Os aeroportos que atravessam mais do que um país

CNN , Miquel Ros
3 dez 2021, 15:00
Aeroportos que cruzam fronteiras
Aeroportos que cruzam fronteiras

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Quem se aventura a fazer viagens internacionais na era covid, enfrenta uma navegação através de um labirinto de regras e restrições em mutação constante.

Se quiser evitar ficar retido duas semanas, deverá verificar se os seus documentos estão em ordem antes de atravessar qualquer fronteira internacional. É ainda mais relevante se o destino é um de vários aeroportos nos quais se arrisca a ficar retido no país errado, se não tiver cuidado quando sai do avião.

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Os seguintes aeroportos, ou pelo menos partes deles, são geridos por mais de um país, acrescentando todo um novo sentido à frase “aeroporto internacional”.

Euroairport Basel-Mulhouse-Freiburg (BSL)

O Euroairport Basel-Mulhouse-Freiburg (foto acima) foi, invulgarmente, um aeroporto concebido de raiz para ser um espaço binacional.

Localizado junto do local onde as fronteiras de França, Suíça e Alemanha se encontram, como o seu nome indica, o Euroairport serve três cidades: Basileia (Suíça), Mulhouse (França) e Freiburg (Alemanha). Destas, Basileia é a maior e também a mais próxima do aeroporto, algo que está refletido no seu código IATA, BSL.

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Apesar de o aeroporto se situar em território francês, a Suíça desfruta de alguns direitos extraterritoriais graças a um tratado bilateral especial  que torna o Euroairport, para muitos efeitos e finalidades, um aeroporto suíço e francês. Desde a década de 1980, que as autoridades alemãs também estão representadas em alguns dos órgãos de gestão do aeroporto.

Em termos práticos, isto significa que há um setor francês e um setor suíço, com uma divisória meio do terminal. Cada setor tem os seus postos de controlo e as suas alfandegas, com funcionários dos respetivos países.

Porém, o aeroporto continua a estar em território soberano francês e as forças de segurança francesas têm a seu cargo a segurança das instalações.

A entrada da Suíça na área de vistos de Schengen da União Europeia amenizou esta divisória e, desde 2008, tem sido possível circular livremente entre os dois setores do aeroporto.

A maioria dos serviços no terminal está disponível nas versões francesa ou suíça, dependendo do setor em que as pessoas se encontram.

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As lojas e os cafés no setor francês aceitam euros, enquanto que as suas congéneres suíças aceitam francos suíços (preços e marcas também se equiparam aos dos respetivos países). E apesar de raramente usadas atualmente, cabines telefónicas e caixas de correio refletiram também durante muitos anos esta divisão nacional.

Os viajantes com destino à Suíça podem chegar a Basileia através de uma estrada especial que passa em território francês, mas não tem postos fronteiriços porque está ao abrigo das disposições de um tratado  bilateral que permite que autocarros urbanos suíços cheguem ao terminal.

Estas disposições foram recentemente postas à prova quando França e a Suíça implementaram diferentes requisitos de entrada relativos á covid. Nalguns pontos durante a pandemia, os viajantes com destino a França, por exemplo, deveriam fazer um teste, enquanto que a Suíça não exigia testes, mas exigia quarentena. O assunto ficou resolvido através da separação física de viajantes para a Suíça enquanto estas medidas estiveram em vigor.

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"Somos um laboratório de cooperação transfronteiriça," diz à CNN Claire Freudenberger, diretora de comunicação externa do Euroairport.

Genebra (GVA)

O Aeroporto de Genebra, também conhecido informalmente pelo nome antigo, Cointrin, situa-se inteiramente em território suíço, mas só isso. A ponta da pista estende-se para a fronteira francesa. As curvas acentuadas para a direita que a fronteira faz ao longo do perímetro do aeroporto não são, na verdade, aleatórias.

Quando em 1950 as autoridades suíças queriam alargar a pista de aterragem o aeroporto, a única opção exequível era fazê-lo já em território francês.

O assunto ficou resolvido através da assinatura de um tratado internacional, segundo o qual França e a Suíça teriam trocado terrenos de dimensão equivalente. Os suíços poderiam alargar a pista e, em troca, concediam a França o usufruto de uma parte do aeroporto.

