Este avião pode permanecer meses no ar

CNN , Jacopo Prisco
8 mai, 19:00

Em 2016, um avião de aparência bizarra, coberto por mais de 17.000 painéis solares, mostrou ao mundo um vislumbre do futuro da aviação. Com a envergadura de um Boeing 747, mas pesando apenas o mesmo que um SUV, circum-navegou a Terra sem usar uma gota de combustível.

O Solar Impulse 2 foi uma criação do explorador suíço Bertrand Piccard e do engenheiro suíço Bertrand Borschberg, e foi construído para mostrar o potencial da energia renovável. Após o voo recorde, tinha atingido o seu objetivo - mas agora está a ganhar uma nova vida.

Em 2019, foi comprado pela Skydweller Aero, uma startup de parceria norte-americana e espanhola que visa transformar o avião no primeiro “pseudossatélite” comercialmente viável do mundo, capaz de fazer o trabalho de um satélite em órbita, mas com maior flexibilidade e menor impacto ambiental.

“Um pseudossatélite é uma aeronave que fica no ar, digamos, indefinidamente”, diz o CEO da Skydweller, Robert Miller. “Isso significa 30, 60, 90 dias - talvez um ano. E, como tal, pode fazer basicamente qualquer coisa que imaginamos que um satélite faz.” Isso inclui fornecer telecomunicações e imagens da Terra, bem como resposta a desastres e monitorização de recursos naturais.

Mais barato e mais ecológico

Usar uma aeronave para tais aplicações é mais flexível e mais barato, porque os satélites são caros de construir e têm de ser lançados em órbita com recurso a um foguete, geralmente movido a combustíveis fósseis. Também é mais sustentável, porque os satélites têm um tempo de vida útil limitado e, eventualmente, são desativados, muitas vezes aumentando o problema do lixo espacial. Uma pesquisa recente descobriu que grandes constelações de satélites podem danificar a camada de ozono, libertando substâncias químicas à medida que ardem ao reentrarem na atmosfera terrestre.

Depois de comprar o Solar Impulse 2, a Skydweller passou meses a modificá-lo e voltou a colocá-lo no ar, pela primeira vez, em novembro de 2020. Desde então, completou 12 voos de teste, no clima ensolarado do sudeste de Espanha. “Estamos no processo de transformá-lo num drone”, diz Miller. “O piloto continua lá, por uma questão de segurança, mas já temos a capacidade de tornar a aeronave completamente autónoma.”

 

O Solar Impulse 2 a sobrevoar a ponte Golden Gate, em São Francisco, a 23 de abril de 2016, durante a circum-navegação do globo

 

As descolagens e aterragens ainda são manobradas pelo piloto, mas Miller diz que o próximo passo é adicionar sistemas que as tornarão automáticas. “Depois disso, podemos tirar o piloto da aeronave. Estamos a iniciar a construção de uma segunda aeronave que nem sequer tem cockpit”, acrescenta. Retirar o piloto e o cockpit abre espaço para cargas maiores e é um passo necessário para permitir que o avião voe durante semanas ou meses (o voo mais longo do Solar Impulse 2 foi de pouco menos de cinco dias).

Miller diz que a aeronave pode entrar ao serviço já em 2023 e ele acredita que haverá um mercado para uma frota de milhares. Empresas como o Facebook e a Google já testaram pseudossatélites, mas nunca desenvolveram um produto comercial.

“Certamente haverá uma procura crescente pelo tipo de serviços que a Skydweller fornece”, diz Jeremiah Gertler, analista de aviação da Teal Group, uma empresa de análise do mercado aeroespacial e de defesa. “Embora haja outros a oferecerem soluções semelhantes e diferentes para missões de altitudes elevadas e de resistência longa, há uma clara vantagem em ser a primeira formiga no piquenique.”

Monitorização dos oceanos

Tal como aconteceu com os satélites, o projeto está a atrair interesse antecipado para aplicações governamentais e militares. A Marinha dos EUA investiu 5 milhões de dólares na Skydweller para investigar a capacidade da aeronave de realizar patrulhas marítimas, para as quais a Marinha emprega atualmente drones que não podem voar mais do que 30 horas, e a Unidade de Inovação da Defesa - uma organização da Defesa que procura tecnologia emergente para as Forças Armadas dos EUA - brindou a Skydweller com um contrato de 14 milhões de dólares. No entanto, Miller diz que vê a Skydweller como “muito mais comercial do que governamental”.

Muitas das suas potenciais aplicações trazem benefícios ambientais, incluindo a monitorização do uso de recursos naturais - por exemplo, patrulhar o oceano em busca de pesca ilegal ou derrames de petróleo resultantes de perfurações em alto mar. “Existem formas de fazer isso com o sistema de teledeteção de uma aeronave, mas é extremamente difícil fazê-lo a partir de um satélite”, diz Miller.

É provável que as telecomunicações sejam uma utilização importante para a aeronave da Skydweller, porque o seu uso para fornecer acesso à Internet ou rede móvel pode ser economicamente viável nas situações em que um satélite ou uma infraestrutura tradicional não seriam.

Em novembro passado, a empresa anunciou uma parceria com a Telefonica, uma das maiores operadoras de rede móvel do mundo, para desenvolver soluções de conectividade que podem oferecer rede em regiões onde ela não existe ou onde é muito fraca, por todo o mundo. A aeronave da Skydweller funcionaria como uma “torre de telecomunicações no céu”, sem deixar uma pegada física ou de carbono. Também poderia fornecer uma infraestrutura temporária de comunicações em zonas de desastre.

 

O Solar Impulse 2 chega de Genebra ao hangar da Skydweller em Albacete, Espanha, em julho de 2020

 

A aeronave da Skydweller pode também oferecer apoio aéreo durante operações de busca e salvamento, por exemplo, durante incêndios florestais, com a flexibilidade de poder descolar de aeroportos existentes, ser destacada para milhares de quilómetros de distância e permanecer no ar durante meses - sem emissões de carbono. É capaz de voar à noite, recorrendo a uma bateria que contém energia armazenada durante o dia.

Entre os desafios que a Skydweller enfrentará está o facto de o avião precisar de luz solar para voar, algo que limitará a sua utilização em certas latitudes - e também os regulamentos sobre aeronaves não tripuladas. “Os governos ainda não estão convencidos quanto aos veículos não tripulados, e abrir espaço aéreo para uma missão de longa duração seria um novo desafio”, diz Gertler, analista de aviação.

“É uma verdadeira corrida para ver quem resolve os seus problemas primeiro, se a tecnologia ou a regulamentação, mas há todos os motivos para apostarmos na tecnologia”, acrescenta. “Parece provável que chegue à meta antes sequer de os governos começarem a procurar a bandeira axadrezada.”

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