a União respeita a diversidade cultural, religiosa e linguística”. Ou será que vamos chegar a essa altura e se mudam estes dois preceitos, acrescentando-se, no fim, “exceto se for russo”?

Os vigilantes (também) entre nós

Fora da Ucrânia, vários Países têm dado o seu contributo entusiasta para este cancelamento de tudo o que for russo. Se parássemos um pouco que fosse, a simples ideia de que um desportista russo, ou um músico, ou um dançarino, estão proibidos de fazer o que sabem só porque são russos terá sempre de ser considerada como violação grosseira de direitos humanos, como a imposição de uma cultura do medo e da vergonha com base na nacionalidade ou na origem.

Não, dirão alguns. Encontrou-se uma solução mais “equilibrada”. Aceita-se a presença de russos (de russos, que horror!) se este se expressarem, publicamente, contra a agressão de Moscovo. A solução, no entanto, constitui outra violação evidente de direitos humanos. Pensava-se que o tempo do pelourinho já tinha passado, que a ideia da responsabilidade coletiva tinha sido superada, mas, não. Voltámos à autocrítica pública como forma de purga e penitência? Alguém se lembra de quem fez isto?

Além disso, a medida é insensata, de pouco tino e muito desamor democrático.

No mínimo, a Rússia é um Estado autoritário, suponho que sobre este ponto o consenso seja alargado. Será que algum dos esclarecidos proponentes destas soluções de humilhação pública pensou no que acontecerá à família, relações ou amigos daqueles que atacarem o “líder” Vladimir para terem o “privilégio” exercer a sua profissão?

Sopram ventos muito estranhos nestes tempos de intolerância. Cada um tem de mostrar que vai mais longe do que os outros. Mate-se ou, vá lá, proíba-se (mesmo que simbolicamente) tudo o que cheire a russo: esta é agora uma tarefa confessional, quase religiosa.

Bem percebeu esta linha de conduta a inenarrável Federação Internacional Felina (FIFe). Tomada de brios, e porque não é menos que os outros, entendeu por bem reagir à agressão russa com uma proibição total da inclusão nos livros de pedigree de quaisquer gatos russos, isto é, criados na Rússia ou que, vindos de alhures, sejam propriedade de nacionais russos. Os bichos deixam, além disso, de poder participar em quaisquer exposições e exibições fora da Rússia. Os gatos russos, esses malandros, se quiserem miar, que miem lá na terra deles.

Esta “brilhante” ideia de “brilhantes” mentes é, como se vê, muito importante, até porque vem de uma entidade determinante nas relações internacionais. Pois não é a própria FIFe que se apresenta como “as Nações Unidas das federações de gatos”?

Quem percebeu tudo foi a Sociedade Canina Internacional. Não sei que importância e representatividade reivindica, mas sei que não se preocupa nada com a nacionalidade dos canídeos. Adotou um leitmotiv acolhedor: “Dê ao seu cão o reconhecimento que merece”! Na verdade, continua, “para quê sofrer com a tirania das exibições de cães, a indignidade de pessoas que julgam ou a hierarquia das associações de criadores”?

O pode ser russo ou ser ucraniano, pode ser português ou malaio, todos são acolhidos. Enfim, mais ou menos. Só é necessário que os respetivos donos aceitem o pagamento de uma pequena contribuição, entre 14,98$ ou 27,45$, optando entre um certificado “Premium”, “Superlativo” ou “In Memoriam” (https://internationalcaninesociety.org).

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