O denominado “Setor Francês”, que está ligado a território francês através de uma Estrada para o efeito, permite ao viajantes franceses embarcarem em voos para Paris e par outros destinos em França sem terem de passar pela alfândega suíça.

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Apesar de as instalações serem em território soberano suíço, os estabelecimentos comerciais do setor francês negoceiam em euros e aplicam impostos franceses.

Uma vez que Suíça está integrada na zona Schengen, mas não faz parte da união alfandegária da UE, a alfândega francesa opera também no terminal.

Uma comissão conjunta com representantes ao mais alto nível de ambos os lados da fronteira reúne pelo menos uma vez por ano para tratar de assuntos relacionados com estes acordos internacionais.

"Neste momento, o setor francês está limitado a quarto portas de embarque, o que pode constituir um constrangimento às vezes.

"A entrada da Suíça do espaço Schengen trouxe novas possibilidades; por exemplo, estamos a estudar a possibilidade de passar de um conceito físico do setor francês para um conceito baseado nas necessidades operacionais do aeroporto sempre que se justifique," diz ao CNN Travel Gael Poget, diretor dos Assuntos internacionais a governamentais no Aeroporto de Genebra.

Cross Border Xpress (CBX)

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O Cross Border Xpress permite às pessoas atravessarem a fronteira EUA-México através de uma passagem aérea pedestre. Cortesü/Notimex/Newscom/Zuma

O muro que existe ao longo de várias zonas da fronteira EUA-México teve ampla cobertura mediática. No entanto, menos conhecido é um ponto em especial em que se pode atravessar a pé por via aérea, desde que se seja portador de um cartão de embarque.

Desde 2016,que o terminal de 120 milhões de dólares do Cross Border Xpress (CBX) está ligado da zona de Otay Mesa de San Diego, na Califórnia, ao terminal principal do Aeroporto Internacional de Tijuana por uma passagem pedestre.

O CBX possibilita aos viajantes fazerem o check in dos seus voos em solo americano, e passarem a pé até à porta de embarque no México. Os preços dos bilhetes começam nos 16 dólares de ida para atravessar ponte, que em 2019 registou quase três milhões de passageiros em trânsito.

Aeroporto Internacional de Gibraltar (GIB)

O Aeroporto de Gibraltar situa-se em território disputado.
Oli Scarff/Getty Images
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Enquanto os anteriores aeroportos da lista são exemplos de cooperação internacional, Gibraltar continua a ser um caso muito mais contencioso, dada a disputa de soberania entre o Reino Unido e Espanha deste Território Ultramarino Britânico.

O Aeroporto de Gibraltar foi construído aqui antes da Segunda Guerra Mundial na ponta do istmo Gibraltar, a metros da fronteira espanhola e em terras que Espanha alega não estarem incluídas Tratado de Utrecht, segundo o qual o Rochedo era cedido à Grã-Bretanha.

Em 2006, durante um “temporário desanuviamento das relações” centrado no Acordo de Córdova, o RU e Espanha acordaram que o novo terminal do aeroporto de Gibraltar estaria acessível através do lado espanhole houve até mais conversações sobre a possibilidade de uma empresa conjunta a fornecer alguns serviços no terminal.

Contudo, nenhuma destas iniciativas se concretizou. Só a parte britânica do terminal foi construída (ficou operacional em 2012), por isso, os viajantes vindos de Espanha têm de passar pela passagem de fronteira adjacente para o terminal para entrar no aeroporto.

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A disputa afeta também o espaço aéreo de Gibraltar, cuja inclusão na proposta “Iniciativa Céu Único Europeu” bloqueada por Espanha. Os voos diretos Gibraltar e aeroportos espanhóis são possíveis, apesar de estarem sujeitos a acordo entre o RU e Espanha. A companhia aérea espanhola Iberia operou uma rota de Gibraltar durante uns anos, mas foi descontinuada em 2008.

