Veja como poderá ser viajar num lugar de avião de dois andares

CNN , Francesca Street
2 jul, 09:00

Voar em classe económica durante um período de tempo longo é uma experiência geralmente mais suportada do que apreciada, mas um designer de cadeiras de avião acredita que o seu projeto poderá revolucionar as viagens económicas.

O conceito “Chaise Longue Airplane Seat” de Alejandro Núñez Vicente começou em pequena escala no ano passado, como um projeto universitário para o então jovem de 21 anos. Uma nomeação para os prémios Crystal Cabin de 2021 - um dos principais prémios da indústria da aviação – seguiu-se rapidamente, e o design tornou-se o foco de uma enxurrada de atenção online após um artigo da CNN Travel.

Desde então, Núñez Vicente tem causado agitação no mundo da aviação. Ele fez uma pausa no seu mestrado para desenvolver o projeto a tempo inteiro.

Está em negociações com grandes companhias aéreas e fabricantes de cadeiras de aviões. Recebeu um grande investimento que permitiu que o projeto se desenvolvesse.

Mas enquanto alguns se maravilham com a inovação de Núñez Vicente, outros recuam, preocupados com a claustrofobia e convencidos de que sentar alguém por baixo de outra pessoa seria pior, não melhor, do que a atual configuração da classe económica de um avião.

“Aprendo mais a ouvir as críticas e os comentários negativos do que a ouvir os comentários bons e os elogios que me fazem”, diz Núñez Vicente, em conversa com a CNN Travel em Hamburgo, na Alemanha, onde está a apresentar o seu design na Feira de Interiores de Aeronaves 2022.

O design é para o viajante habitual e Núñez Vicente diz que está ansioso por ouvir o que têm para dizer os futuros passageiros, quer sejam coisas positivas ou negativas.

"O meu objetivo é mudar as cadeiras da classe económica para bem da humanidade, ou para todas as pessoas que não podem pagar os bilhetes mais caros”, diz ele.

Núñez Vicente deve receber ainda mais feedback esta semana. A Feira é uma das maiores do mundo da indústria da aviação e ele está a estrear o primeiro protótipo em escala real do seu projeto.

A CNN Travel parou para ter uma ideia de como seria voar num lugar de avião com dois andares.

O teste ao conceito

 A cadeira de avião Chaise Longue em exibição na Feira de Interiores de Aeronaves 2022, em Hamburgo (Francesca Street/CNN)

Primeiro, o nível superior. Núñez Vicente desenhou o protótipo com dois degraus em forma de escada para os passageiros usarem para aceder ao nível superior. É um pouco instável, mas uma vez lá para cima, a cadeira pareceu-me espaçosa e confortável, com muito espaço para esticar as pernas. As cadeiras do protótipo não se movem, mas cada uma delas está configurada numa posição diferente para indicar como podem reclinar.

O projeto de Núñez Vicente anula o compartimento superior de bagagem. Para o substituir, ele projetou um espaço entre os níveis superior e inferior para os passageiros guardarem a bagagem de mão.

Nos vastos salões do centro de conferências Hamburg Messe, é difícil imaginar como seria estar tão perto do teto da cabina. Núñez Vicente calcula que haveria cerca de 1,5 metro a separar o passageiro sentado da parte superior do teto da cabina do avião. Ele argumenta que, embora um passageiro não consiga ficar de pé naquele espaço, isso já acontece muitas vezes nas atuais filas da classe económica, embora, presumivelmente, os passageiros mais altos sejam ainda mais “esmagados” por este design.

Em seguida, experimentei o nível inferior de cadeiras. A frustração de Núñez Vicente com a falta de espaço para as pernas foi o ímpeto original para o design e o facto de não ter uma cadeira no mesmo nível, à minha frente, permite-me esticar as pernas e pousar os pés num descanso, para mais conforto.
Ainda assim, como o outro nível de cadeiras está diretamente por cima de mim e na minha linha de visão, a sensação é bastante claustrofóbica. Mas para quem não se importar com espaços apertados e pretender simplesmente dormir durante todo o voo, esta pode ser uma solução eficaz.

Próximos passos

Os espaços semelhantes a casulos têm um descanso para os pés de forma a que os passageiros possam esticar as pernas (Francesca Street/CNN)

A cadeira Chaise Longue foi inicialmente projetada para o avião Flying-V, um novo conceito de avião atualmente em desenvolvimento na Universidade de Tecnologia Delft, a alma mater de Núñez Vicente.

Agora, ele acredita que o projeto pode ser implementado num Boeing 747, num Airbus A330 ou em qualquer outro avião de médio a grande porte.
Núñez Vicente é ambicioso e está confiante de que o seu projeto pode tornar-se uma realidade, mas também reconhece que as ideias invulgares para as cadeiras de aviões nem sempre passam do conceito à realidade. É um processo demorado, e as regras e regulamentos rigorosos do setor podem tornar-se um obstáculo.

Além disso, as cadeiras das filas da classe económica de um avião não mudam há décadas, apesar dos muitos conceitos imaginados pelos designers.

“Uma das frases que ouço muito é: ‘Se não está partido, para quê substituí-lo?’”, admite Núñez Vicente. “Portanto, se os passageiros continuam a voar nas piores cadeiras da classe económica, porque lhes vamos dar uma opção melhor? Isto dá dinheiro. E, no final de contas, é esse o objetivo das companhias aéreas, não tornar a experiência de voo melhor para os passageiros.”

Ainda assim, o designer de cadeiras de avião já está a trabalhar na próxima etapa do processo, projetar a estrutura de forma a que seja mais leve do que a versão atual.

Ele espera fazer uma parceria com uma companhia aérea ou um fabricante de cadeiras de avião, para que isso possa acontecer.

“Neste momento, estamos a mostrar ao mercado o que temos. E deixamos que o mercado venha dizer-nos o que precisamos de fazer a seguir”, diz ele.

Núñez Vicente pode estar a colaborar com especialistas do setor com anos de experiência, mas o projeto começou no quarto da casa dos pais dele, e a família continua a ser uma parte importante do processo.

Ele está na Feira com os pais a tiracolo. Eles atravessaram a Europa com o protótipo Chaise Longue numa carrinha, e ajudaram-no a montar as cadeiras no local.

“É claro que, no início, ninguém esperava que isso chegasse ao ponto em que estamos hoje. Mas todos sabiam que eu seria capaz de fazer alguma coisa”, diz Núñez Vicente.

"Se me perguntassem antes, eu teria dito que talvez fosse apenas um projeto universitário. Se me perguntassem agora, depois de todo o trabalho duro, depois de todo o esforço de muitas, muitas pessoas - eu diria que agora é mais uma realidade. Vemos isto como o futuro da classe económica.”

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