Nova versão do conceito promete mais espaço, conforto e privacidade, após anos de críticas e ajustes
O conceito de assento de avião de dois níveis está de volta, desta vez naquilo que o designer Alejandro Núñez Vicente chama de "declaração final e definitiva".
Apresentado pela primeira vez como um projeto universitário em 2020, depois como um protótipo inicial em 2022, ao longo dos últimos anos este design de dois níveis - chamado Chaise Longue - tem gerado grande agitação nas redes sociais, inúmeros memes e debates fervorosos, desde programas de televisão noturnos até secções de comentários na internet.
Mas, para Núñez Vicente, o assento de avião de dois níveis não é "uma piada da internet que começou há cinco anos". É a sua carreira - um projeto de paixão que continua a entusiasmá-lo mais de meio década depois de ter esboçado a ideia no quarto da universidade.
O conceito Chaise Longue prevê a remoção dos compartimentos superiores do avião para permitir duas filas de assentos, um nível superior e outro inferior, sendo o nível inferior concebido para permitir aos passageiros esticarem-se e desfrutarem de mais espaço para as pernas.
Potenciais viajantes já manifestaram receios de claustrofobia (receios também partilhados pela CNN Travel quando testou o design em 2022 e 2023) e reviraram os olhos à ideia de que o design seria uma forma de encher ainda mais a cabine com passageiros. Núñez Vicente afirma que aumentar a capacidade nunca foi o seu objetivo, mas admite que isso pode ser um fator atrativo para as companhias aéreas. O designer sempre defendeu que o seu objetivo é tornar as viagens aéreas mais confortáveis.
Ele passou os seus vinte anos a aperfeiçoar o conceito juntamente com a sua parceira de vida e de negócios, Clara Service Soto (“Faz-nos sentir um pouco velhos”, afirma Núñez Vicente, de 26 anos, sobre o tempo que passou desde que o Chaise Longue ganhou notoriedade). O casal consulta regularmente CEOs de companhias aéreas e especialistas do setor da aviação, que, segundo eles, veem potencial real no design, apesar das críticas online.
Agora, Núñez Vicente regressou à Aircraft Interiors Expo, em Hamburgo, Alemanha, um dos maiores eventos mundiais da aviação, para apresentar a mais recente maqueta em escala real do seu design - que afirma ser a melhor versão até agora.
"Esta é a maqueta definitiva que conseguimos criar ao nível de uma startup", explica Núñez Vicente à CNN, numa primeira apresentação exclusiva através de videochamada a partir de Hamburgo. "É o nosso melhor."
Abordar questões de privacidade e espaço
Embora Núñez Vicente encare com humor as piadas nas redes sociais - como as que sugerem que passageiros do nível superior poderiam libertar gases - também analisa os comentários em busca de críticas construtivas, notando que as preocupações com privacidade e espaço eram recorrentes.
Com isso em mente, a versão mais recente do conceito aposta em maior privacidade e maior distância entre filas no nível inferior. A nova maqueta inclui um painel que se estende atrás dos assentos do nível superior, proporcionando melhor separação e reduzindo a probabilidade de alguém deixar cair objetos sobre outros passageiros.
E enquanto versões anteriores tinham um nível inferior mais apertado - potencialmente ideal para quem quer apenas dormir, mas menos apelativo para outros - o novo design prevê uma secção inferior muito mais espaçosa.
"Mudou bastante em relação ao espaço reduzido que se via antes", explica Núñez Vicente. "Era um pouco claustrofóbico no início."
As preocupações com acessibilidade também foram consideradas. A primeira fila do conceito é agora pensada para pessoas com mobilidade reduzida, inspirada em projetos que permitem aos utilizadores de cadeira de rodas permanecerem na sua própria cadeira durante todo o voo.
"Queremos criar espaço no nosso conceito para este tipo de inovação também, porque achamos muito importante incluir todos os passageiros", afirma Service Soto.
Durante a apresentação da maqueta, Núñez Vicente mostra que o espaço entre assentos é agora suficiente para os passageiros fazerem alongamentos em pé. Vê até potencial para uma cama totalmente horizontal no lugar do meio, algo que o novo modelo ilustra.
Design económico versus premium
Tornar o design mais espaçoso implica também abdicar do seu posicionamento económico. Núñez Vicente era um estudante sem dinheiro quando criou o Chaise Longue. Com 1,88 metros de altura, estava habituado a sofrer com a falta de espaço nas pernas na classe económica e começou a idealizar um assento barato e confortável.
