Pilotos e tripulantes mostram os lugares secretos onde descansam nos voos mais longos

CNN , Jacopo Prisco
3 jul, 11:00
Os lugares secretos nos aviões que são zonas interditas para os passageiros (CNN)

Existem algumas áreas secretas nos aviões de maiores dimensões, onde os pilotos e a tripulação de cabine vão descansar durante os voos de longa duração. Sob circunstância alguma, os passageiros não têm acesso a estas zonas, que se encontram bem escondidas.  

Estas zonas são chamadas de Compartimentos de Descanso da Tripulação e a sua localização no avião varia.  

Nos aviões mais novos, como o Boeing 787 ou o Airbus A350, estas zonas de descanso localizam-se acima da cabine principal, na fuselagem superior. No entanto, nos aviões mais antigos, estes espaços podem localizar-se no porão ou simplesmente na cabine principal.  

Estas zonas vêm em pares. Há uma zona para os pilotos, que geralmente se encontra por cima do “cockpit”. Muitas vezes, esta inclui dois beliches e uma cadeira reclinável. A zona para a tripulação de cabine, geralmente, contém seis beliches ou mais. Esta encontra-se na parte da galé posterior do avião. É nesta zona traseira que os alimentos e as bebidas são preparados e armazenados. 

Como um hotel-cápsula 

Quando compram um avião, as companhias aéreas têm uma palavra a dizer sobre a configuração das áreas de descanso da tripulação. Contudo, os parâmetros principais são definidos pelos reguladores da aviação, como a Administração Federal de Aviação. Esta entidade determina, por exemplo, onde as áreas de descanso da tripulação devem estar, tendo em conta “os locais onde os ruídos intrusivos, os odores e a vibração têm um efeito mínimo no sono". De igual modo, nesta zona deve poder controlar-se a temperatura e a tripulação pode ajustar a iluminação. 

Os beliches ("ou outra superfície que permita uma posição plana para dormir") têm de ter as seguintes dimensões: 198 por 76 centímetros. As pessoas altas têm de ter cuidado. Ao seu redor, tem de haver pelo menos um metro quadrado de espaço. De igual forma, tem de haver uma área comum onde se possa mudar de roupa, entrar e sair. Esta zona tem de ter, pelo menos, 1,5 metros quadrados de espaço. 

A área de descanso da tripulação num Boeing 777 (Boeing/ CNN)

O resultado final é um pouco semelhante a um hotel-cápsula japonês: um espaço apertado para se dormir, sem janelas, mas aconchegante. Nesta zona há tomadas elétricas e uma luz. Aqui também se encontram todos os equipamentos de segurança necessários, como máscaras de oxigénio, um painel com as luzes dos cintos de segurança e um intercomunicador, entre outros.  

"Estes podem ser bastante confortáveis", diz Susannah Carr, hospedeira da companhia United Airlines. Ela trabalha em aviões Boeing, incluindo os 787, 777 e 767. 

"Aqui, há um colchão, ventilação para manter o ar a circular e podemos controlar a temperatura, de forma a manter o ar mais frio ou mais quente. Também temos disponíveis lençóis, geralmente semelhantes aos usados nos nossos voos internacionais, na classe executiva. Eu gosto, mas meço quase 1,80 cm. No entanto, se for para lá alguém com 1,95 cm, os beliches podem ser um pouco apertados", diz ela. 

Mas são melhores do que um assento na classe executiva ou em primeira classe? 

Carr diz: “De certa forma sim, mas de certa forma não. Os beliches podem ser mais largos do que os assentos da primeira classe. Para mim, dependendo do avião, eu tenho mais espaço para as pernas. Mas é um beliche. Por isso, e por estarmos na cabine, não conseguimos necessariamente relaxar. De igual modo, também não temos privacidade. Se uma pessoa é claustrofóbica, irá sentir isso lá: é um avião e por essa razão, só há espaço para colocarmos as coisas. Seguramente, faz-se uso de cada centímetro disponível.

Escondido 

 

A área de descanso para os pilotos é perto do “cockpit”  (Boeing/ CNN)

As áreas de descanso da tripulação são concebidas para não atrair muito a atenção dos passageiros, independentemente da zona onde se localizam. "Provavelmente, um passageiro que passe pensaria que se trata de um armário", diz Carr.  

"Eu não vou explicar muito sobre a forma como se chega até lá. Só posso dizer que é seguro. Ocasionalmente, há pessoas que pensam que é a porta da casa de banho e tentam abri-la. Em vez disso, nós mostramos o caminho para a casa de banho verdadeira.” 

Geralmente, atrás da porta há um pequeno patamar e uma escada que leva para a parte de cima, pelo menos nos últimos modelos de aviões. 

"Os beliches são abertos de um dos lados ou numa das extremidades. Assim, rasteja-se lá para dentro. Por vezes, refiro-me a eles, em tom de brincadeira, como ‘as catacumbas' ", diz Carr. 

Em aviões um pouco mais antigos, como o Airbus A330, o compartimento de descanso da tripulação também pode localizar-se no porão. Chega-se até lá através de uma escada. Mas em aviões ainda mais antigos, como o Boeing 767, as áreas de descanso localizam-se na cabine principal e são apenas assentos reclináveis com cortinas.  

"São cortinas muito pesadas. Estas bloqueiam a luz e algum som. No entanto, não impedem que o som passe se houver uma multidão enérgica no avião ou se uma criança estiver a fazer birra. Tivemos passageiros a abrirem as cortinas. Procuravam algo ou pensavam que iam para a zona da galé. Por isso, este não é necessariamente o melhor tipo de descanso." 

