Aeronave terá sofrido uma falha ao tentar ganhar altitude a 251 metros. Um piloto de aviação civil aponta à CNN Portugal que tanto a companhia aérea, como o modelo do avião eram tidos como bastante seguros
Custa em média 248,3 milhões de euros, já transportou milhares de milhões de passageiros em todo o mundo e até esta quinta-feira tinha um recorde imaculado de acidentes. O Boeing 787-8 Dreamliner, o avião que se despenhou na Índia minutos após levantar voo, é descrito pela própria companhia como a “aeronave de grande porte mais vendida de sempre”.
É também, dentro do setor, o mais veloz avião de grande porte de sempre, além de ter uma estrutura que permite economizar o consumo de combustível até 25%. Segundo dados da Boeing, há hoje mais de 1.175 aviões desta gama em serviço, com mais de dois mil voos diários. Para além da Índia, este modelo é operado por companhias aéreas espanholas, francesas, japonesas, mexicanas e do Canadá.
Tiago Faria Lopes, piloto de aviação civil, sublinha que este modelo é amplamente conhecido pela sua segurança. “É um avião bastante recente, foi construído em dezembro de 2013 e foi entregue à Air India em janeiro de 2014”. “É muito recente, não tem acidentes de manutenção nem incidentes de performance no seu espaço de tempo na Air India, portanto, é um avião extremamente seguro”.
O 787-8 foi o primeiro modelo da categoria Dreamliner a entrar em serviço comercial. Esta variante é também a mais pequena da gama - tem 57 metros de comprimento, pode transportar até 248 passageiros e operar a uma distância de até 13.529 quilómetros. No total, descola com uma carga útil de 250 toneladas - o que é um peso máximo de descolagem ligeiramente inferior em comparação com as variantes mais avançadas.
Foi, precisamente, minutos após descolar que o avião se despenhou na cidade de Ahmedabad, na Índia. Com destino a Londres, de acordo com a imprensa indiana, o avião era comandado pelo comandante Sumeet Sabharwal, que tem mais de 8.200 horas de voo e pelo copiloto Clive Kundar, com 1.100 horas de voo.
A aeronave terá sofrido uma falha ao tentar ganhar altitude a 251 metros. Ao enfrentarem dificuldades para manter a subida, os pilotos emitiram um pedido de socorro (Mayday), momentos após a aeronave cair. Segundo declarações, citadas pelo jornal Times of India, do especialista em aviação indiano Sanjay Lazar, a causa do acidente pode estar relacionada com uma série de fatores, como uma colisão com aves ou uma configuração incorreta para a descolagem.
Tiago Faria Lopes destaca que a descolagem e a aterragem são as fases mais críticas em que existe maior possibilidade de existir um acidente. “De acordo com as imagens, a aeronave descola e, passado mais ou menos um minuto, começa a catástrofe”. “Espero que os pilotos tenham detetado alguma falha e que tenham agido de acordo com os treinos que fizeram, o que acredito, porque a Air India é uma companhia que tem algum histórico de segurança”.
A bordo estavam sete portugueses que morreram, como outras 234 pessoas. O avião caiu sobre uma zona residencial e também há mortos entre os que estavam no solo.
Denunciantes avisaram sobre falhas de segurança na Boeing
Ainda assim, nos últimos anos, a Air India tem estado no centro de uma série de acidentes mortais a envolver transporte de civis. Em 2020, pelo menos 18 pessoas morreram quando um avião operado pela Air India Express, uma subsidiária da companhia mãe, se despenhou no estado de Kerala, no sul da Índia, após derrapar para fora da pista. Antes disso, em 2018, uma aeronave Boeing 737 sofreu danos após colidir com um muro do aeroporto durante a descolagem. E, oito anos antes, um outro voo revelou-se mortal após o avião ter ultrapassado a pista do aeroporto de Mangalore e caído por uma encosta, levando a que o aparelho se incendiasse. Morreram 158 pessoas.
Até ao momento em que for recuperada a caixa negra do voo não se saberá, de facto, o que causou este acidente. Mais um, numa altura em que a Boeing tem estado no epicentro de vários acidentes nos últimos anos: desde 2024, foram registados pelo menos 7 incidentes a envolver aparelhos deste fabricante.
Há mais de um ano, Sam Salehpour, um engenheiro da Boeing, passou uma informação ao jornal New York Times que resultou numa ampla investigação àquela que é uma das maiores fabricantes de aviões do mundo. Segundo referiu, em entrevista em abril de 2024, a Boeing tomou atalhos no fabrico dos seus jatos 777 e 787 Dreamliner e que os riscos podem tornar-se catastróficos à medida que os aviões envelhecem.
Não foi o único. Em 2019, John Barnett, outro ex-trabalhador da Boeing, deu uma entrevista à BBC onde relatou que, sob pressão das chefias, os trabalhadores estavam deliberadamente a instalar peças abaixo do padrão nas aeronaves. Referiu ainda ter descoberto problemas graves nos sistemas de oxigénio, o que poderia significar que uma em cada quatro máscaras de respiração não funcionaria numa emergência. A empresa negou as acusações.