"Não foi bonito, mas não esteve a segundos de uma catástrofe": "jamming" é uma de "três hipóteses" para avião da TAP ter "violado altitude de segurança"

16 fev, 21:17

Aconteceu na Chéquia. Como "é habitual" nestas circunstâncias, os pilotos foram temporariamente retirados do serviço. "É uma situação extremamente stressante. Vão descansar e colaborar com a investigação"

Três hipóteses distintas e, para já, nenhuma confirmação oficial: o incidente com o Airbus A320neo da TAP, que a 17 de janeiro desceu abaixo da altitude mínima de segurança durante a aproximação ao Aeroporto Václav Havel, na Chéquia, está sob investigação das autoridades checas. À CNN Portugal, o comandante José Correia Guedes detalha o que pode ter estado na origem de um episódio que obrigou a uma manobra de recuperação imediata.

O voo TP1240, que ligava Lisboa a Praga, encontrava-se estabilizado a 4.000 pés e preparava-se para interceptar o sistema de aterragem por instrumentos (ILS) da pista seis. Ainda não tinha iniciado a descida final quando, de forma súbita, perdeu altitude.

"De repente, o avião perde altitude e pica - eu insisto no 'pica' porque a razão de descida é muito forte, muito violenta - para 2.600 pés, que é mil pés abaixo da altitude de segurança", explica o comandante.

Essa é a altitude mínima definida para garantir margem face a obstáculos naturais ou estruturas artificiais num raio de cerca de 40 quilómetros do aeroporto. Voar abaixo desse limite, sobretudo em condições de instrumentos e sem visibilidade exterior, representa um risco significativo.

Foi o que aconteceu. Em plena aproximação, com nevoeiro denso e sem referências visuais, a tripulação foi alertada pelo controlo de tráfego aéreo para a descida indevida. O sistema de aviso de proximidade ao solo (TAWS) também foi ativado. A resposta foi imediata: subida para 5.000 pés, afastamento da trajetória e nova tentativa de aproximação. O avião aterrou em segurança cerca de 11 minutos depois, sem feridos nem danos.

Mas o que levou o aparelho a descer antes do tempo? José Correia Guedes aponta três cenários possíveis - de qualquer maneira, sublinha: "Não foi bonito".

O primeiro é erro humano. "Os pilotos podem, por qualquer razão, ter perdido a 'situation awareness' e iniciado a descida antes de interceptar o ILS", afirma. Em contexto de voo por instrumentos, qualquer desatenção ou interpretação errada de parâmetros pode ter consequências rápidas.

A segunda hipótese é uma falha técnica. O comandante recorda que já houve casos em que aeronaves entraram em descida sem comando explícito da tripulação, devido a problemas nos sistemas automáticos. "Não seria a primeira vez que um Airbus perdia altitude sem ter sido comandado para tal."

A terceira possibilidade é "interferência eletrónica" externa - conhecida como jamming - que pode afetar sinais de GPS. "É algo que acontece com frequência na região do Báltico e na Polónia e que já aconteceu em Praga", refere, admitindo que uma interferência eletrónica possa ter influenciado os sistemas de navegação.

O incidente foi classificado pelas autoridades checas como um caso de CFIT (Controlled Flight Into Terrain), situação em que uma aeronave se aproxima perigosamente do solo sem que a tripulação tenha plena perceção do risco. O Instituto de Investigação de Acidentes Aéreos da Chéquia lidera agora o inquérito, com colaboração da TAP.

As caixas negras - o gravador de voz da cabine e o gravador de dados de voo - já foram enviadas para análise, avança o comandante, que acrescenta que, como é habitual nestas circunstâncias, os pilotos foram temporariamente retirados do serviço.

"É uma situação extremamente stressante. Vão descansar e colaborar com a investigação", explica. E vinca: "O avião não esteve a dois ou três segundos de bater em coisa nenhuma, violou foi a a altitude de segurança". "Insisto: não foi bonito mas não esteve a segundos de criar uma catástrofe".

A imprensa da Chéquia escreveu que o avião "esteve a segundos de ter acidente em pleno voo".

O que aconteceu

A companhia aérea portuguesa confirmou à CNN Portugal que está a “investigar internamente” o que se terá passado com o Airbus A320neo, que “esteve a segundos de se despenhar” na capital checa, de acordo com a Radio Prague International.

"A TAP está a investigar internamente a situação e a colaborar inteiramente com a investigação das autoridades competentes da República Checa", disse à CNN Portugal fonte oficial da companhia aérea portuguesa.

Segundo a Radio Prague International, o Airbus A320neo da TAP "esteve a segundos de se despenhar a 60 quilómetros de Praga", num incidente que as autoridades aéreas locais consideram “um dos mais graves registados no aeroporto de Praga nas últimas décadas”, ainda segundo aquela mesma fonte.

O voo em casa, o TP1240, tinha partido de Lisboa com destino a Praga, e ficou a menos de 300 metros do solo a alta velocidade perto de Krivoklát. Segundo a rádio checa, conseguiu “evitar o acidente graças a uma manobra de subida de última hora executada pela tripulação”.

O incidente em causa registou-se na manhã de 17 de janeiro em condições meteorológicas “muito adversas”, com elevados níveis de nevoeiro e uma baixa velocidade.

Segundo o Kiosque da Aviação, um portal especializado em notícias sobre o setor, o avião estava “em fase de aproximação à pista 06 do Aeroporto Václav Havel quando a aeronave desceu abaixo da altitude mínima publicada para o procedimento”.

Ainda de acordo com aquela publicação, o A320neos estava “autorizado a manter 4.000 pés, mas acabou por atingir cerca de 2.600 pés acima do nível médio do mar, valor inferior ao mínimo de segurança definido para aquela fase da aproximação".

Os controladores aéreos da Chéquia emitiram então dois alertas à tripulação por detetarem uma descida indevida, o que motivou a ativação do sistema de aviso de proximidade ao solo (TAWS), “levando os pilotos a iniciar uma subida imediata para recuperar a altitude segura”.

"Após estabilizar a aeronave, a tripulação efetuou uma nova aproximação, desta vez dentro dos parâmetros estabelecidos, culminando numa aterragem sem incidentes cerca de 11 minutos depois", refere ainda o Kiosque da Aviação, acrescentando que não houve feridos nem danos na aeronave.

De acordo com a Radio Prague International, o incidente foi registado como um caso de CFIT (Controlled Flight Into Terrain), em que a aeronave se aproxima do solo sem que a tripulação esteja ciente do perigo, normalmente devido a erros na configuração dos sistemas de voo.

Entretanto, decorre uma investigação oficial do Instituto de Investigação de Acidentes Aéreos, que criou uma comissão para determinar se o desvio resultou de fatores operacionais, humanos ou técnicos.

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