"A situação atual em relação ao Brexit e à saída do Reino Unido da União Europeia pode agora invalidar o Acordo de Córdova, já que estão a ser exploradas outras opções entre Gibraltar, o RU, Espanha e a EU, mas estas negociações ainda estão em fase muito embrionária," declara ao CNN Travel uma fonte do aeroporto.

Aeroportos dos EUA na fronteira com o Canadá

A fronteira norte dos Estados Unidos tem também vários aeroportos.

Quando em 1846 os EUA e a Grã-Bretanha finalmente acordaram o Paralelo 49 como fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá, não podiam prever as necessidades futuras da ainda por nascer indústria da aviação.

A mais longa extensão de fronteira ininterrupta do mundo em linha reta atravessa as instalações de seis campos de aviação que abrem caminho os Grandes Lagos para o Pacífico.

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Para ser justo, o termo "aeroporto" é algo exagerado aqui, visto que a maioria desses campos de aviação é pouco mais do que uma pista não pavimentada no meio de pradarias. No entanto, continuam a ser pontos de entrada que estão sujeitos às formalidades de viagens transfronteiriças.

Vamos ver onde se situam, de Oeste a Leste.

Campo Avey, Washington

Tendo apenas quatro residentes permanentes (segundo dados dos Censos 2020 dos EUA), não impediu o pequeno posto avançado de Laurier, Washington, de se gabar de ter o seu "aeroporto internacional".

O facto de a ponta da sua pista de gravilha se estender 150 metros para território canadiano garante que uma boa parte dos 800 movimentos registados no “Campo Avey” são voos internacionais.

Ambas as instalações alfandegárias, dos EUA e do Canadá, estão situadas junto da pista.

Aeroporto Internacional Del Bonita/Whetstone, Montana

Trata-se de uma fileira de aeroportos cujas pistas não pavimentadas se situam literalmente na linha de fronteira.

Com propriedade e gestão do estado do Montana, o Aeroporto Internacional Del Bonita/Whetstone também é acessível do lado canadiano.

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Há um posto alfandegário no extremo ocidental do campo de aviação.

Coronach/Scobey Border Station Airport, Montana

Mais uma pista que se situa precisamente na linha de fronteira. O campo de aviação Coronach/Scobey Border Station não deve ser confundido com o aeroporto Scobey 9S2 que fica próximo, alguns quilómetros a sul, e se gaba de ter uma pista pavimentada.

Este aeroporto está classificado pelo Canadá como ponto de entrada, apesar do total de 10 movimentos no ano de 2019 não deve certamente dar muito trabalho ao pessoal do posto fronteiriço adjacente.

Aeroporto Internacional Coutts/Ross, Montana

As aeronaves podem aceder à pista não pavimentada no campo Coutts/Ross tanto dos EUA como do Canadá, visto que a linha de fronteira passa precisamente pelo meio.

Aqui, o tráfego também é mínimo, com menos de uma dúzia de movimentos por ano (como indicam dados de 2019).

Aeroporto Internacional Peace Garden, Dacota do Norte

Aeroporto Internacional Peace Garden situa-se na fronteira EUA-Canadá.
Jim West/Alamy
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Apropriadamente batizado com o nome de um parque das redondezas criado em 1932 para celebrar a amizade entre o Canadá e os EUA, a maior parte do Aeroporto Internacional Peace Garden, incluindo a pista e as instalações principais, situa-se em solo americano.

No entanto, parte da pista estende-se para o lado canadiano da fronteira, possibilitando a operação de aeronaves de e para o Canadá.

Aeroporto Fronteiriço Piney-Pinecreek, Minnesota

Imagem de satélite do Aeroporto Fronteiriço Piney-Pinecreek.
Maxar Technologies/Getty Images

A duplicidade de nomes do Piney-Pinecreek alude à utilização conjunta do aeroporto pelas vilas de Pinecreek, no Minnesota, e Piney, em Manitoba.

Ao contrário dos aeroportos vizinhos, este tem uma pista pavimentada que terminava mesmo junto à fronteira. Na década 1970 a necessidade de alargar a pista para acomodar aeronaves maiores levou o aeroporto a avançar para norte (O perímetro sul já estava delimitado por uma estrada), tornando-se assim um aeroporto binacional.

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