"Mas temos vindo a mover o conceito para algo mais próximo de uma experiência premium economy". afirma. "Falámos diretamente com companhias aéreas e executivos, e disseram-nos exatamente o que queriam - queriam que este assento fosse mais do que apenas económico."
Em 2024, Núñez Vicente apresentou também um conceito de "classe elevada", uma versão de primeira classe com camas totalmente horizontais e sofás, mantendo a ideia de dois níveis. No entanto, transformar o conceito original numa oferta premium foi inicialmente difícil de aceitar.
"Obviamente queríamos que fosse para todos", conta. "No fim do dia, queres ir do ponto A ao ponto B e, se fizeres parte dos 99% da população mundial, queres pagar o mínimo possível. Queríamos que quem não pode pagar mais tivesse uma experiência melhor."
É difícil, afirma, mudar a mentalidade da indústria da aviação de que a inovação acontece quase exclusivamente nas cabines premium. As classes económicas das companhias aéreas são, em grande parte, idênticas, enquanto a classe executiva e a primeira classe apresentam formas mais variadas e luxuosas - desde a suite com cama de casal da Singapore Airlines nos céus até às janelas de realidade virtual da Emirates.
Vários anos depois, Núñez Vicente tem uma visão mais realista desta realidade da indústria.
"Nos dias de hoje, com esta indústria e as companhias aéreas, não vão dar mais espaço aos passageiros na classe económica - a tendência vai mais para a classe económica premium, e é isso que temos visto", afirma Núñez Vicente.
No entanto, espera que este conceito de classe económica premium seja a "revolução que leva à evolução" - e acredita que, se um design de dois níveis mais caro avançar primeiro, acabará por dar origem a uma versão mais acessível.
De qualquer forma, Núñez Vicente não propõe que os assentos tradicionais de avião desapareçam por completo. A ideia, explica, é colocar os assentos Chaise Longue de classe económica premium no meio da cabine de um avião de fuselagem larga, ladeados por lugares de classe económica normal de ambos os lados.
Um longo caminho a percorrer
A forma exata como tudo isto funcionaria depende das companhias aéreas e das empresas de aviação, nenhuma das quais se comprometeu ainda a produzir o assento. Adaptar aeronaves é caro e demorado, e os procedimentos de segurança e regulamentação para aprovar novos designs são longos e complexos, pelo que é pouco provável que veja o assento Chaise Longue num avião perto de si tão cedo.
No entanto, as grandes figuras da indústria continuam atentas ao conceito - no ano passado, um representante da Airbus disse à CNN que "a Chaise Longue está a explorar alguns conceitos iniciais com a Airbus sobre soluções de assentos de dois níveis para aeronaves comerciais Airbus".
Ao chamar a esta maquete atual a "declaração final" da atual iteração da Chaise Longue enquanto start-up, Núñez Vicente diz que espera conseguir parceiros na AIX 2026 e poder apresentar um protótipo de pré-produção na exposição de interiores de aeronaves do próximo ano, considerando esse cenário "o ideal".
"Pré-produção significa que já foi fabricado utilizando as técnicas e os métodos de fabrico que seriam usados nos assentos finais das aeronaves", explica, referindo que a maquete atual serve apenas para demonstração e é feita com materiais que não podem voar.
O designer está também sempre a experimentar outras ideias nos bastidores.
"Estou a trabalhar em vinte projetos diferentes ao mesmo tempo", conta. "Este é, sem dúvida, o maior. Mas, ao mesmo tempo, especialmente nos últimos dois anos, desenvolvemos alguns projetos paralelos."
Manter-se focado num conceito principal durante vários anos - sobretudo um que não está isento de controvérsia - é por vezes uma "montanha-russa", afirma Núñez Vicente. No entanto, considera que melhorar a experiência dos passageiros e o reconhecimento contínuo da indústria são o que o motiva.
Ele também gosta de ver os potenciais viajantes a interagir com o conceito, tanto online como offline. A Chaise Longue passou grande parte de 2025 a testar passageiros na cidade natal de Núñez Vicente, Madrid, recolhendo opiniões sobre os prós e os contras.
"Aprendemos sempre com o feedback construtivo. Não importa se vem de um CEO de uma companhia aérea ou de alguém na Austrália que comenta e nos dá algo em que pensar", afirma.
E Núñez Vicente ri-se também dos comentários humorísticos - que, segundo ele, não parecem afastar a indústria da aviação.
"Se a indústria não nos rejeitou por causa desses comentários engraçados nas redes sociais, então talvez seja porque temos algo realmente bom a acontecer nos bastidores", acredita.