Sem surpresa, a maioria do pessoal de bordo prefere os beliches aos assentos fechados. Mas a modernização também é benéfica para as companhias aéreas, uma vez que estas não têm de abdicar do precioso espaço na cabine. Em vez disso, este pode ser usado para assentos para os passageiros. 

Ordem de antiguidade 

Uma imagem dividida de uma área de descanso da tripulação de cabine de um A350 da companhia Finnair. À direita está a entrada, cujo acesso se faz pela zona da galé dianteira. 
Aleksi Kousmanen / Finnair / CNN

Em voos de longa distância, o pessoal de cabine gasta, geralmente, pelo menos 10% do tempo de voo nas áreas de descanso.  

"Em média, eu diria que isso significa cerca de 1,5 horas por voo de longa duração", diz Karoliina Åman, hospedeira da Finnair. Ela trabalha em aviões Airbus A330 e A350. No entanto, isto pode variar. Depende da companhia aérea e da duração do voo. Assim, o tempo de descanso pode durar até algumas horas.  

Ela diz: "Como não temos nenhuma área privada no avião para o nosso almoço ou para pausas para o café, esse período de descanso é extremamente importante e útil para nós.” 

"Durante o voo, este é o momento em que não atendemos os pedidos dos passageiros, nem fazemos qualquer outra tarefa. Só descansamos. Deixamos que os nossos pés, bem como a nossa mente tenham uma pausa. O objetivo deste descanso é mantermo-nos alerta durante todo o voo. Assim, se algo inesperado acontecer, estamos prontos para agir." 

No entanto, nem todos dormem, pelo menos uma vez no beliche. 

"Normalmente, num voo que saia de Helsínquia, eu uso o meu período de descanso para ouvir algum audiolivro ou leio um livro, uma vez que venho de casa e já descansei. Contudo, num voo com destino a Helsínquia, podemos ter passado muitas noites sem dormir. Por exemplo, eu tenho problemas para dormir na Ásia. Então, durante o resto do voo, geralmente adormeço. Por vezes, acordar desse sono pode ser uma experiência muito difícil, caso o nosso cérebro tenha mudado para o modo de sono noturno", diz Åman. 

 

Para chegar à área de descanso neste avião A330 SAS, o pessoal de cabine desce um pequeno lanço de escadas. 
Philippe Masclet/master films/Airbus/ CNN

"O ‘jet lag’ pode ser complicado", diz Carr, "Às vezes, eu posso relaxar e posso dormir, mas, outras vezes, o meu corpo não está pronto para dormir uma sesta. Mas como estamos numa pausa, podemos usar os nossos telefones. Assim, podemos ver um filme ou lemos um livro.” 

As áreas de descanso são fechadas durante o taxiamento, bem como na descolagem e na aterragem. Estas zonas são usadas com base nos turnos supervisionados pelo chefe de cabine, ou comissário chefe, como se diz na gíria da aviação. O chefe de cabine é a pessoa que está encarregue de todos os outros e supervisiona as operações a bordo. 

Normalmente, essa pessoa consegue usar um beliche especial que fica perto da entrada das áreas de descanso. Esta tem acesso a um intercomunicador para se comunicar com os pilotos e com o resto da tripulação. 

Carr explica: "No nosso ramo, tudo se baseia na antiguidade, desde o horário em que se voa até às rotas que se pode fazer, bem como os dias de folga. Quem trabalhar lá há mais tempo, terá mais vantagens. Uma dessas vantagens é escolher o tempo de pausa da tripulação. Nós vamos por ordem de antiguidade. Então, a pessoa que é a mais velha no voo pode escolher se prefere a primeira ou a segunda pausa. Assim, percorre-se a lista, de forma que todos tenham pausas."  

Vantagens dos pilotos 

A área de descanso para os pilotos, que é separada da do pessoal de bordo, fica perto do “cockpit”. Dependendo da duração do voo, pode haver até quatro pilotos a bordo, mas dois estarão sempre no “cockpit”. Por esta razão, a área de descanso dos pilotos tem apenas dois beliches. Nos aviões mais antigos, terá apenas um. No entanto, esta área inclui um assento, por vezes equipado com entretenimento de bordo, que não se encontra disponível para a tripulação da cabine. Fora isso, os compartimentos são semelhantes.   

"Geralmente, eu durmo muito bem lá", diz Aleksi Kuosmanen, piloto-chefe de frota na Finnair. 

Kuosmanen voa em aviões A330 e A350. Ele diz que prefere a área de descanso deste último modelo, que se situa acima da galé dianteira, em vez de se localizar por cima da cabine principal. "Tem cortinas muito boas. Podemos ajustar a temperatura e há uma grande ventilação. Também é mais à prova de som. Não ouvimos nada do que acontece nas galés. De facto, é silencioso e confortável. 

Da próxima vez que estiver num voo de longa duração, mantenha-se atento para a porta discreta na parte da frente ou detrás do avião. Caso veja um piloto ou uma hospedeira desaparecer, isso significa que pode ter encontrado uma área de descanso. 

Mas fique ciente de que os membros da tripulação não vão ficar felizes em mostrar-lhe aquela zona, uma vez que o acesso dos passageiros às áreas de descanso é proibido: "É um pouco como a Disney: mantemos a magia atrás de portas fechadas", diz Carr. 

"Os passageiros não querem necessariamente saber que as hospedeiras estão a fazer uma sesta, mas, ao mesmo, ficam felizes quando aparecermos com bom aspeto depois de termos dormido." 

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